Entrelinhas #40

Fotografia da minha autoria

«Uma professora universitária de sólida formação positivista, que então vivera na cidade de Berkley, sofre uma súbita reviravolta na sua vida. A morte do pai, o fim do casamento trazem-na até Portugal onde uma paixão tardia a prende irresistivelmente»


As minhas visitas ao Porto Alternativo, para adquirir livros em segunda mão, não passaram a ter uma periodicidade fixa. No entanto, seguramente, tornaram-se mais frequentes. Precisamente por alguns dos motivos que enumerei aqui: exemplares em perfeitas condições e preços aliciantes, permitindo-me arriscar mais em autores que não conheço. O que, naturalmente, pode ser uma aposta ganha ou uma desilusão - ainda que seja extremamente difícil não gostar de um livro, como partilhei neste Entrelinhas. Numa das últimas compras que fiz na loja, saí de lá com uma obra de Luísa Beltrão.

Todos Vulneráveis conquistou-me logo pelo nome, uma vez que me pareceu uma definição perfeita para a nossa condição de seres individuais. Posteriormente, a sinopse também me deixou curiosa, pois percebi que, para além de ser um thriller, privilegia «a complexidade da alma humana», estabelecendo uma metáfora interessante entre uma mesa de jogo e as relações interpessoais. Neste primeiro impacto, senti que os elementos eram suficientes para ficar fascinada. Porque a temática é provocatória. E a descrição da narrativa causa-nos uma certa inquietação, na medida em que imaginamos os seus contornos e percebemos que o enredo não será propriamente linear e desprovido de mistério. Porém, estava um pouco longe de imaginar o que me esperava.

A premissa tem tanto de perturbadora como de convidativa. Num meio, aparentemente, descontraído e quase familiar, há «alguém diabolicamente inteligente» que começa a enviar cartas anónimas. Os visados não são selecionados ao acaso, mas ninguém suspeita do que está a acontecer. Contudo, Matilde [dona do clube de bridge] vê-se envolvida neste jogo doentio quando passa a receber uma cópia dessas cartas de denúncia, que colocam em evidência informações pouco simpáticas acerca de alguns membros do clube. E a ação complica-se, porque a professora universitária é desafiada a descobrir o destinatário - dado nunca revelado na mensagem. Nesta espécie de «jogo detectivesco», compreendemos que numa jogada há sempre dois caminhos: jogar ou deixar que joguem connosco.

Identificando um certo padrão minucioso por parte da personagem anónima, há perguntas que não abandonam os pensamentos de Matilde, a começar pelo facto de questionar o motivo por ter sido ela a escolhida, assumindo uma função de aliada à força. Simultaneamente, passa a estar atenta às pessoas que a rodeiam. Assim, as emoções ficam mais intensas. E rapidamente olha para todos como potenciais suspeitos, o que acabará por trazer consequências para a sua vida pessoal e amorosa. Incapaz de resolver este caso sozinha, necessita de pedir ajuda. Mas aqui coloca-se um problema: em quem poderá confiar? Além disso, enfrenta a ingrata tarefa de chegar à vítima, sem a melindrar e sem expor a situação; tarefa delicada, uma vez que não sabe o impacto e os danos que a mensagem provocou.

As cartas tornam-se cada vez mais obscenas no trato. E os enigmas são substituídos por insultos intencionalmente dirigidos. Enquanto o grupo que Matilde reuniu desenvolve um forte trabalho de equipa para desvendar o culpado, percebemos que toda a história se centra em vingança, adultério, desconfiança, vícios e dependências de vária ordem. E, aos poucos, as pessoas revelam-se, libertando-se das máscaras que foram construindo. Neste ambiente, tudo é colocado à prova. «O círculo vai-se fechando». E as próprias personalidades das personagens desestruturam-se, «sofrendo inesperadas mutações». É incrível como as nossas perceções sobre alguém podem ser completamente erradas. E a prova disso é o desfecho de toda esta investigação. Por isso, será que chegamos a conhecer verdadeiramente as pessoas?



Deixo-vos, agora, com algumas citações:

«É curioso como as pessoas se revelam à mesa de jogo. Algumas chegam a parecer possuidoras de dupla personalidade» [p:41];

«Ocorreu-me o estranho silêncio da vítima, que não dera quaisquer sinais de ter recebido as cartas. Pelo menos aparentemente. Partindo do princípio que as cartas seriam enviadas em simultâneo, a mim e a ele, o potencial batoteiro já tivera uma semana para digerir o primeiro ataque...» [p:51];

«O gozo está aí, medir os riscos em função das possibilidades, medir as forças connosco próprios e com os outros. Avaliar mal os outros é um erro comum e perigoso» [p:84];

«Um indivíduo que escreve cartas anónimas procura tirar partido da superioridade que o anonimato lhe confere. É um processo resultante das fantasias que normalmente não passam à prática por repressão das censuras» [p:100];

«- Quando é que isto vai acabar? Estamos aqui, impotentes, a receber insultos horríveis sem nos podermos defender!?» [p:157]

17 comentários

  1. Não conhecia, mas pelo que li deve ser bem interessante este livro.
    Um abraço e continuação de boa semana.

    Andarilhar
    Dedais de Francisco e Idalisa
    O prazer dos livros

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  2. Não conhecia, mas parece ser uma obra interessante! :P

    amarcadamarta.blogspot.pt

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  3. Fiquei deveras curiosa com o livro, é do género que gosto.

    Um dia destes tenho que lê-lo =)

    Beijinhos, minha querida!

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  4. Bom dia. Imagino ser um livro muito interessante de ler.
    .
    * A Mulher ... e o olhar matreiro da Serpente *
    .
    Deixando abraço e beijo

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  5. Já ouvi falar muito bem desse espaço :)
    Gostei do review :) Leitura leve e cativante :)
    Bjinhosss
    https://matildeferreira.co.uk

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  6. Gostei !!
    Mil beijinhos,
    https://kika--maria.blogspot.com/

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  7. Conquistou-me! Sabes se a autora é mesmo Luísa, ou é um pseudónimo?
    R.: Exacto, como disseste, discutem-se mas de forma ordeira, eu queria dizer no sentido pejorativo :P Concordo plenamente contigo!

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  8. Não conhecia esse livro. E parece ser interessante! ;)

    beijos!

    https://ludantasmusica.blogspot.com.br

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  9. O nome da autora não me é estranho, mas não me lembro de ter lido nada dela.
    Mas o livro que citas parece interessante.
    Continuação de boa semana, amiga Andreia.
    Beijo.

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  10. Excelentes citações, não conhecia o livro, eu adoro comprar livros em segunda mão, ainda estou para ir à feira dos alfarrabistas no chiado, tenho muita curiosidade em lá ir. :)

    MRS. MARGOT

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  11. Dependendo do jogo e não, não estou a falar de jogos de casino e outros, também eu em certas situações, joguei ou deixei que jogassem comigo, situações da vida,às vezes. Mas o livro parece interessante :)
    Beijinho minha linda.

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  12. Parece-me que é de boa leitura :))

    Hoje:- A Dança no Paraíso
    .
    Bjos
    Fim de semana feliz.

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  13. Acho que nunca li nada da autora, mas parece-me um livro que ia adorar mais uma vez 😉

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  14. Eu sou fã de livros em segunda mão (tendo sempre o cuidado de ver se não faltam páginas). Nos últimos 2/3 anos acho que só comprei 1 ou 2 livros novos. De resto compro sempre usados e nunca dou mais do que 5€. E consigo encontrar bastantes livros recentes que fazem parte da minha lista de desejos.

    Fiquei muito curiosa em relação a este livro!

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