Entrelinhas #64

Fotografia da minha autoria


«Com ilustrações belíssimas, para um belíssimo texto»



Aventuro-me, muitas vezes, sem rede. Porque há um conforto desafiante na descoberta de novos autores e de novos registos. Na literatura, todos temos um lugar seguro, mas é extremamente prazeroso palmilhar outras opções. Em consequência - que pode ou não ser direta -, acabam por nos sugerir alguns títulos/escritores, sobretudo, quando já têm noção do nosso estilo enquanto leitor. E foi assim que, aliada a uma vontade antiga, abracei uma nova leitura, mas permanecendo numa atmosfera, aparentemente, infanto-juvenil.

O Gato Malhado e a Andorinha Sinhá é, sem qualquer dúvida, uma história de amor. A começar pela sua origem, uma vez que Jorge Amado escreveu a obra para o seu filho, quando este completou o seu primeiro ano de vida. Sem a pretensão de a publicar, só pelo fascínio de escrever. E de querer que ele a lesse. Todavia, o nosso caminho é preenchido de reviravoltas curiosas. E ainda bem. Porque um texto desta magnitude merece ser lido por inúmeras pessoas. E não é por acaso que «continua a correr mundo, fazendo as delícias» de quem tem o privilégio de o folhear e de se perder no seu desenvolvimento. Não importa, de todo, a idade. A magia é transversal a várias gerações. O que varia é a nossa capacidade de interpretação, sempre dependente do nosso contexto e das nossas experiências. Mas a sua semente inspiradora é plantada na mesma proporção.

O tipo de escrita prende-nos. Conquista-nos. Não só pela proximidade, mas também pela própria organização da narrativa - tão plural e livre. Cativou-me a coerência e a capacidade de não ceder espaço a qualquer quebra de ritmo, o que não é simples, atendendo a que existem parêntesis, avanços, recuos e uma certa dose de imprevisibilidade e, até, aleatoriedade. Apesar disso, a informação é clara e cheia de sentido. E o mistério aumenta gradualmente, atingindo alguma intensidade na parte final. A mancha gráfica, por seu lado, é acompanhada de ilustrações delicadas e amorosas [da autoria de Carybé], que enriquecem o livro. Em simultâneo, compreendemos que existe uma história dentro da história, como se estivéssemos a alinhar Matrioskas. As descrições são de uma beleza inegável, quase poética e musical. E, não sendo um conto de fadas, mostra-nos o quanto o nosso futuro pode ser aprazível, mesmo perante determinadas adversidades. Não menos interessante é verificar que o enredo remonta ao ano de 1948, mas que permanece bastante atual.

A narrativa foca-se no sentimento que mais nos move: o amor. Porém, também aborda questões como o preconceito, a fé, a inveja e o peso das convenções, que tanta influência exercem na nossa postura e no nosso comportamento. E realça um aspeto que é urgente quebrar: quando temos uma opinião formada acerca de alguém [geralmente, negativa], por muito bem que ele faça, tendemos a desvalorizar as suas atitudes e esse feito. Aliás, [in]conscientemente, encaramo-lo com ainda mais desconfiança. E esta obra prova-nos o quanto podemos estar errados e que as segundas oportunidades, em muitos casos, são essenciais. Paralelamente, faz-nos refletir sobre o que é viver em sociedade e sobre o efeito da solidão e da falta de afetos. Não obstante a uma ligeira tristeza, há várias passagens de humor. E de crítica social.

Este conto, narrado ao sabor das estações do ano - também elas carregadas de simbolismo -, estabelece uma ponte entre a realidade e a ficção. Recorrendo a múltiplas metáforas e alegorias, deixa-nos com a certeza de que as personagens, ainda que peculiares, são o espelho dos nossos medos, das nossas inseguranças, dos nossos defeitos e das nossas virtudes. Somos todos diferentes. Existem amores impossíveis. A nossa jornada nunca será linear e isenta de dúvidas. Contudo, as respostas estarão [quase] sempre ao nosso alcance, mas só seremos capazes de as observar se nos libertarmos da nossa cegueira momentânea; se libertarmos o nosso coração da escuridão. Este livro, no fundo, ensina-nos a amar. Sem filtros. Sem juízos de valor. E da maneira mais pura.


