Entrelinhas #42

Fotografia da minha autoria


«(...) depois de tantas provações, poderá Gabrielle algum dia alcançar a tão desejada paz?»



A minha lista de livros a comprar aumenta mais do que aquilo que diminui. Porém, é sempre um sentimento de conquista quando consigo rasurar um dos nomes que nela figura. E uma das obras que estava em espera era, precisamnte, Um Longo Caminho para Casa, de Danielle Steel. Quando a recebi, oferta da minha tia, não descansei enquanto não me perdi na sua história.

Tinha imensa curiosidade em relação à autora, portanto foi a oportunidade perfeita para a conhecer. Se tivesse que descrever este livro num palavra, sinto que resiliência o definiria com uma certa justiça, uma vez que Gabriella [a personagem principal] se revela uma verdadeira sobrevivente. Chega a ser sufocante ler todas as adversidades que teve que superar. A quantidade de vezes que o destino lhe trocou as voltas e a obrigou a cair. Mas é igualmente inspiradora a força surpreendente com que se reergueu em todas elas. Provando, assim, que, se o nosso interior for feito de luz, encontraremos sempre uma razão válida para lutar, mesmo quando desistir parece ser a saída mais fácil.

O início deste enredo é bastante doloroso, porque é marcado por episódios de violência extrema. Não só física, mas também verbal. Acompanhar a infância de Gabbie [como era tratada] é revoltante e um autêntico murro no estômago, ainda para mais se pensarmos que, infelizmente, os maus-tratos infantis são uma realidade. Consequentemente, vemos uma criança que nasce com o peso da rejeição; uma criança que sente que a culpa de tudo é sua e que deveria ser uma melhor filha. O que, à medida que vai crescendo, a faz olhar apenas para as suas falhas, sentindo que não é digna de algo bom. Esta perceção, por si só, já é deveras cruel. E elucidativa do drama que se tornou a sua vida. Ao longo de todas estas descrições, tive vontade de a abraçar, de lhe estender a mão e de a proteger de um ambiente familiar desestruturado e nada saudável. Focando a nossa atenção para os seus progenitores, percebemos que não são tão diferentes entre si, simplesmente expressam o seu mau fundo de formas distintas. A mãe é genuinamente má e alimenta uma dose excessiva de ciúmes em relação a Gabriella, o que evidencia a sua crueldade e intensifica as constantes agressões. O pior é que em nenhum momento transparece remorsos por todas as atrocidades que provoca na filha. Por outro lado, temos um pai com uma atitude passiva, que até demonstra alguns sentimentos de preocupação e compaixão, mas que prefere ignorar a monstruosidade que se passa à sua volta, não impedindo que o surto de violência termine. E tudo isto contribui para despertar no leitor sensações contraditórias, que, aliás, se multiplicarão no decurso de toda a narrativa.

Um dos pontos de viragem acontece no momento em que a protagonista é enviada para um Convento. Curiosamente, não deixa de ser interessante verificar que ela prefere ficar com a mãe [mesmo que esta a maltrate], em vez de ficar num lugar onde são todos desconhecidos. A sensação de abandono é evidente, assim como a esperança de voltar para a família. Porque, no fundo, aquilo que Gabbie sempre quis foi a aprovação dos seus pais, principalmente da mãe. Apesar de enfrentar mais uma privação, é no Convento que encontra aquilo que nunca teve: afetos. Um lar. Amor! E é nesta altura que a história assume um registo mais leve, sereno, com algumas partes de humor. Simultaneamente, somos confrontados por duas perspetivas: atendendo à sua vida, Gabriella talvez tivesse todos os motivos para ser uma pessoa amargurada, rude, fria, mas manteve-se sempre meiga, atenciosa e bem educada. O mesmo não aconteceu com uma das noviças, que acabou por descarregar nos outros a mágoa do seu abandono. O que nos mostra que não é o nosso passado que nos define, mas sim o que pretendemos fazer com ele.

Quando tudo parece ficar bem, voltam os dissabores: um amor proibido. A oposição entre amor mortal e devoção a Deus. Um suicídio. A perda de um filho. O afastamento definitivo do Convento. E, por isso, Gabbie vê-se novamente obrigada a recomeçar. E, desta vez, praticamente sozinha. O que implica dificuldades acrescidas, alguma desorientação e alguma quebra na sua esperança. Para intensificar o enredo, como se a personagem principal já não tivesse sofrido quanto baste, retornam os episódios de violência, ainda que protagonizados noutro contexto e por outra pessoa que entra na sua vida, supostamente sem segundas intenções. Mas a máscara cai. As pessoas, de facto, nem sempre são o que aparentam ser. E quando parte à procura de respostas e reencontra o pai, por quem sempre teve uma enorme estima, acalenta-nos a sensação de ter encontrado o significado por trás do nome desta obra. Contudo, não poderíamos estar mais longe da verdade.

Esta história desarma-nos por completo. É intensa, dura, mas igualmente envolvente e emocionante. E é um verdadeiro relato de superação. Porque quando Gabriella se liberta dos seus fantasmas, após percorrer um longo caminho, chega, finalmente, a casa!


