1+3 | Em Casa

by - outubro 31, 2018

Fotografia da minha autoria


«Casa não é um sítio. Casa são pessoas que nos fazem sentir 
que a nossa viagem tinha um destino»



A minha definição de casa é ampla e plural, porque a posso reproduzir e compartimentar em inúmeros lugares, estados de espírito e pessoas. E sei que, independentemente disso, não perde identidade, nem intimidade, uma vez que dentro das suas portas só habita o que é de luz boa. Inspirador. E carregado de amor, para se relacionar com a minha essência. É que nesta bolha de segurança só está quem - e o que - me transmite paz.

Há memórias que lhe são indissociáveis: algumas menos felizes e outras bem mais positivas. Por isso, estas paredes onde habito - e que representam uma extensão da pessoa que sou - falam sobre a morte do meu avô materno e o último Natal da minha avó materna. Mas também preservam a gargalhada do meu afilhado e as suas primeiras palavras. Guardam as noites passadas a jogar ao STOP, os aniversários e os cafés tardios. Espelham o S. João, os jantares de quarta-feira e todos os meus momentos solitários e aqueles que partilhei com quem é a minha fortaleza. Dentro destas quatro paredes, festejei a entrada na faculdade. Sofri e apoiei o meu clube. Troquei confidências. Cresci. E tornei-me mulher. Cada lar tem o seu recheio - físico e emocional. E o meu transborda, porque parece uma tela de lembranças, a exibir cada fragmento de vida que aconchega cada um dos seus recantos.

Quando entro em casa, dispo-me do exterior. Substituo as sapatilhas pelas meias felpudas [menos no tempo quente], porque não há sensação mais livre do que andar descalça sobre este chão tão familiar, que me sustem. Visto o pijama, preparo o meu chá e ou mergulho em descanso ou dedico-me aos afazeres que ainda me esperam. Mas casa é sinónimo de conforto e é inconcebível que esses planos - profissionais ou de lazer -, sejam concretizados sem respeitar essa condição. Além disso, esta casa tem história. E sei que procurarei levá-la comigo para qualquer outro lugar. Porque foi construída com e por amor dos meus avós. Um dia, se me mudar, quero marcar essa transição com algo que, facilmente, reconheça deste pedaço de paraíso. Há muitas transformações que gostaria de implementar, sobretudo, ao nível da decoração. Porque a sua base é firme, como a relação de quem a edificou. Por essa razão, poderia alterar tudo, menos os seus alicerces. E, ao olhar para cada detalhe, sei que esta será sempre a minha primeira definição de lar. E de pertença.

É fascinante como o significado pode ser mutável e adaptável a diversas circunstâncias. Quando penso, somente, no espaço, idealizo a minha casa de sonho: térrea, com jardim, em tons de branco, com apontamentos de cor, muita luz natural, uma parede de ardósia, molduras, um baloiço, detalhes de coleção [como as Pão de Forma, os dedais, os globos], plantas e uma grande biblioteca. Porém, quando imagino todo o lado identificativo e sentimental desta palavra, traduzo-a como colo, como saudade, como segurança, como futuro, como família. E reconheço que haverá sempre algo a acrescentar. Porque em casa sinto-me plena.

Estou em casa na literatura: a ler, por exemplo, Miguel Esteves Cardoso, Torey Hayden, Margarida Rebelo Pinto, O Principezinho, Miguel Sousa Tavares, Agatha Christie, a Trilogia Millennium, Valter Hugo Mãe. Na música: a escutar, por exemplo, Diogo Piçarra, Rui Veloso, Ana Moura, Carolina Deslandes, Maro, Khalid, Os Quatro e Meia, Years & Years, Os Aurora. Mas, também, quando marco presença em concertos, em festivais de tunas e na Queima das Fitas. Na[s] minha[s] cidade[s]: A passear pelos Jardins do Palácio de Cristal, sentada na Rota do Chá, a percorrer Santa Catarina, a subir à Serra do Pilar, a desfrutar da Ribeira e do Cais de Gaia, a andar de elétrico, a atravessar a ponte, a passear pelas praias, a maravilhar-me no Jardim das Camélias e/ou no Jardim Botânico, a absorver toda a energia da Livraria Lello: Em viagem: Por Évora, por Beja, pelo Gerês, pela Ericeira, por Guimarães, por Braga, por Bragança, pela Puebla de Sanabria, por Aveiro, por Coimbra, por Piodão e por tantos outros sítios mais. Nas séries: como Mentes Criminosas, A Teoria do Big Bang, F.R.I.E.N.D.S, The Good Doctor, The Resident, Sara, La Casa de Papel, Dr. Ken, Foi Assim que Aconteceu - e a lista não teria fim.