Deixo-vos, agora, com algumas citações:

«Íntimos, demasiadamente íntimos, o Vento e a Chuva, companheiros de vadiagem. Somente companheiros? A Manhã franze a testa, de repente preocupada» [p:23];

«Como fugir e esconder-se quando a Primavera chegava trazendo consigo a doçura de viver?» [p:35];

«É que o amor está no coração das criaturas, adormecido, e um dia qualquer ele desperta, com a chegada da Primavera ou mesmo no rigor do Inverno» [p:61];

«É sempre rápido o tempo da felicidade. O Tempo é um ser difícil. Quando queremos que ele se prolongue, seja demorado e lento, ele foge às pressas, nem se sente o correr das horas. Quando queremos que ele voe mais depressa que o pensamento, porque sofremos, porque vivemos um tempo mau, ele escoa moroso, longo é o desfilar das horas» [p:75];

«A poesia não está somente nos versos, por vezes ela está no coração, e é tamanha, a ponto de não caber nas palavras» [p:89].



Nota: O blogue tornou-se afiliado da Wook. Por isso, ao comprarem através dos links disponibilizados, estão a contribuir para o seu crescimento. Obrigada ❣

26 comments

  1. Bom dia linda, não conheço nenhum dos que falaste. Boas leituras ;)
    Beijinhos

    ResponderEliminar
  2. Uma injustiça o Jorge Amado nunca ter ganho o Prémio Nobel da Literatura.
    Um abraço e continuação de uma boa semana.

    Andarilhar
    Dedais de Francisco e Idalisa
    O prazer dos livros

    ResponderEliminar
  3. Mais uma bonita sugestão para a biblioteca do meu filhote :) do Brasil só li e depois vi na tv O Me Pé de Laranja Lima :) quando vi este livro que falas aqui lembrei me logo dessa obra :)
    Bjinhos minha querida*
    https://matildeferreira.co.uk

    ResponderEliminar
  4. Bom dia, também adorei ler, foi uma viagem mágica!!!

    ResponderEliminar
  5. Bom dia:- Um dia também irei escrever um livro de poesia. Ninguém o vai comprar, mas pelo menos, edito-o e depois orgulho-me do pó em o envolve nas prateleiras das livrarias, lol
    .
    * Rodopio dançante ... e um cálido beijo *
    .
    Deixando um abraço

    ResponderEliminar
  6. Li esse livro e estudei na escola na altura.
    E sim é uma história bonita :)

    ResponderEliminar
  7. Este foi dos livros que mais adorei estudar na escola :D
    Beijinho *

    https://w-m-mind.blogs.sapo.pt/

    ResponderEliminar
  8. Já li algumas obras do Jorge Amado, contudo, nunca li esta. Confesso que, agora, estou curiosa para o ler e, muito provavelmente, ficar maravilhada com a sua escrita, tal como fico sempre que releio as suas obras!

    Beijinhos,
    Ella Morgan
    moonlightfelicitydestin.blogspot.com

    ResponderEliminar
  9. Não ou pessoa de ler livros, mas adoro saber um pouco da opinião de quem o faz, mas esse que falas-te não conhecia

    Beijinhos
    Novo post //Intagram
    Tem post novos todos os dias

    ResponderEliminar
  10. O Jorge Amado foi um grande escritor.
    Gosto dos seus romances, mas não me lembro se li o Gato Malhado...
    Sei é que vinha de vez em quando à minha cidade de Viana do Castelo e que adorava ir ao Zé Natário, de quem era amigo, para comer bolas de berlim (que hoje são famosas) e outras coisas doces.
    Um dos personagens do seu romance Tocaia Grande, é a figura destemida de "Capitão Natário", a quem chama "capitão de doces e salgados, comandante do pão-de-ló, mestre do bem-comer".
    Andreia, continuação de boa semana.
    Beijo.

