Entrelinhas #41

Fotografia da minha autoria


«Framboise regressa à pequena cidade onde nasceu, na província francesa, e abre aí um restaurante que rapidamente se torna famoso, graças às receitas de um velho caderno que pertencera à sua mãe»


O preço dos livros é variável. Torna-se mais ou menos convidativo consoante a altura e a nossa vontade. E desperta-nos reações distintas, de aceitação ou de recusa. Agora, se falarmos em valor... Há histórias de valor incalculável. E isso, ainda que julguemos que sim, não se compra. Porque está na alma dos livros. Nós só temos a sorte [ou a astúcia] de selecionar a opção certa!

Cinco Quartos de Laranja, de Joanne Harris, foi amor à primeira vista. Encontrei-o numa das estantes do Porto Alternativo e não resisti à sua temática. Grande parte da narrativa tem por base um cenário de guerra. No entanto, «os dias longínquos da ocupação nazi» acabam por perder vigor quando começamos a conhecer a história da família Dartigen, que vive num verdadeiro clima de tensão, sobretudo após a morte da figura paterna, que funcionava como uma espécie de catalisador de paz entre todos os elementos. E é de ressalvar o quanto as personagens são fascinantes, porque foram muito bem construídas. Principalmente Framboise [que assume, igualmente, o papel de narradora].

O enredo divide-se em cinco partes, existindo sempre uma ligação entre elas. E, além disso, é cheio de contornos obscuros. O presente reencontra, inevitavelmente, o passado. E os mistérios que outrora pareciam desvendados voltam a aparecer. Através de um relato marcado por muitas sombras e segredos, não faltarão momentos de grande suspense e curiosidade. Por isso, somos agarrados desde a primeira palavra. Por isso, não descansamos até descobrir o que vem depois. E é esta inquietação que nos alimenta a imaginação, ao mesmo tempo que nos abre as portas de vidas profundamente marcadas pelas consequências de atos irrefletidos. 

É interessante perceber como é que a narrativa consegue ser tão dicotómica: o ambiente familiar é carregado de fúria, medos, ameaças, desprezo, ódio, insegurança e silêncios. Porém, a cozinha apazigua todas essas divergências. E esta divisão da casa, consequentemente, torna-se palco de duas realidades paralelas: o aconchego do fogão e da comida em oposição a uma mãe e três filhos que, sentados à mesa [e não só], se agridem com olhares, gestos e palavras. Esta dinâmica só é possível por causa dos detalhes, que são tão cuidados que nos despertam todos os sentidos. A atenção aos pormenores é percetível mal nos deparamos com o nome das crianças [nomes de frutas e de receitas]. Ou, então, quando lemos sobre a língua inventada pelo pai. Outro aspeto extremamente curioso - e que nos faz refletir sobre ele - é a incapacidade que esta mãe tem de dizer aos filhos o quanto os ama [o que tem uma justificação]. Contudo, deixa esse amor imortalizado num álbum de receitas. Que, como mais tarde descobriremos, é muito mais do que isso.

Nesta constante viagem entre o passado e o presente, vamos conhecer a protagonista em duas fases muito particulares: durante a sua infância e na sua vida adulta. E isso também nos provocará reações contraditórias. Enquanto que a Framboise adulta nos desperta um sentimento amistoso, a Framboise criança deixar-nos-à no limbo. É impossível não gostarmos dela, mas percebemos que muitas das suas atitudes não são inocentes, chegando mesmo a serem cruéis. Ainda assim, pelas suas descrições, sente-se que, em muitos momentos, apenas procurava aprovação e afeto. A incompreensão acerca de certos aspetos nem sempre lhe permitiu analisá-los da melhor maneira, o que desencadeou situações problemáticas e infelizes. Nesta história que também apresenta ingredientes de tragédia, perseguição, chantagem, jogo sujo e falta de escrúpulos, o nome da família fica marcado para sempre. Tantos anos depois, que consequências é que isso trará para Framboise?

Com um registo tão voraz quanto belo, tão irónico quanto arrebatador, Cinco Quartos de Laranja demonstra-nos o lado mais benevolente e o lado mais malicioso do ser humano. E preserva uma parte de fantasia, graças à lenda do Velho. Este livro é cheio de cor, de sabores e de cheiros. É inebriante, até pelo significado múltiplo que a laranja adquire: tão doce e tão perverso. E é, sem dúvida, uma das melhores histórias que li em toda a minha vida!


Deixo-vos, agora, com algumas citações:

«Se ficávamos doentes, cuidava de nós com um carinho relutante, como que a calcular os custos da nossa sobrevivência, e o amor que mostrava, manifestava-se nas formas mais elementares: tachos que nos dava para rapar, tachos de doces para rapar os restos, uma mão-cheia de morangos silvestres...» [p:9];

«Às vezes o pai dormia na cadeira da cozinha quando a mãe tinha ataques. Uma manhã acordámos e fomos encontrá-lo na cozinha a lavar a testa no lava-louça, a água cheia de sangue. Disse-nos que fora um acidente. Um acidente estúpido. Mas eu lembro-me de ver sangue ainda fresco nas lajes da cozinha. Um pedaço de lenha para o fogão tinha sido deixado em cima da mesa. Também aí havia sangue.
- Ela não nos faria mal, pois não, papá?» [p:40];

