Entrelinhas #48

Fotografia da minha autoria


«(...) é um daqueles livros raros que aparecem uma meia dúzia de vezes por década; um magnífico romance literário capaz de tocar tanto o coração como a mente»



O Pintassilgo piscou-me o olho várias vezes, mas nunca me atrevi a adquiri-lo, porque algo me fazia sentir que ainda não estava preparada para conhecer a sua história. No entanto, por coincidência ou por sinal, cruzei-me com o passatempo da Aurore e achei por bem não desperdiçar a oportunidade. E foi assim que, em setembro de 2017, ele voou para fazer ninho em minha casa.

O seu tamanho impõe um certo respeito, mas não se deixem enganar. Nem demover. Porque é daquelas narrativas que nos agarram na primeira palavra e nos convidam a desvendá-la num único fôlego. Esta obra de Donna Tartt - que venceu o Prémio Pulitzer [melhor ficção], em 2014 - foi a minha companhia durante, sensivelmente, duas semanas. E marcou-me profundamente, pela dureza dos factos, pelo amor evidente, pelo constante sentimento de culpa, pelo sofrimento, pelo humor e pela capacidade de superação. No final, confesso, senti alguma angustia por ter que a terminar. Acredito que o poder dos livros passa - e muito - por aquilo que eles são capazes de nos transformar. E depois desta descoberta, seguramente, nunca mais serei a mesma. No melhor sentido possível.

A leitura é fluída, fácil de interpretar e envolvente. Apesar disso, é uma escrita que requer disponibilidade temporal e, sobretudo, mental, porque é repleta de emoções fortes, levando-nos a experimentar diversos estados de espírito - sucessiva e/ou quase simultaneamente. Ser contada na primeira pessoa intensifica o enredo e a forma como percecionamos os acontecimentos. Além disso, tem um lado imprevisível e dramático, mas sem ser em exagero. E a sua componente descritiva está tão bem elaborada que nos transporta para o centro da ação, como se fizéssemos parte daquele contexto. Por vezes, desperta-nos alguma confusão. Não por falta de clareza. Precisamente pelo contrário: a sua fundamentação é tão pessoal, tão direta, tão próxima, que sentimos o alvoroço do protagonista - tantas vezes encarado como um anti-herói, devido à sua conduta pautada por traços de imoralidade.

A premissa é simples, mas vai-se complexificando, até pelos temas, pelas experiências, pelas ligações e pelas filosofias abordadas. Com inúmeros "ses", partimos do presente para conhecermos o passado, regressando ao fatídico dia que mudou a vida de Theo para sempre. Este flasback permite estabelecer um fio condutor e compreender não só o que aconteceu, mas também as repercussões da tragédia. Por sua vez, as constantes reviravoltas ligam-nos à personagem principal, mesmo que nem sempre tenha seguido o caminho mais correto e/ou desejável. Porque vamos procurar colocar-nos no seu lugar. Consequentemente, a sua vida vai proporcionar-nos ensinamentos inesquecíveis, ao mesmo tempo que implicará descobertas intra e inter pessoais, daí que considere O Pintassilgo extremamente fascinante e rico!

Com uma profundidade singular, faz-nos refletir sobre a verdadeira essência do ser humano e sobre a forma como chegamos sempre onde é suposto, apesar das nossas escolhas e decisões. E o quadro - que dá título a esta obra -, mesmo adquirindo um destaque secundário a certo ponto da narrativa, assume um significado único, revolucionário e comovente. No fundo - e socorrendo-me das palavras de Rita da Nova -, este livro é sobre perda [de pessoas e de coisas]. Mas também é sobre aquilo que ganhamos quando perdemos algo. Talvez seja estranho pensar segundo esta perspetiva, mas é como se a vida estivesse a fazer uma troca e, quem sabe, a recompensar-nos de algum modo - e não necessariamente através de uma causa-efeito fixa. Naturalmente, há perdas irreversíveis e insubstituíveis. Porém, algures na nossa jornada, acabamos por encontrar uma luz que nos faz [re]conquistar um novo rumo.