    ResponderEliminar
  11. adorei ver mais sobre esse livro por aqui, jorge amado é um escritor excelente

    www.tofucolorido.com.br
    www.facebook.com/blogtofucolorido

    ResponderEliminar
  12. Belíssimo conto gostei muito do livro a capa é uma fofura Andreia bjs.

    ResponderEliminar
  13. Comprei vários livros incluindo esse para incentivar os meus filhos á leitura,infelizmente aqui em casa só eu gosto de ler.
    Beijinhos

    ResponderEliminar
  14. Ouvi falar deste livro pela net mas nunca li nada do autor. Achei lindissimo o facto de desenvolver a história para o filho. Tenho que ler.

    Beijinhos!

    ResponderEliminar
  15. quero ler. socorro. que frases bonitas. quero. ler. agora.

    r: eu CHORO com aquela típica cara feia só de pensar no dioguito, sou obcecada!!!!!!

    ResponderEliminar
  16. Mais uma vez deixas-me a morrer de curiosidade, babe *.*
    Beijinhos,
    Blog An Aesthetic Alien | Instagram | Facebook
    Youtube

    ResponderEliminar
  17. Assim que vi a tua foto lembrei-e imediatamente do "Meu pé de Laranja Lima", li em miúda e adorei. Deste texto penso que por algum motivo já li excertos...

    Beijinhos
    Sandra C.
    bluestrass.blogspot.com

    ResponderEliminar
  18. Li esse livro como leitura obrigatória na escola acho que no meu 6º ano ou 7º ano e gostei bastante! =)

    MRS. MARGOT

    ResponderEliminar
  19. Ofereceram-me esse livro o ano passado mas ainda não o li. Tenho lido outros entretanto. Mas agora fiquei completamente inspirada e cativada pelo teu texto, estou ansiosa por lê-lo...
    Obrigada pela partilha
    Adoro o trabalho do Jorge Amado, desde pequena
    Beijinho

    ResponderEliminar
  20. Bom dia, Andreia
    Desde que comecei a ler, em criança, que tenho o vício da leitura (o da escrita surgiu alguns anos mais tarde 😃).
    Há alguns autores de quem gosto muito particularmente e dos quais possuo – e li, naturalmente – toda a obra. Estão nesse número Eça de Queiroz, José Saramago, Gabriel Garcia Marques, Isabel Allende… e mais alguns que não vou nomear para não me tornar fastidiosa. E, claro que não podia faltar… Jorge Amado! Foi um escritor fora de série, que deixou obra digna de realce.
    Gostei muito desta postagem. Está 5 *****👏.
    A propósito de Jorge Amado certamente sabe que ele foi casado, por mais de 50 anos, com Zélia Gattai, que o ajudou como “secretária” e que, mais tarde, começou a escrever, ela mesma, especialmente memórias. Dela tenho apenas o livro “A Casa do Rio Vermelho”, uma maravilha. Se não leu, aconselho. Tenho a certeza de que vai gostar.

    RE: Obrigada pelo “esta história será fabulosa”…

    Bom Fim-de-semana
    Beijinhos
    MARIAZITA / A CASA DA MARIQUINHAS


    ResponderEliminar
  21. Li este livro na escola há alguns anos, tenho ideia de já o ter relido também há uns 4 ou 5 e lembro-me de achar a história absolutamente encantadora, ainda que já não me lembre de tudo. Vou reler!

    "Contudo, as respostas estarão [quase] sempre ao nosso alcance, mas só seremos capazes de as observar se nos libertarmos da nossa cegueira momentânea; se libertarmos o nosso coração da escuridão." adorei esta frase minha querida!

    ResponderEliminar
  22. Já ouvi falar imenso deste livro mas nunca o li. Vai já para a minha lista!

    ResponderEliminar
  23. Lembro-me de ler excertos nas aulas de Língua Portuguesa... agora quero ler o livro completo <3

    ResponderEliminar