ALMA LUSITANA
GUIMARÃES: INQUIETA

Fotografia da minha autoria



Tema: Um livro só com uma palavra no título

Avisos de Conteúdo: Aborto, Negligência Parental, Saúde Mental, 
Relações Tóxicas, Referência a Suicídio, Linguagem/Cenas Explícitas


As marcas do passado assumem uma importância bastante significativa na nossa vida, ainda que se manifestem de um modo subtil, praticamente silencioso, para os demais. No entanto, os fantasmas - e os traumas - inquietam-nos e desestabilizam-nos, ao ponto de a nossa postura levantar muitas dúvidas. Mas a verdade é que, mesmo que alguns comportamentos sejam suspeitos, há muitas coisas que se ocultam com facilidade, porque vamos encontrando mecanismos que nos protejam. E sendo as doenças mentais, grande parte das vezes, tão inaudíveis, caímos no erro de assumir que está tudo bem - porque também nos conseguem fazer acreditar nessa perceção, tal como acontece no livro mais recente de Susana Amaro Velho.


A LINHA TÉNUE ENTRE A REALIDADE E A FANTASIA

Inquieta coloca-nos na rota de Julieta, uma mulher com uma vida aparentemente perfeita, mas que está a «um passo de saltar de uma ponte». Esta descrição deixa-nos, de imediato, apreensivos, com atenção redobrada, visto que é uma sequência que parece não encaixar. Por consequência, torna-se percetível o quanto somos iludidos e manipulados; o quanto nos sentimos perto de desvendar o mistério para, depois, sermos obrigados a recuar, revendo cada sinal presente nas entrelinhas e reconstruindo as palavras que ficaram por pronunciar.

«Olharam-se e, naquele gesto, cabia um passado de paixão e de mágoa»

A escrita da autora é crua, é dura, é visceral, transportando-nos para o sufoco de uma história perto do abismo. E por nos aproximar tanto dessa realidade, misturamo-nos com as vivências das personagens, caminhamos sobre os seus passos e tentamos compreender o que as move, o que as desnorteia. E por serem tão palpáveis as suas emoções, tive vontade de atravessar as páginas deste manuscrito para abanar a protagonista, desentorpecê-la. Por outro lado, também quis abraçá-la. Muito. E resgatá-la da sua habituação à dor. E senti a impotência de nem sempre conseguirmos prestar auxílio aos nossos, sendo o porto seguro que necessitam.

«(...) mas precisava de chorar. De se limpar. De se lembrar. Ali, sozinha, permitia-se 
recordar cada momento. Cada cheiro. Cada beijo. Sem julgamentos e sem testemunhas»

Oscilamos, portanto, entre o amor e o ódio, entre a crença e a negligência, porque não estamos certos de sermos capazes de entender estas personagens - principalmente, Julieta -, atendendo a que há aspetos que aparentam não fazer sentido. Mas esta é, também, uma das mensagens desta história: a importância de não desacreditarmos os demónios de terceiros por estarmos do lado de fora de tudo aquilo que eles implicam.

«E ela precisava com urgência de andar para a frente. Mesmo sendo ao pé-coxinho»

Dividido em duas partes, a primeira revelou-se um pouco mais lenta do que gostaria, pois sinto que se tornou repetitiva [mesmo reconhecendo o quanto é fundamental contextualizar cenários], mas a segunda é vertiginosa, de uma urgência que vicia. E é nesta travessia que unimos as peças soltas e que procuramos decifrar qual será o momento em que tudo ruirá. É neste desenlace que nos perdemos a ler compulsivamente, ficando claro que é muito ténue a linha que separa a realidade da fantasia, assumindo ambas como um todo.


UMA LUZ DE ESPERANÇA

As pontes que Susana Amaro Velho construiu evidenciam o quanto aquilo que nos acontece e aqueles com quem nos cruzamos nos moldam. Além disso, levantam questões importantes: será que conhecemos as lutas de quem amamos? Será que teríamos ferramentas para os ampararmos? Reconhecendo que precisam de ajuda, sentiríamos as suas dores? Até que ponto a intervenção profissional é benéfica, caso se ocultem informações cruciais? É por tudo isto que creio que esta obra é um apelo: de empatia, de respeito, de amor.

«Naquela amizade destacava-se uma palavra, um anúncio a letras maiúsculas e de 
cores aguerridas: sororidade. Aquela era a verdadeira relação de afeição entre irmãs»

O tom manipulador, que se manifesta ao longo do enredo, confunde-nos. Faz-nos refletir sobre presença, sobre pertença, sobre os elos familiares que nos condicionam; sobre medos, angústias e desencontros. E com um destaque vital para a saúde mental, faz-nos reconsiderar o quanto somos rápidos a apontar o dedo, a desconfiar de traumas alheios. Porém, se estivermos atentos, há gatilhos que podem acordar fantasmas.

«A amizade também era isso. Dar espaço, respeitar as escolhas, 
mesmo quando não se concordava com a maioria delas»

Inquieta é um retrato penoso, de vidas que poderiam estar perto, até porque existem mais Julietas do que julgamos. Muitas vezes, silenciadas, menosprezadas. Contudo, também traz uma luz de esperança, porque nos faz acreditar que, no meio do caos, há mais braços abertos que nos permitem sobreviver na tempestade.


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18 comments

  1. Já ouvi falar imenso da autora, mas ainda não me senti cativada a ler a sua obra. No entanto, deixaste-me curiosa com este livro. Vou acrescentar à lista.
    Beijinho grande, minha querida!

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    1. É perfeitamente natural, há autores que nos chamam mais à atenção do que outros. Eu ainda só tinha lido O Bairro das Cruzes, que se tornou num dos meus livros favoritos da vida, mas este veio corroborar o quanto a sua escrita é maravilhosa

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    1. Muito, Francisco. Aborda temas muito pertinentes e, sobretudo, mostra-nos a importância de sermos mais empáticos com o outro.

      Obrigada e igualmente

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  3. Mais uma sugestao com temas que devem ser lidos e falados. Muito muito obrigada pela partilha, minha querida*

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    1. É, de facto, importante darmos visibilidade a estes assuntos.

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    1. Aconselho tanto este, como O Bairro das Cruzes. A escrita da autora é maravilhosa e as histórias são surpreendentes

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  5. Que ainda não tinha ouvido falar, mas vou acabar por levar a sua sugestão
    Uma boa semana
    Beijinhos
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