O nosso amor é como o vento #1

Fotografia retirada do Pinterest





No último ano, a minha vida foi uma autêntica correria. Deu voltas sucessivas de trezentos e sessenta graus; deu-me chapadas e pontapés no estômago. Por isso, questionei-me várias vezes sobre a minha capacidade para me manter de pé; questionei-me sobre o facto de não ter colapsado, nem ter cometido uma loucura. Não sou uma super-mulher, mas dividi-me em mil para não falhar, principalmente para não negligenciar aqueles que tanto me reconfortaram. Ainda assim, a sensação de ficar desamparada e, literalmente, sem chão era persistente.

Sabes aquele tipo de amigos que parece que já não vês há uma eternidade, mas que ao mínimo sinal percebem que estás a um passo do abismo? Esses são os meus! Largaram tudo e impediram-me de uma queda fatal. Como se não fosse suficiente, fizeram turnos para que nunca ficasse sozinha. Tentando não perder um certo toque de humor, perguntei-lhes se aquilo era apenas preocupação ou se era pouca confiança no meu discernimento. Porém, entendia-os. Afinal, não foram poucas as ocasiões em que entrei numa espécie de piloto automático. Se, hoje, permaneço firme, é muito por culpa deles. Mas também é por tua causa, pois sei que querias que fosse forte. E, lá no fundo, devo-o igualmente a mim, porque compreendi, finalmente, que a melhor maneira de preservar este amor que tenho por ti e por eles é fortalecer o meu amor-próprio, mantendo-me sã de espírito.   

Desde que tiveste a última recaída severa, que impossibilitou o teu regresso a casa, só passei a conhecer uma rota: casa-faculdade-jornal-hospital-casa... E essa rotina consumia-me aos poucos, porque sentia que eram demasiados compromissos a exigir a minha total atenção. Gostava de ter tido tempo suficiente para me dedicar somente a ti; para me preocupar só contigo e tratar de ti. No entanto, contra todas as minhas vontades, não tinha essa disponibilidade - nem tu irias permitir. Quando me olhava ao espelho, via uma imagem cansada, extremamente cansada, apesar da minha juventude. Se queres que te seja sincera, não sei quantos quilos cheguei a perder, mas era óbvio que toda a minha roupa estava excessivamente larga. Sempre que chegava ao hospital, ia numa corrida à casa de banho, só para ver se tinha disfarçado as olheiras e se a roupa estava estrategicamente bem posta. Após este ritual, subia ao terceiro andar, deslocava-me à enfermaria A, entrava no quarto 27 e ia ter contigo à cama sete.

Levava-te, todos os dias, um girassol. Adorava-los, tal como eu. Por isso, fazia questão de passar sempre pela florista, para comprar o mais fresco e bonito que tivesse - era a forma mais simples e eficaz de te arrancar um pequeno sorriso, o mais verdadeiro que algum dia vira. Quando te digo isto é porque até sorrir já te custava, tamanhas eram as dores que se apoderavam do teu corpo. Essa maldita doença roubou-te uma das coisas que eu mais gostava de olhar em ti. Mesmo assim, esforçavas-te por nunca perder esse traço luminoso e terno no rosto.

A tua doença não era só tua, e tu sabias isso melhor do que ninguém. A tua doença era também minha, porque convivi lado a lado com ela. Vi o quanto ela te fazia mal de dia para dia. Estavas cada vez mais magro, mais desolhado - como se costuma dizer aqui por casa -, mais fraco, mais pessimista, mais derrotista. Estava sempre tudo em modo mais, o grande problema é que não era para o lado bom das circunstâncias, pois sempre que saía daquele quarto frio, estranho, desaconchegado, sentia que eram menos dois dias de vida que tinhas. Contudo, cheguei a iludir-me logo após a tua primeira operação. Quem olhava para ti não dizia aquilo que te matava por dentro, silenciosamente. E por muito mal que soe, até era um gosto visitar-te, graças à tua boa disposição, à tua crença no futuro. Acreditei contigo - e por ti. Mas o final revelou-se avesso ao nosso desejo. A tua força era a minha força - e foi isso que me deu alento para mais um dia que se adivinhava longo.