Deixo-vos, agora, com algumas citações:

«As marcas no rosto desapareciam sempre passadas algumas horas. A mãe sabia bem onde devia bater. Tinha muita experiência disso. Há muitos anos que o fazia. Na verdade, quase durante toda a vida de Gabriella» [p:10];

«O amor era tudo para ela. Sonhava com o amor e através dele escrevia. Era a sua única consolação» [p:47];

«- Amo-a Gabbie. - Não havia maneira de lhe ocultar o que sentia, a ela ou a si próprio. - Não sei o que lhe dizer, ou o que fazer... Não quero magoá-la, nem estragar a sua vida. Quero ter a certeza de que é isto que quer antes de fugir daqui para sempre, desistir do seu trabalho em Santo Estêvão e partir. Vou pedir ao arcebispo uma transferência» [p:144];

«- O amor é bastante violento, na verdade. Muitas vezes é doloroso, devastador. Não há coisa pior. Nem melhor. Acho os altos e baixos igualmente insuportáveis, mas a verdade é que a ausência deles ainda o é mais» [p:224];

«Estendida, inerte, Gabriella não sabia se vencera ou perdera. E não lhe importava. Cada um à sua maneira, todos tinham tentado matá-la... Joe... a mãe... Steve... o pai... haviam tentado e falhado» [p:295].

19 comentários

  1. Um excelente livro desta escritora americana muito conceituada.
    Um abraço e continuação de boa semana.

    Andarilhar
    Dedais de Francisco e Idalisa
    O prazer dos livros

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  2. Fiquei extremamente curiosa. Acho que vou adorar o livro.

    Beijinhos, minha querida!

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  3. E nem de propósito,hoje é o dia do livro cá no uk :) tenho curiosidade de ler esta autora, as livrarias cá enchem-se de com livros dela. Achei a história incrível e muito interessante. Excelente review.
    Bjinhosss
    https://matildeferreira.co.uk/

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  4. Obrigado, meu doce. Tão feliz por fazer sentir isso :D

    Sem dúvida alguma das minhas autoras favoritas :D De verdade! Creio que esse ainda não li mas já consta na minha lista :D

    NEW TIPS POST | TIME TO SAY BYE BYE DARK SPOTS :O
    InstagramFacebook Official PageMiguel Gouveia / Blog Pieces Of Me :D

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  5. Ainda só li um livro da autora, mas herdei no verão passado dois livros dela ainda embalados dessa colecção de círculo de leitores que o meu pai tinha lá perdidos na sua casa! Tenho muita curiosidade em voltar à escrita dela.

    MRS. MARGOT

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  6. Parece ser uma história bastante dura, como o referes, e deve ser mesmo complicado de ler sem fazer uma ou outra pausa porque este assunto deixa-me mesmo triste.
    Mas é mais um livro que me deixa completamente curiosa :)

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  7. Já tive de olho nesse livro. Parece ser maravilhoso. Beijinhos*

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  8. Nunca li nada desta autora mas tu (como sempre :D) despertaste o meu interesse para esta obra. Não é uma leitura ligeira, bem longe disso como bem exemplificas, mas infelizmente os maus tratos e a violência são reais e muitas vezes não há ninguém que se disponha a falar acerca destes, mesmo que ficcionadamente. É uma história que deve atingir como um murro... mas que mostra a reconstrução da protagonista. Gostei sobretudo quando disseste "não é o nosso passado que nos define, mas sim o que pretendemos fazer com ele", porque sempre acreditei muito nisso.
    Beijinhos

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  9. Não conheço a autora, mas a tua discrição do livro, leva a ficar entusiasmada. Um Longo Caminho para Casa? Só o titulo, a mim chama-me a atenção.
    Beijinho linda.

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  10. Deixaste-me logo curiosa com a premissa e fiquei super curiosa para perceber tudo o que acontece entre a família abusiva, o convento e todos os restantes episódios <3

    THE PINK ELEPHANT SHOE

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  11. Gosto muito de história de superação, esse livro é maravilhoso, Andreia bjs.

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  12. Nunca li nenhum livro dela. Vou tomar nota.


    Isabel Sá
    Brilhos da Moda

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  13. Wow! Depois desta semana ter ido a um antigo convento de clausura esta história arrepiou-me! Foi uma vida mesmo sofrida, mas tal como mencionaste ela fez o melhor que podia-se fazer com o passado dela. É de facto, uma história magnífica! Beijinhos

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  14. Tenho um livro da autora, acho que é só um mesmo, mas ainda não me chamou muito para começar a lê-lo :s

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  15. Uma boa solução para a lista de livros sempre a aumentar pode ser inscreveres-te na Biblioteca Municipal. Acabei de ler isso num blog que sigo e achei uma ideia genial e bem económica.

    Quanto a esta autora, já li vários livros dela, duns gosto, doutros nem por isso, mas acho que é como tudo na vida =P Este, por acaso, ainda não li!

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  16. Tal como referes parece ser uma história mesmo muito forte, acho que nunca li um livro desse género. Entrou para a minha lista!

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