Sinto-me em casa dentro do abraço das minhas pessoas. No Dragão. A brincar com os meus gatos. A ver o meu afilhado a jogar futebol. Quando entro numa livraria/biblioteca. Quando bebo uma chávena de chocolate quente. Na mesa do bar. De capa traçada. Nas conversas intermináveis. No silêncio. Em casa dos meus tios, dos meus primos, dos meus padrinhos. Na blogosfera, n' As gavetas da minha casa encantada [e senti-me no Parte do que sou], nos blogues que não dispenso. Sinto-me em casa com certos aromas, com certos sonhos e ambições. Sinto-me em casa onde me recebem e querem bem.

Sinto-me em casa em mim, que me forro de amor-próprio, para saber privilegiar a melhor sensação de lar: tão calmo, tão cheio, tão meu. Porque chego à conclusão que, mais do que uma estrutura, casa é um estado de alma. E sei que me sentirei sempre em casa desde que mantenha o coração aberto. E, um dia, talvez tenha o colo necessário para ser a casa de alguém.



[Publicação inserida no desafio 1+3]

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23 comentários

  1. O grande arquitecto austríaco Hundertwasser dizia que as casas são a nossa terceira pele a segunda é o vestuário.
    Gostei do texto e de conhecer alguns dos seus hábitos.
    Um abraço e continuação de uma boa semana.

    Andarilhar
    Dedais de Francisco e Idalisa
    O prazer dos livros

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  2. «Casa não é um sítio. Casa são pessoas que nos fazem sentir
    que a nossa viagem tinha um destino»

    Lembrei-me do dia em que fechei a porta da casa onde vivi 35 anos...
    O nascimento dos filhos, o crescimento deles e o meu envelhecer. Os aniversários, as datas especiais, a família, os amigos, as chegadas a casa depois de um dia de trabalho. Tanta coisa...
    Hoje, numa nova casa, faltam determinadas pessoas, cheiros, momentos... Mas, como dizes e muito bem,
    «mais do que uma estrutura, casa é um estado de alma.»
    Adorei o texto.
    Tudo de bom.

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  3. Casa é onde o coração está :) e eu sinto muito isto em todos os lugares onde vivi e vivo :)
    Está imagem diz me tanto pois tirada do meu sítio preferido da nossa cidade :)
    Beijinhosss minha querida*
    https://matildeferreira.co.uk

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  4. Embora a fotografia seja um mimo, fiquei absolutamente triste de saudades.

    Ao ler este texto maravilhoso, também me senti em casa, embora não partilhe os teus gostos na música e na literatura só partilho uma pequena parte.

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  5. Muito bom. Adorei:))

    Festejem connosco, os: - "Doze meses de cumplicidade Poética.

    Bjos
    Votos de uma óptima Quarta - Feira

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  6. Adorei esta frase: Sinto-me em casa dentro do abraço das minhas pessoas

    Eu já mudei de casa, mas quando entro na casa dos meus pais penso sempre, esta é a minha casa!! Justamente por pensar como tu!!

    Escrito lindamente como sempre!!

    Beijinhos

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  7. Sabe que isso é uma coisa que penso muito: o que vou fazer se ficar velhinha, sem saúde e sem alguém ao meu lado para me ajudar. Ainda mais que, não pretendo ter filhos!

    Casa é um abrigo (interno ou externo) que nos acolhe com amor! ;)

    Ótima quarta!

    Beijo! ^^

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  8. No fundo a nossa casa pode ser, também, um outro lugar fora da nossa habitação mas onde nos sintamos bem...


    Isabel Sá
    Brilhos da Moda

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  9. No fundo há certas coisas que nos deixam mesmo saudades, não só a nossa casa, mas aqueles lugares onde passamos e ficam a memoria e a saudade daqueles momentos
    Beijinhos
    Novo post //Intagram
    Tem post novos todos os dias

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  10. Gostei de ler esse texto bem escrito por você Andreia. Nele relata o tempo vivido com saudades dos seus avós. Na casa onde viveram e você vive. Na qual se sente e onde é feliz. Rodeada de tudo aquilo que lhe dá alegria de viver!