29 comentários

  1. Revi-me... parecia que estavas a falar de mim. Ao longo desta vida perdi muitos amigos mas os verdadeiros ficaram sempre.
    Bjinhosss
    So tu para me fazeres rir a esta hora da matina :D tu e o teu sobrinho que anda na fase de deixar a casa como na primeira foto ou quase... ai bidas! Mas ele vai ao sitio, está na idade de começar a aprender a ajudar :)
    E isto para mostrares os modelitos das tuas sapatilhas que são bem lindas por sinal Hehe:)
    Bjinhosss nossos oh lindona e bom fim de semana prolongado*
    https://matildeferreira.co.uk/

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  2. Gostei de ler esta "confidência" neste belo texto.
    Um abraço e continuação de uma boa semana.

    Andarilhar
    Dedais de Francisco e Idalisa
    O prazer dos livros

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  3. Sempre duvidei da expressão "o que não nos mata torna-nos mais fortes". Acho que é uma grande mentira que contamos a nós próprios. O que não nos mata depressa, vai-nos matando devagar.

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  4. Não é fácil parecermos fortes perante situações difíceis.
    Eu que sou uma chorona nata, vou-me abaixo muitas vezes...
    Quando a minha mãe foi operada devo ter sido a primeira pessoa que a viu no recobro, queria controlar as minhas lágrimas, mas não conseguia... Uns anos depois quando ela morreu, fiquei em choque com a notícia, chorei, mas uns meses antes com a morte de outra pessoa fui-me preparando para o que se seguia!
    É duro....

    Beijinhos
    Sandra C.
    bluestrass.blogspot.com

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  5. És uma pessoa com uma força espetacular, gostei muito de ler esse texto :)

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  6. O nosso amor é como o vento
    Que ama tanto, agora e depois
    Que por vezes não tem tempo
    De amar por nós dois.
    .
    * Amor, num beijo ... esquecido *
    .
    Abraço
    Beijo

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  7. Revi-me no que escreveste! Mais um texto incrível! :)

    amarcadamarta.blogspot.pt

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  8. São os nossos, os verdadeiros nossos, que nos puxam assim para cima e têm bem mais influência do que pensam, às vezes.
    Durante a nossa vida vamos perdendo e ganhando pessoas, acredito que algumas são destinadas a ser para sempre nossas, outras vem no tempo delas e vão embora. Não retiro o mérito aos que foram, se calhar tinha mesmo de ser assim, mas aos que ficam ano após anos devemos agradecer vezes e vezes, sem falta.

    Em relação ao texto em si, não tenho palavras. Às vezes escapa-nos tanta coisa, pois somos tão bons a esconder sentimentos.

    Ai Andreia, que talento, mais um texto incrível :)

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  9. Com tanta chapadas e pontapés,
    com os pés bem assentes na terra
    não se deixou levar pelas marés
    será que Andreia venceu a guerra?

    Tenha uma boa tarde. Não vence que deixa de lutar!

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  10. Um texto fantástico. Escreves tão, mas tão bem, Andreia!
    P-.s. Os girassóis são as minhas flores preferidas.

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  11. Que texto incrível e amoroso! És uma rapariga com tanto jeito para as palavras, e és muito forte. Não é fácil passar por uma situação dessas, ver uma pessoa de quem gostamos batalhar contra uma doença injusta e cruel, mas acredito que lidaste com a situação da melhor fome.
    Beijinhos
    Blog: Life of Cherry

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  12. Não só amei o texto como fiquei bastante emocionada :)

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  13. Pressinto que esta história vai dar cabo de mim. Relembra-me tanto a minha avó... Estou curiosa com a continuação. Que venham mais capítulos!

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  14. Tão profundo. Estou a adorar!

    Beijinhos!

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  15. ;)

    Tiramos forças de onde não tem quando precisamos apoiar uma pessoa querida!

    Ótima quarta!

    Beijo! ^^

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  16. É preciso gostar muito, para se acompanhar uma pessoa com uma doença grave. Já passei por isso algumas vezes da minha vida e não é fácil não, linda.
    Tu escreves tão bem Andreia, parabéns :)
    Beijinhos

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  17. É um lindo texto que faz a gente se emocionar, as palavras tocam muito, simplesmente gostei muito da sua escrita bjs.

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  18. Beautifully written.to having such friends who stands by you when you are not able to stand is best thing in the world. you are really lucky.Never loose such friends. Thanks for wonderful post.
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  19. No geral vale a pena, meu bem :)

    Ai meu Deus! Nem sabes o aperto no coração que me deu! <3
    "quando a gente gosta, é claro que a gente cuida!".