«Já estão a ver como tudo começou tão inocentemente. A nossa intenção nunca foi magoar ninguém e, contudo, há dentro de mim um sítio duro que se lembra implacavelmente e com perfeita precisão. A mãe percebeu os perigos antes de qualquer um de nós» [p:67];

«Tentei falar com a minha filha, explicar-lhe que nada daquilo era culpa dela, mas não consegui. Ensinaram-nos sempre a esconder o que sentimos. É um hábito difícil de quebrar» [p:142];

«"Perdi-a. Estou a perdê-los a todos".
Está escrito no álbum, ao lado de uma receita de bolos de amoras. Letras miudinhas como dores de cabeça, a tinta preta, com as linhas riscadas, como se o código em que escreve não fosse suficiente para esconder o medo que esconde de nós e dela mesma» [p:196]

25 comentários

  1. Muito interessante este livro, não conhecia a autora.
    Um abraço e continuação de uma boa semana.

    Andarilhar
    Dedais de Francisco e Idalisa
    O prazer dos livros

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  2. Li este livro devia andar no 9º ou 10º ano, requisitei-o na biblioteca da escola. Já não me recordo muito da história, mas sei que também gostei muito da leitura na altura. Tenho que repetir =)

    Beijinhos!

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  3. Tenho esse livro na minha lista de leitura e já nem me lembrava. Tenho mesmo de ler esse clássico.
    Beijinhos,
    Cherry
    Blog: Life of Cherry

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  4. OMG! Isto já são demasiadas coincidências! Adoro este livro, ou melhor adoro todos os livros da Joanne Harris (adoro os que já li e os que ainda quero lero!). Este foi o primeiro que li dela à uns valentes 15 anos, depois li o Chocolate, o Vinho Mágico (que amo de paixão) e por aí além! Este ano já andei a "namorar" o Xeque ao Rei e os Sapatos de rebuçado que ainda não li!!

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  5. Que história incrível :) quando vi o título do livro pensei que fosse sobre o blog da minha querida Isabel Zibaia, um dos meus blogs de culinária preferidos :) coincidências felizes :)
    Bjinhosss e boas leituras :)
    https://matildeferreira.co.uk

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  6. Parece ser um livro interessante:))
    Gostei das narrativas.


    Hoje:- Silenciada nas águas do rio.
    .
    Bjos
    Votos de uma feliz Quinta-Feira.

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  7. Tenho que ler essa obra, deixaste-me curiosa! :P

    amarcadamarta.blogspot.pt

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  8. Não li ainda mas pareceu-me bem interessante! Vou colocar na lista de leitura =)

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  9. Pareceu-me um livro interessante.
    Obrigado pela partilha.
    Continuação de boa semana, amiga Andreia.
    Beijo.

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  10. Recomendo! ;D

    Não conhecia o livro. Pela capa jamais diria que tem base em um cenário de guerra!

    Ótima quinta!

    Beijo! ^^

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  11. Já estive para ler esses livros umas quantas vezes, mas depois vou sempre adiando!

    Bjxxx
    Ontem é só Memória | Facebook | Instagram

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  12. Deixas-me sempre tão curiosa. Não sei se é a forma como tu abordas os livros ou se é mesmo a história em si, mas fico sempre interessada :)

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  13. Acho que mais importante que a importância da história, é o modo como um autor consegue dar importância a uma história insignificante. :)

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  14. Gosto muito dessa autora e já ouvi falar tanto nesse livro que vou ter mesmo de me render! :)

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  15. Tenho esse livro na minha estante e muita vontade de o ler! Gosto muito da escrita da Joanne Harris, sobretudo os seus livros mais antigos.
    Despertas sempre a minha vontade para ler os livros que abordas, sobretudo aqueles que tenho em casa, por isso a minha lista vai crescendo cada vez mais x) Mas tempo em que lemos nunca é tempo mal gasto, bem pelo contrário! Beijinhos

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  16. Mais do que parecer ser uma história muito interessante, essa tua descrição está lindíssima! Maravilhosamente bem escrita, Andreia! Toda uma poesia a descrever o livro. Fiquei encantada :)

    Beijinhos,
    Sónia R. Pinto
    By the Library

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  17. Meu deus é mesmo incrível!! Quero muito ler!! Eu sou muito guardada. Não consigo dizer "amo-te" frente a frente. A ninguém! Acho que talvez com os meus filhos seja diferente. Mas não sei. Vou colocá-lo na lista pois quero muito ler. Obrigada pela partilha querida! Essas reviews estão cada vez melhores! Beijinhos <3

    www.dezoito.pt

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  18. fiquei curiosa com a história
    https://retromaggie.blogspot.pt

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  19. Já passei tantas vezes olhos por esse livro nas minhas compras em segunda mão mas nunca me cativou o interesse, mas agora fiquei muito curioso com essa história. =)

    MRS. MARGOT

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  20. Nunca tinha ouvido falar do livro, mas parece interessante.


    Isabel Sá
    Brilhos da Moda

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  21. Olá Andreia!
    Este é um dos livros que tenho na minha lista dos livros comprado mas não lidos!
    Se quando o comprei tinha curiosidade, agora com mais curiosidade fiquei!
    Boa escolha, adorei o texto!

    Cumprimentos
    Sandra C.

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