O nosso amor é como o vento #4

Fotografia de Alexandra V3


[Prólogo | #1 | #2 | #3]



Aquele abraço, por breves momentos, transmitiu-me segurança. E, estranhamente, fez-me sentir o mundo a passar por mim, levando-me para um dos nossos lugares favoritos. E eu fiquei numa espécie de limbo, diante do mar, a escutar as tuas palavras em surdina. Pudesse isto não ser um sonho; pudesse isto não ser uma memória traiçoeira da realidade. Por instantes, pareceu-me tudo igual. Mas não passou disso.

Não vi o rosto da pessoa com nitidez, uma vez que tinha os olhos inchados das lágrimas, mas sei que ainda chorei bastante encostada ao seu ombro. Ainda perguntei porquê, mesmo sabendo que não obteria resposta. E caindo em mim, senti fúria. Apeteceu-me gritar, dar pontapés na parede, atirar-me para o chão e bater com as mãos cerradas naquele piso branco-mármore, até que partisse. No fundo, só queria explodir, mas aquele abraço quente e reconfortante tranquilizou-me, acalmou-me os nervos e fez-me perceber que terei sempre alguém para me dar a mão - nem que seja um desconhecido. Assim que senti o corpo a recuperar, ergui a cabeça, olhei para o homem que foi o meu amparo naquele momento longo e doloroso e agradeci o gesto, a amabilidade e a preocupação. Ele retribuiu com um ligeiro sorriso, limpou as lágrimas que ainda caiam pelo meu rosto e disse-me algo que nunca esquecerei:

- Não precisa de agradecer, temos que ser uns para os outros. Infelizmente, sei bem o quanto essa dor nos pode matar por dentro, o quanto nos rouba e nos derruba. Portanto, é sempre bom ter um par de braços abertos, apesar de nunca nos termos cruzado com a pessoa antes. Seja forte, tenho a certeza de que o seu noivo iria querer isso. Orgulhe-se do que viveram os dois. Chore, mas não prolongue esse pranto por demasiado tempo. Eu não vos conhecia, mas qualquer um via que o vosso amor é à prova de tudo. E digo é e não era porque o amor é como as pessoas: só morre quando nos esquecemos delas. E a esse respeito, tenho a certeza que posso colocar as minhas mãos no fogo, pois nunca o esquecerá, nem deixará de o amar.

O discurso fluído e sincero teve impacto. Aquelas palavras foram como uma chamada de atenção. Souberam bem de ouvir e incentivaram-me. De facto, eu não tinha que baixar a cabeça. Apesar de sermos novos, aproveitamos o nosso amor com muita honestidade. Foi intenso e descomplicado na medida certa. Enfrentamos discussões, mas nunca nos deitamos chateados um com o outro. Equilíbrio poderia ser a nossa definição, porque, não sendo perfeito, vivemos o nosso conto de fadas, com todos os altos e baixos que fazem parte de uma verdadeira história de amor. No entanto, não é fácil assimilar e reagir com serenidade. Afinal, tiraram-me o meu bem mais precioso: Tu. Mas por nós, por aquilo que fomos, por aquilo que nos tornamos, por aquilo que continuaremos a ser, eu tentarei ser forte e seguir com a minha vida. Só não me peças que o faça já, pois ainda vou demorar algum tempo - isto se algum dia me habituar à certeza de que não te voltarei a ver, que não mais sentirei os teus braços, que não tornarei a acordar com o teu beijo terno na testa, que não serás o primeiro a chegar e o último a ir embora. Dificilmente irei conformar-me com a ideia de que te perdi da forma mais cruel que se pode perder alguém.

As horas seguintes a esta tragédia foram as mais complicadas. Ter de avisar a família, os amigos e as pessoas mais próximas - ter de ser eu a dar-lhes essa notícia - matava-me ainda mais por dentro. Se fechasse os olhos, sentia que aquilo não passava de um pesadelo. Porém, ter de dizer que o teu coração tinha parado, que lutaste com todas as tuas forças, mas que ele estava demasiado fraco para resistir tornava esta realidade muito mais real, se é que isso faz qualquer sentido. Nos minutos seguintes, senti que deveria colocar a minha dor em segundo plano para apoiar os teus pais, os teus avós e os teus irmãos, porque me acolheram como família. Desde o primeiro dia, vi-os como uma extensão da minha. E nunca deixei de me sentir em casa. O abraço da tua mãe, sem desrespeito por todos os outros, foi o que mais me custou receber e o que mais me reconfortou, sobretudo por vir acompanhado por uma frase que ficará, eternamente, gravada no meu coração:

- Continuaremos a ser uma família unida como fomos até aqui. Serás sempre a minha nora querida e as portas permanecerão abertas para te receber. Não desapareças da nossa vida, por favor. Gostava imenso que me fosses visitar com regularidade.