    NEW OUTFIT POST | FUNNY AND WEIRD FACT ABOUT ME :D
    InstagramFacebook Official PageMiguel Gouveia / Blog Pieces Of Me :D

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  20. Vida não é fácil e quando menos esperamos parece que tudo perde o sentido....

    Isabel Sá
    Brilhos da Moda

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  21. oh minha querida Andreia, ninguém deveria ter de passar por coisas dessas. E não há palavras que reconfortem ou que aliviem a dor de passar por isso, suponho eu... Mas continua a manter-te firme, um dia atrás do outro, um passinho de cada vez e a vida vai andando, com mais ou menos luta, mas sempre recheada de amor de quem nos quer bem.

    Daniela

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  22. Esse girassol ficou gigante na foto, imagem muito linda.
    Psiu, amei o texto, bom fim de semana.

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  23. Que texto fantástico, adorei :D
    Sem dúvida que pelas pessoas que amamos devemos de fazer tudo até ao fim (sou tal e qual como tu), e a tua confidência é das coisas mais lindas e especiais que possas ter feito, até o pequenos gesto de todos os dias levares um girasol, por ser uma das coisas que mais gostava.

    Muita força querida <3
    Beijinho *

    http://w-m-mind.blogs.sapo.pt/

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  24. Andreia, li agora este teu texto e foi impossível não me vir à memória tudo o que passámos quando o meu avô esteve numa situação em que nós pensávamos que ia ser o fim. Lembro-me bem como nesse período a minha vida era também assim, casa(barreiro) -faculdade(lisboa)-trabalho-e "correr" para os cuidados intensivos do Hospital de Setúbal. Pelo meio despedi-me, porque era impossível fazer tudo. E lembro-me do que passei em silêncio, para dar forças à minha mãe e à minha avó.
    Mais que tudo, que nunca me sairá da memória, lembro-me de quando o meu avô foi transferido de emergência (em coma induzido) para o hospital de Santa Marta, para uma cirurgia ao coração da qual não sabíamos se sairia vivo. Mais ninguém da familia conseguia chegar lá tão rápido, então fui eu com o João. Esperámos na sala até a operação terminar. Chamaram-me para o ir ver nos cuidados intensivos. Pensava que ele ainda estava a dormir (o que de certa forma me aliviava por não ter que ser eu a contar-lhe em primeira mão o que se tinha passado). Entrei, nervosa e quando a enfermeira me disse "O seu avô está acordado", faltaram-me as forças nas pernas. Quando cheguei perto, e os olhos dele bateram em mim, o meu avô chorou como uma criança e, até hoje, com 28 anos, foi a primeira e única vez que vi o meu avô, que já perdeu uma filha, chorar daquela forma. E foi a vez que mais me custou engolir o meu próprio choro, para que ele não se enervasse mais. Internamente a minha alma estava aos gritos, como ele estaria certamente, se não tivesse passado meses entubado. Felizmente tudo se resolveu da melhor forma. Mas foi muito difícil e é algo que ainda dói só de pensar.
    Como referiram acima, dizem que o que não nos mata torna-nos mais fortes, concordo até certo ponto. Acho que constrói algumas defesas, uma camada mais grossa de pele, mas também nos corroí por dentro. E mesmo quando as coisas têm um bom desfecho, o medo de que volte a acontecer algo semelhante, o perceberes que aquilo podia ter sido o fim, e que mais tarde ou mais cedo vai acontecer, está sempre presente.
    Amigos, dos bons, ou familiares, são cruciais. No meu caso, como eu não queria ir-me abaixo à frente da minha mãe e avó, foi o João, na altura ainda meu namorado, a minha âncora. Se estivesse sozinha naquele dia no hospital, não sei como teria sido. Ser "forte" é muito difícil, quando se trata daqueles de quem gostamos.

    Beijinhos e muita força!

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  25. Magnífico! Totalmente. Creio que será uma história bem drástica porém acho que irá ser um dos "livros" que mais irei adorar ler. Incrível o que uma doença pode fazer num corpo, numa mente e nas pessoas que nos rodeiam. Literalmente, é viver a doença com elas também. É tão difícil ver as outras pessoas sofrer, sem podermos fazer nada. Esperando por mais... Beijinhos <3

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