RESPONSABILIDADE SOCIAL

Fotografia da minha autoria



«(...) a responsabilidade que compete a todos»


A sociedade evolui na sua essência e constrói pontes para cenários que pareciam distantes e, talvez, impossíveis. Isto, face a certas abordagens, continua a ser uma utopia, porque é impensável que, numa era de informação, de conhecimento e de portas abertas para mentalidades empáticas, se perpetuem comportamentos que em nada glorificam as lutas que se travam em prol de direitos individuais e coletivos.


RESPONSABILIDADE COLETIVA

Responsabilidade social temos todos, independentemente de pairarmos numa esfera mediática ou de vivermos no anonimato. E acredito que parte dessa responsabilidade passa por cada um de nós aprender a filtrar o que consome em rede, tendo sempre presente que a sua história não é igual à dos outros. E, além disso, que a própria postura também será diferente, porque temos visões e propósitos singulares - em tudo na vida.

Reconheço que nem sempre é intuitivo fazer essa gestão, pois, consciente ou inconscientemente, em dias mais vulneráveis, a voz da comparação fala mais alto, as nossas inseguranças assumem o controlo e cobramo-nos em excesso. Mas não podemos exigir que a pessoa que está do outro lado - da tela ou da realidade - se diminua para caber nas nossas fragilidades. Tudo aquilo que publicamos tem impacto e, por vezes, nem temos total noção desse retorno. Porém, não acho que seja saudável cairmos num policiamento extremo: não só porque passaríamos a viver como marionetas, mas também porque existirá sempre quem fique melindrado. E não podemos demorar naquilo que não controlamos, apenas podemos agir com verdade.

Podemos ou não concordar com determinadas decisões, apelos ou pontos de vista. No entanto, isso não nos dá qualquer direito de optarmos pela violência verbal [ou por outro tipo de agressão]; não nos concede qualquer direito de invadirmos um espaço que não é nosso para denegrirmos o seu proprietário. Por isso, a nossa responsabilidade passa, igualmente, por sabermos que existem limites que não deveríamos transpor.


DISCORDAR SEM MALTRATAR

Quando abro as portas de minha casa, não espero que aqueles que recebo cheguem para me maltratar. E o mesmo acontece nas minhas redes/plataformas digitais. A partir do momento em que o conteúdo é público, tenho de estar preparada para receber comentários negativos ou que demonstrem que discordam do que partilho. Faz parte. O que não é aceitável é quando a cordialidade desaparece para dar lugar ao ódio gratuito.

A reflexão que, hoje, escrevo foi despoletada pela polémica recente que envolveu a Catarina Gouveia, após a mesma partilhar uma fotografia do seu pós-parto. Porque continua a chocar-me a quantidade de pessoas tão mal resolvidas que sente necessidade de ser maldosa com alguém que, por muito serena e empoderada que seja, está a passar por um processo vulnerável, com imensas emoções à flor da pele, visto que acabou de ser mãe. E a questão aqui não é ser a atriz/influencer Catarina Gouveia [embora assuma proporções maiores por ser uma figura pública], mas ser uma pessoa que gere a sua vida e as suas redes sociais como entender.

Eu compreendo algumas ressalvas - e reservas -, porque a luta para abraçarmos as nossas imperfeições e para criarmos espaços que mostrem a realidade continuam necessárias. Porque continuamos a precisar de vozes como a da Carolina Deslandes para quebrar estereótipos sobre diferentes tipos de corpos ou de testemunhos como o da Mariana Cabral [Bumba na Fofinha] sobre o lado menos glamoroso da maternidade, atendendo a que comprovam que todas as experiências são diferentes e que, por muito especial e mágica que seja esta nova fase das suas vidas, nem tudo é romantismo, nem tudo é perfeito, maravilhoso e belo.

Mostrar este lado menos encantador é mais uma maneira de criar elos, de permitir que outras mulheres se revejam e percebam que não estão sozinhas, que não partem em desvantagem por não terem tido um momento cinematográfico. Por outro lado, há mulheres que, certamente, tiveram um parto de sonho e não têm de se esconder por isso, não têm de se sentir culpadas por celebrar o seu conto de fadas. Aliás, a culpa não deve habitar nenhum destes cenários, porque um não deve ser oculto em detrimento do outro. São faces da mesma moeda. E tudo depende do respeito com que o tratamos e expomos - em partilhas ou em conversas.

No entanto, reparem, podemos aplicar isto a qualquer outra temática. Se eu fizer uma publicação a referir que li cem livros no ano, isso vai parecer irreal a quem tiver lido dez. E para além de questionar a veracidade da informação, poderá sentir alguma pressão, porque persistirá a ideia que leu muito pouco. Da mesma maneira como eu posso ficar melancólica por acompanhar partilhas de alguém que está sempre a viajar e eu não tenho essa possibilidade. Isto são meros exemplos, mas não deixam de acontecer. E se provocam algum tipo de desconforto, temos sempre uma opção valiosa: deixar de seguir. Não podemos é partir para a base do insulto, nem esperar que as pessoas deixem de partilhar o que as motiva, o que lhes faz sentido e as faz sentir bem.


MAIS AMOR

A minha responsabilidade também transcende na forma como utilizo a liberdade de expressão que me foi concedida. Porque as palavras são sementes, que se enraízam na nossa pele, fazendo florir pontos de luz ou lugares sombrios. E sororidade, feminismo, empatia não são só termos que ficam bem em narrativas de empoderamento, convém que se coadunem com as nossas ações. E, na dúvida, escolham sempre o amor.