    Tenha uma boa tarde Andreia.

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  11. Que texto bonito. Parabéns pela escrita que nos leva a uma viagem pelos pensamentos e memórias..

    www.vivendosentimentos.com.br

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  12. Casa é conforto. São cheiros intransmissíveis, são sabores indissociáveis. É calor e amor.

    Texto tão bom. Adorei *.*

    Beijinho enorme :*

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  13. Casa é abrigo, é conforto! Que texto tão fantástico! :)
    beijinhos

    www.amarcadamarta.pt

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  14. que post mais lindo! com certeza nossa casa é onde nos sentimos acolhidos de verdade

    www.tofucolorido.com.br
    www.facebook.com/blogtofucolorido

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  15. "Quando entro em casa, dispo-me do exterior. (...) Sinto-me em casa em mim, que me forro de amor-próprio" - ai pá, que escolha mais linda de palavras, mulherrrrr!!

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  16. A nossa casa nunca é só o sitio onde vivemos, e isso é tão bom! Ainda bem que te sentes em casa mesmo não estando fechada nas 4 paredes.
    Um beijinho

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  17. Quando uma pessoa "cresce", e começa a pensar na necessidade de sair da casa dos pais, mudar de casa, vem também esta necessidade de pensar em tudo o que reflete "casa". Senti tanto este teu texto e compreendi-o tão bem!
    O Dragão há-de ser o sítio em que me sinto mais em casa, sem ser casa entendes? E essa frase de seres casa em ti, de amor próprio é só linda e o melhor pensamento que podes ter.
    Que, apesar de tudo, tenhas a capacidade de voltar sempre a casa!*

    R: Encaixando aqui o teu comentário, também ainda não encontraste alguém mas trataremos de encontrar. E fazer dessa pessoa também, nossa casa <3

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    1. p.s. olha pensa, ainda não nos tinhas falada desta tua vertente da "casa encantada" e é um nome tão presente aqui no teu cantinho: casa!

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  18. Gostei bastante deste texto.
    Sim que casa pode ser só 4 paredes, mas é nessas 4 paredes que acontece muita coisa. Quando os meus avós mudaram de casa, senti e por vezes ainda sinto falta daquela casa, foi onde cresci, chorei, ri, brinquei, cai, tive bons e maus momentos, e não sei explicar mas aquela casa marcou-me, hoje vê-la tão degradada e a cair destroça-me o coração.
    Mas sim casa somos nós e as pessoas que mais amamos.

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  19. É incrível a quantidade de lugares e coisas que nos podem ajudar a sentir em casa.
    Coimbra continua a ser a que mais me ajuda a senti-lo apesar de tudo...
    Um beijinho grande, minha querida*

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  20. Nunca me senti verdadeiramente em casa, na casa dos meus pais. Na dos meus avós, totalmente me sentia. Aqui não. Há as tais lembranças penosas que por mais que queira somente pensar nas boas, elas relembram-me de quão sombria já foi esta casa. Acima de tudo, a frase que mais me tocou, foi a última. Já fui casa para algumas pessoas. E hoje em dia, tenho uma, que recentemente “saiu da minha vida” pelo seu próprio pé, que diz mesmo que era no meu colo que se sentia bem. Acho que é tão bom quando num só abraço nos sentimos em paz, em casa. Mas, na nossa “morada” à qual chamamos de coração, não há aquela coisa de “ir e vir” as vezes que quiser, por podemos sempre fechar a porta e mudar a fechadura. Este desafio dá mesmo que pensar... beijinho 😘

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  21. Quando li o título desta publicação, sabia que escrita por ti só poderia deixar-nos felizes ao ler. Não me enganei, mais uma vez escreveste com todo o carinho, com todo o amor e com tudo aquilo que tu és. Mais uma vez, adorei e identifiquei-me com cada uma das tuas palavras.
    De facto, casa, são as nossas quatro paredes, mas é tão mais que isso. As pessoas, as nossas coisas, as nossas memórias, os nossos sítios... Casa é tudo aquilo que, como tu referiste, nos dá paz, nos traz calma, nos dá conforto e nos faz sentir protegidos. Casa é onde nós nos sentimos tal e qual como somos, sem filtros, onde somos nós por completo.

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