E eu irei, prometo que o farei, até porque isso tornará o luto menos pesado e mais fácil de ultrapassar. E estamos ambas a precisar desse tipo de colo. Além do mais, será uma boa forma de recuperarmos, uma vez que, juntas, não deixaremos morrer as memórias boas destes teus 28 anos.

23 comentários

  1. Estou a gostar muito de acompanhar esta história incrível:)
    O poder de um abraço cura tudo, às vezes só precisamos de um colo para ganharmos forças para continuar a acreditar:)
    Bjinhosss minha querida*
    https://matildeferreira.co.uk

    ResponderEliminar
  2. Tenho de respirar fundo para ler estes textos maravilhosos!!

    Beijinhos

    ResponderEliminar
  3. Adoro.
    Tem tanta emoção e sentimento. :)

    ResponderEliminar
  4. Olá
    Olha que nem todos têm a sorte de ter um desconhecido para nos amparar na queda. Quando andei a fazer terapia num hospital a minha mãe acompanhava me , e dava os seus passeios pelo parque do hospital enquanto eu fazia a terapia e, certo dia deu uma grande queda, uma enfermeira viu e não foi capaz de perguntar à minha mãe se precisava de ajuda. E teve de se socorrer sozinha. Essa história é muito triste a morte de alguém é dos momentos mais difíceis de viver. Até me custa ler isto.
    Xoxo

    marisasclosetblog.com

    ResponderEliminar
  5. A melhor escrita é aquela que vem carregada de sentimento. E a tua tem tanto :')

    ResponderEliminar
  6. Estou cada vez mais surpreendida com a história. A cada capítulo fica melhor. É horrível receber ou ter de dar uma notícia dessas a alguém. É demasiado penoso. Ansiosa por mais. Beijinhos <3

    ResponderEliminar
  7. Andreia, você já pensou em transformar essa série em um livro? Acho que tem tanto potencial... Emocionante. <3

    ResponderEliminar
  8. Posso dizer que tenho vindo a adorar os teus textos faz bastante pois faz pensar bastante
    Beijinhos
    Novo post (Unha Decorada?) // CantinhoDaSofia /Facebook /Intagram
    Tem post novos todos os dias

    ResponderEliminar
  9. Sua escrita estou acompanhando,
    para depois de ler poder comentar
    daqui a olhar eu a vejo olhando
    para as ondas daquele imenso mar!

    Tenha uma boa tarde Andreia.

    ResponderEliminar
  10. Estou a gostar imenso de ler esta história.

    "o amor é como as pessoas: só morre quando nos esquecemos delas.", concordo plenamente.

    Beijinhos! :)

    ResponderEliminar
  11. Esses textos movem o pensamento e fazem-nos questionar tantas coisas.
    Passar por aqui é como passar numa nuvem, é mágico.
    Beijinhos

    ResponderEliminar
  12. Que escrita tão linda! Estou muito curiosa com a história, tenho de a ler desde o início!
    Beijinho, Ana Rita*
    BLOG: https://hannamargherita.blogspot.com/ || INSTAGRAM: https://www.instagram.com/rititipi/ || FACEBOOK: https://www.facebook.com/margheritablog/

    ResponderEliminar
  13. Continua emocionante e interessante://


    Por motivos profissionais, passo em vez do Gil... Lembrando o amor do passado

    Bjos
    Votos de uma óptima Noite.

    ResponderEliminar
  14. A família é mesmo tudo.
    O que seriamos sem o apoio deles?
    Estou a gostar desta história.

    ResponderEliminar
  15. Não quero dizer, que erraste na profissão que escolheste, até porque pelo que conheço de ti, acho que serás uma excelente profissional. Mas, já pensaste em escrever um livro? tens imenso jeito, a tua escrita cativa muito. Pensa nisso linda.
    Beijinho

    ResponderEliminar
  16. Esta não é uma boa altura para ler este texto, estou de lágrimas nos olhos, estou a passar por uma fase complicada e essas palavras tocaram-me tanto, é uma perda diferente mas não deixa de ser uma perda que me magoa... escreves muito bem. :)

    MRS. MARGOT

    ResponderEliminar
  17. Estou a adorar estes teus textos a tua escrita é tão bom que fico sempre emociona com estes teus textos que me deixam de coração apertado. Adorei!
    http://retromaggie.blogspot.com

    ResponderEliminar
  18. "que não serás o primeiro a chegar e o último a ir embora" tão bom!!!!

    ResponderEliminar
  19. Oh pá, tão triste, mas tão bonito, Andreia. Fiquei de coração apertadinho, a morte dos meus é a coisa que mais me dá medo.

    Eu sei que me repito, eu sei que já te disse isto, mas porra, cada capítulo desta história é melhor que o outro, tão cheio de verdades e de sentimentos. Incrível, mesmo. Que talento <3

    ResponderEliminar
  20. Esta história está tão real que parece estar a acontecer connosco. Nem quero imaginar se algo assim acontecesse comigo e com o David...

    ResponderEliminar