20 comments

  1. Gostei da maneira como acaba este texto "E, na dúvida, escolham sempre o amor".
    Um abraço e continuação de uma boa semana.

    Andarilhar
    Dedais de Francisco e Idalisa
    O prazer dos livros

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    1. O amor, próprio e pelos outros, é fundamental, até porque dele provêm muitas outras coisas, como o respeito, a empatia e a solidariedade.
      Obrigada e igualmente, Francisco

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  2. Que publicação tão pertinente. Quando soube dessa polémica com a Catarina Gouveia pensei: porque é que uma mulher não se pode mostrar arranjada e bonita após ter um filho? Todas as mulheres têm que passar a imagem de desgraça após o parto? Compreendo que o parto seja um momento carregado de emoções, mas também bastante cansativo, por tudo o que implica. Mas se a mulher se sentir bem em mostrar-se bonita e arranjada, se tiver condições para isso, porque não? Não vejo mal nenhum. Às vezes, acho que as pessoas estão desatualizadas e acham que o parto hoje em dia é como antigamente.
    Beijinho grande, minha querida!

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    1. Precisamente, é uma escolha que só diz respeito à mulher. Acho importante não se romantizar ao ponto de se vender a ideia que tudo é um mar de rosas, porque há experiências negativas, porque há mulheres que tiveram partos complicados, porque há mulheres que não se sentiram bem durante a gravidez. Mas a verdade é que, por outro lado, também existiram mulheres que viveram uma experiência maravilhosa e não têm de o esconder. É tão melhor concedermos espaço para que se mostrem as duas realidades, sem culpas

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    2. Infelizmente continuam a existir partos como antigamente quando ja nao existem razoes para isso acontecer, infelizmente continuam a existir mulheres vitimas de violencia obstetra... :( existem muitas reportagens da bbc e mesmo da rtp a falarem sobre isso. Eu tive mesmo muita sorte. A medica que fez o meu parto foi muito atenciosa, e de madrugada antes de se ir embora veio ver como estava e dar-me uma abraco a dizer que eu me tinha portado muito bem <3 Depois de anos a ter medo do parto eu so queria que o meu bebe nascesse bem e eu tambem ficasse bem para o poder criar com saude e muito amor

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    3. Infelizmente, continuam, por isso, nesses casos, é necessário falar, denunciar, para que nada falhe na parte profissional. Porque nenhuma mulher deveria ser vítima deste tipo de violência

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  3. O amor é sempre o melhor caminho. É a luz...
    .
    Cumprimentos cordiais.
    .
    Pensamentos e Devaneios Poéticos
    .

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  4. O Amor deve ser sempre a melhor e a unica resposta ;) Como disse no meu Cantinho, hoje em dia devemos pensar muito bem antes de postar ou comentar seja o que for... porque nao sabemos como o que as pessoas que estao do outro lado, estao a passar :( No caso especifico da Catarina, a questao é que ela, felizmente ou infelizmente infuencia muitas miudas e nem todas tem uma auto-estima estavel, o que pode levar, ah se ela pode eu tambem posso... e depois se nao conseguirem fazer igual? Como via ficar a saude mental delas? É so nisso que eu penso... Temos que nos por mais nos sapatos nos dos outros. Eu tambem ja errei mas assumi, pois é assim que aprendemos.

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    1. Eu entendo e também acho que deve existir esse cuidado (por parte de todos nós), mas também não é justo que ela se esconda, que esconda a sua realidade e o facto de ter tido um parto e um pós-parto maravilhoso, por estar em constante policiamento. Até porque, se pensarmos bem, teria de o fazer em todas as suas publicações. Teríamos de o fazer em tudo o que pomos em rede, porque a verdade é que as nossas publicações também podem causar ansiedade em quem está do outro lado.
      Acho importante é filtrarmos se aquilo é uma partilha de um momento feliz da sua vida ou se está a tentar vender uma realidade que não é possível de alcançar

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    2. Bonito era se todos conseguissemos ser verdadeiros e mostrar a realidade pura e crua tal como ela é... palavras do meu marido

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    3. Mas se aquela for a realidade dela [que tem seguido toda a filosofia de tudo o que partilha], não poderia mostrar um lado que não viveu.

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  5. Há pessoas que, infelizmente, estão nas redes sociais com o propósito de maltratar e de ofender. É lamentável que assim seja.
    Isabel Sá
    Brilhos da Moda

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    1. Infelizmente, também acho que sim. Era tão melhor se fossemos cordiais uns com os outros. É que não temos de gostar de tudo, nem concordar com tudo, mas não temos de maltratar

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  6. Nem sempre é tudo como queremos, mas uma coisa digo devia haver muito mais amor e paz era tudo muito mais feliz.
    Adorei bastante a tuas palavras

    Beijinhos
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    Tem Post Novos Diariamente

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    1. Se nos respeitássemos uns aos outros, seria mesmo muito mais fácil

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  7. Há muitas pessoas maldosas, se o mundo tivesse mais amor o mundo seria diferente, Andreia bjs.
    https://www.lucimarmoreira.com/




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  8. Concordo. Quando vejo posts ou contas com as quais não me identifico, não sigo e não interajo. É verdade que podemos comentar com uma opinião contrária, de forma respeitosa, mas honestamente não sinto que o instagram seja uma rede social muito dada a isso.

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    1. Opiniões contrárias que privilegiam sempre essa base de respeito são bem-vindas e, mais do que isso, necessárias - acredito que é assim que crescemos. O problema é que quando isso não se verifica e caímos na tentativa de impor só a nossa visão.

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