O nosso amor é como o vento #3

Fotografia retirada do Tumblr


[Prólogo | #1 | #2]



Imediatamente antes de o meu mundo desabar, insististe para que fosse comer alguma coisa, já que tinhas percebido a minha fragilidade. Voltei a fazer-te a vontade, pois não queria que estivesses preocupado. Curiosamente, tinha acordado com uma sensação estranha; estava mais nervosa que o habitual e completamente derrotada. Agora que paro para pensar, toda a tua insistência não foi mais do que uma manobra para me afastares do quarto, como se tivesses pressentido o que iria acontecer. Eu sei que não aguentarias saber que tinha assistido aos teus últimos segundos de vida, por isso, utilizaste o meu estado como escudo protetor, poupando-me àquela angústia - em vão.

Quando regressei ao terceiro piso e vi todo aquele aparato, intuitivamente, comecei a correr, como se estivesse em perigo. O que não era mentira, uma vez que estava prestes a perder a pessoa que mais amei ao longo da minha vida - primeiro, como amigo; mais tarde, como irmão; depois como namorado e, agora, como noivo. Sei que não devia, porque ia contra todas as indicações, mas entrei no quarto e tentei alcançar-te, dar-te a mão e olhar-te sem qualquer ponta de hesitação. Não sei se me conseguiste ver. Porém, uma lágrima rolou pelo teu rosto. Nesse momento, disse-te que te amava e que foste o único homem da minha vida; disse-te que, mesmo que não estivéssemos casados no papel, estaríamos sempre casados no coração, porque, desde o primeiro dia, comprometemo-nos a cuidar um do outro. Perdoa-me por não ter conseguido fazer mais. Sabes? Nunca estamos prontos para nos despedirmos das pessoas que amamos e eu não sou exceção. E quando te disse tudo isto, ainda tinha uma réstia de esperança que fosse apenas susto, porque irias lutar e resistir uma vez mais. Eu acreditei, meu amor!

Compreendi porque o fizeram, mas pedirem-me para sair do quarto foi avassalador. Senti que te estava a abandonar, quando estive sempre perto de ti. Nunca duvidaste disso. E sei que foste capaz de ouvir as minhas últimas palavras. Depois partiste em paz. Lá no fundo - e sentindo que nunca me culparias -, eu sei que não poderia ter feito mais do que fiz, mas não consigo calar esta sensação. Este vazio. Esta impotência que me corrói aos poucos. Quando a pessoa é tão importante para nós, só queremos que esteja sempre bem. Contudo, assim que a vida nos altera a rota e a saúde nos prega uma partida sem graça, sentimos que falhamos, embora não estivesse ao nosso alcance melhorar as coisas - e voltar a colocar os nossos passos no caminho que julgávamos ser o certo. Envolta num tremor ininterrupto, tiraram-me o chão quando o médico saiu do quarto, pousou a mão sobre o meu ombro e me disse «fizemos tudo o que podíamos, mas não aguentou, o coração estava demasiado fraco». Não me contive e comecei a chorar diante dele, ouvindo as suas palavras de compaixão, finalizadas com um «lamento muito». O que eu lamento foi não ter tido a oportunidade de me despedir de ti convenientemente, falando-te baixinho, ao ouvido, para ser ainda mais verdadeiro. E ficar só connosco.

A preocupação estava estampada no olhar dos familiares dos restantes doentes. Apesar de não nos conhecermos, passamos demasiado tempo a cruzar-nos, porque a nossa realidade cingiu-se àquele espaço. Por isso, falávamos em algumas circunstâncias, trocávamos votos de uma recuperação rápida e íamos perguntando por novos desenvolvimentos. Sentiamos verdadeiramente as dores uns dos outros, porque estávamos todos ali pelo mesmo. Portanto, percebi que, na impossibilidade de nos socorrermos em caras conhecidas, são estas pessoas que nos amparam a queda e nos limpam as lágrimas. Por mais surreal que pareça, sinto que, em situações como estas, tornamo-nos uma grande família, independentemente de nunca nos termos encontrado antes e de nunca mais nos voltarmos a ver. Quando o médico nos deixou, senti-me a ceder. E uns braços fortes aconchegaram-me num abraço.