Deixo-vos, agora, com algumas citações:

«Devido à febre, tinha imensos sonhos estranhos e extremamente vívidos, suores em que dava voltas na cama quase sem saber se era de dia ou de noite, mas na última e pior dessas noites sonhei com a minha mãe: um sonho breve, misterioso, que me deu mais a sensação de ser uma visitação» [p:13];

«Eu vejo-a em casa, pensei. Era em casa que estava combinado encontrar-nos; a casa era o ponto de encontro numa emergência» [p:66];

«(...) mas nunca havia nada de pessoal. Perguntava-me sempre como estás e terminava com pensamos em ti, mas nunca havia nenhum sentimos a tua falta ou quem nos dera ver-te» [p:291];

«Mesmo assim, sentia-me só. Era de Boris que eu sentia a falta, de toda a trapalhada impulsiva que ele era: melancólico, imprudente, colérico, abismalmente irrefletido. O Boris pálido e pastoso, com as suas maçãs roubadas e os seus romances em russo, unhas roídas até ao sabugo e atacadores dos ténis a arrastarem-se na poeira» [p:345];

«Mas naquela noite, finalmente, encontrei-a. Ou, para ser mais preciso: ela encontrou-me. Deu a sensação de ser um caso único, embora talvez nalguma outra noite, nalgum outro sonho, ela volte a aparecer-me assim - se calhar quando eu estiver a morrer, embora pareça quase pedir demasiado» [p:837].



Nota: As gavetas tornaram-se afiliadas da Wook. Por isso, ao comprarem através do link disponibilizado, estão a contribuir para os meus hábitos de leitura. Obrigada!

19 comentários

  1. Gostei do título do livro :) e também gosto de leituras leves que pendem até ao último capítulo :)
    Boa sugestão para as férias :)
    Bjinhosss
    https://matildeferreira.co.uk/

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  2. Como sempre maravilhosa análise :-)

    Devias ir colocando também os teus comentários no site da wook ;-) acho que só ia beneficiar a todos!!!

    Acho muito pesado para esta minha fase agora, mas não o vou esquecer!!

    Beijinhos

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  3. Estou ligeiramente familiarizada com o trabalho da autoria e sei que por norma, a escrita dela é muito fluída, às vezes quase cantada, e fácil de acompanhar. Ainda não tinha ouvido falar do Pintassilgo, mas deixaste-me curiosa como sempre, coração <3

    THE PINK ELEPHANT SHOE

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  4. Parece ser um livro bem interessante.
    Obrigado pela sugestão.
    Continuação de boa semana, amiga Andreia.
    Beijo.

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  5. Acho que já tinha ouvido falar deste livro. Mas nunca o tive nas mãos.
    Gostei da análise e dos excertos... Entendes porque é difícil não comprar livros?

    Beijinhos
    Sandra C.
    bluestrass.blogspot.com

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  6. O Pintassilgo da gaiola,
    já voou para a liberdade
    em casa de Andreia agora
    encontrou a felicidade!

    Tenha um bom dia, quentinho, de Quinta-feira Andreia.

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  7. Não conhecia, mas já apontei! Pareceu-me uma história bem interessante! :D

    amarcadamarta.blogspot.pt

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  8. Só o nome deixou-me logo curiosa, acho engraçado e misterioso ao mesmo tempo.
    "(...) faz-nos refletir sobre a verdadeira essência do ser humano e sobre a forma como chegamos sempre onde é suposto, apesar das nossas escolhas e decisões", conquistou-me e já acrescentei :)

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  9. Não é o tamanho do livro que assusta, nem tão pouco lhe dá qualidade. A lista telefónica é (era...) bem grande e não tinha puto de interesse literário. lol
    R:
    Eu escrevi "trás", do verbo "trazer" e ninguém me avisou. xD
    Não sei se é minha obrigação cuidar de uma pessoa que, há poucos meses atrás se negou a ir comprar-me medicamentos. eheheh
    Esta ficou-me entalada... ehehehe

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  10. Mais uma vez os parabéns pela fotografia, consegues enquadrar sempre o livro na sua mensagem, e só a foto transmite a história!

    Beijinhos

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  11. Ando sem tempo para ler mas só a descrição deixou-me curiosa e o teu entusiasmo a falar sobre o livro então ainda mais!Vou guardá-lo na minha lista de futuras leituras!!
    Beijinhos grandes

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  12. obrigado, meu bem :D espero muito ter conseguido ajudar eheh

    oh :D para começar o nome é super engraçado e mostra que, de facto, é um livro leve. sou fã de livros assim, que primam por serem de fácil leitura e que acabam por agradar à maioria das pessoas. não conhecia a autora, por acaso :D

    NEW OUTFIT POST | A DIFFERENT THURSDAY <3
    InstagramFacebook Official PageMiguel Gouveia / Blog Pieces Of Me :D

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  13. Ótima resenha!
    Acho que vou procurar na Amazon.

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  14. Não conhecia mas fiquei curiosa. Tenho que ver se o encontro.

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