21 comentários

  1. Nao e fácil de todo... um dos meus maiores receios quando fui fazer as minhas operações era de não voltar a acordar e ver as minhas pessoas :/ não é de todo fácil estar dos dois lados...
    Excelente texto, muitos Parabens:)
    Preparada para torcermos juntas à distância pelo nosso país?
    Bjinhosss
    https://matildeferreira.co.uk/

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  2. Sem dúvida alguma, meu bem! E creio que isso, cada vez mais, toma uma maior evidência. Os Homens não serão, de todo, menos viris, se cuidarem mais de si :)

    Ai Meu Deus do céu! Que dor incomensurável. Que dor! Não quero imaginar-me a perder alguém assim... Desta forma tão crua. Não consigo sequer pensar. É nestas alturas que devemos olhar para dentro, bem para nós, e não ter problemas em abraçar ou dizer o que pensamos.. só com o intento de, um dia mais tarde, não nos arrependermos. A vida é tão curta!

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  3. Sabia desde o começo que ia ser triste a história, mas nunca pensei que fosse mexer comigo desta forma. É bem complicado perdermos o chão, aquela pessoa que estava sempre lá para nós, e acima de tudo, que amamos. A dor deve ser imensa. Nem há palavras. Acima de tudo, acho que cada vez mais, estou curiosa pelo desenlace. Beijinhos 💙

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  4. Triste. Mas lindo! No último parágrafo não segurei as lágrimas! Que intensidade de emoções! Um grande beijinho 😘❤

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  5. Tão duro e tão real ao mesmo tempo. Incrível a forma como me conseguiste transportar para este momento. Parabéns, estou a adorar, apesar do forte tema abordado.

    Beijinhos :*

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  6. É mesmo muito triste pensar que isto é uma realidade. Quando o meu pai foi operado, pensei várias vezes neste tipo de cenário e como iria ser devastador. Graças a Deus nunca aconteceu, mas para muitas famílias é o que acontece.
    R: Sim também gostava de ter lido primeiro :( Apesar de já ter visto o filme, quero ir ao cinema ver outra vez!!!

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  7. As operações são sempre um envelope fechado, nunca sabemos o que vai acontecer até o abrirmos... =(
    Beijinhos,
    http://chicana.blogs.sapo.pt/

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  8. Olá
    Infelizmente eu conheço essa dor. É como se arrancassem uma parte de nós. Depois só o tempo ameniza a dor. Fala quem sabe muito sobre o assunto.
    Xoxo

    marisasclosetblog.com

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  9. Nossa é muito triste, nem sei que diga, mas com o passar do tempo e dos dias talvez a lembrança ficara daquele dia
    Beijinhos
    Novo post (Novo Conjunto?) // CantinhoDaSofia /Facebook /Intagram
    Tem post novos todos os dias

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  10. Incrivelmente triste, incrivelmente bem escrito e super viciante.

    Não devia estar a ler nesta fase da minha vida mas não consigo deixar de tão bom que é!

    Beijinhos

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  11. Muito triste.
    Mas é impressionante a tua escrita, envolvente mesmo. :)
    Beijinhos

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  12. Gostei do que li,

    mil beijinhos,

    ESTOU DE VOLTA AO BLOG E COM MUITAS NOVIDADES!
    https://skylykika.blogspot.com/

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  13. ;)

    Em cada palavra conseguimos sentir um novo nó na garganta. Não consigo nem imaginar o tamanho de uma dor ao perder alguém tão próximo!

    Ótima quarta!

    Beijo! ^^

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  14. Dizes e muito bem, nunca estamos preparados para perder quem amamos, grande e triste verdade.
    Beijinhos

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  15. Nossa! Tive de conter demasiado as lágrimas! Que texto tão bonito meu amor, tão intenso! Adorei, muitos parabéns! E infelizmente, acontecem muito histórias destas...deve ser uma dor tão horrível!
    Beijinho, Ana Rita*
    BLOG: https://hannamargherita.blogspot.com/ || INSTAGRAM: https://www.instagram.com/rititipi/ || FACEBOOK: https://www.facebook.com/margheritablog/

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  16. Uma outra história do tipo "Bom dia, tristeza".
    Nunca superamos a perda de quem amamos.
    Para abrandar o nó na minha garganta, digo simplesmente:

    O NOSSO AMOR É COMO O FOGO

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  17. Sem dúvida que ficamos muito a pensar no nosso amanha e no que estamos realmente a fazer. Esta semana não tem sido fácil e vi a vida de alguém muito especial a passar-me à frente. Contudo existe sempre algo que torce por nós.
    Gostei tanto do texto minha querida

    Beijinhos,
    DEZASSETE

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  18. Triste, ao ler com certeza que quem já passou o mesmo que reve neste texto....

    Beijinhos
    Sandra C.
    bluestrass.blogspot.ćcom

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  19. Ai Andreia, que aperto, que triste, mas que bonito. Senti de tudo.
    Esta história traz-me tantas sensações, é tão triste perdermos assim alguém, nem quero imaginar.

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