Reflexo Cruel

Fotografia retirada do google/Edição da minha autoria

«Meus olhos e eu observando os reflexos ampliados das marcas do tempo», Rosa Berg


O reflexo das janelas deixou de ser inocente. Aquilo que parecia um ato isolado, revelou-se uma fonte de mensagens escondidas. E o que antes transmitia tranquilidade, passou a ser uma imagem recorrente de pesadelos.
 
Desde cedo, Margarida habituou-se a viver no escuro. Reconhecia cada recanto do seu lar sem ter necessidade de se deixar guiar por qualquer ponto de luz. E sentia um certo conforto quando parava à entrada da cozinha e ficava a olhar pela janela da varanda. Ainda que os primeiros raios de sol lhe parecessem encantadores, a sua altura preferida do dia era quando apenas conseguia distinguir algumas silhuetas de casas, apartamentos e terrenos circundantes. Nunca sentiu qualquer receio nesse desconhecido. Nem tinha, aparentemente, motivo para tal. E quando acordava da sua espécie de hipnose, retomava a sua vida sem se demorar a imaginar potenciais ameaças do exterior.

Viveu sempre em paz. Sozinha. Alimentada por um silêncio que passou a tratar como um antigo familiar. Procurava este equilíbrio, que lhe restituía a energia de um quotidiano inundado em barulho e confusão. Em casa, embrulhada na sua manta cor de avelã, era como se entrasse numa realidade paralela, que a sossegava. Até ao dia em que os pingos da chuva que batiam na vidraça lhe soaram a perigo, ainda que não houvesse qualquer irregularidade.

Foram, posteriormente, surgindo pequenos sinais. Objetos fora do lugar, notícias de jornal recortadas ou sinalizadas a vermelho sangue, chamadas às três da manhã. Mas o pior foi a sensação de que o reflexo da sua janela escondia algo. Contudo, segundos depois, esse peso desaparecia, como se a paisagem ficasse novamente livre de qualquer instabilidade. E a luz, que outrora era dispensada, começou a ser a resposta de segurança; uma prova de que para lá do que via não havia mais do que a sua imaginação fértil, a procurar ligar pontos completamente aleatórios. Tentou convencer-se disso. E atribuiu aqueles sinais a enganos, acreditando que eram direcionados a qualquer pessoa que não ela. Mas o caos era já evidente. E a sua paz estava comprometida.

Sem aviso, um murmúrio. E algo se partiu. E Margarida, que conseguiu adormecer no sofá, acordou em sobressalto. Com um olhar rápido, viu o livro que estava a ler no chão e a televisão ainda a funcionar. E acalmou, porque a explicação tornou-se óbvia. Não tinha o que temer. Por fim, levantou-se para ir beber um copo de água. Ao abrir a porta, arrepiou-se. E sentiu que algo estava diferente. Instintivamente, olhou para a janela, que lhe pareceu partida. Caminhou até lá e acendeu a luz. E o terror do que viveu depois marcou-a para sempre!

18 comentários

  1. Fiquei arrepiada e curiosa para saber o que marcou Margarida para sempre.

    Excelente texto!

    Boa semana, minha querida! Beijinhos!

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  2. Adorei! E fiquei muito curiosa pela Margarida!
    Beijinhos.

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  3. Adorei e até a mim arrepiou. Confesso que sou muito medricas e já tinha saído de casa quando essas coisas começaram ahaha
    Adorei o texto :D

    Beijinhos,
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  4. Gostei muito do texto apesar de ser um pouco arrepiante :D
    Beijinhos

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  5. Gostei bastante deste teu texto, alias estou a gostar mesmo muito da tua escrita :)
    Continua assim, por favor :)
    Muitos Parabéns, princesa*
    Bjinhosss
    https://matildeferreira.co.uk/

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  6. Até eu fiquei arrepiado,
    dessas palavras ter lido
    gostei está bem contado
    pesadelos já tenho sentido!

    boa noite e bons sonhos Andreia.

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  7. Wow! Fiquei curiosa para saber o resto! O texto deixou um suspense no ar que principalmente adoro.

    www.carolinafranco.pt

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  8. Que texto arrepiante
    http://retromaggie.blogspot.pt

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  9. Sinceramente, esse texto é um excelente início de novela, que... pode continuar, pois tu tens o dom da prosa, a prosa que para mim é mais difícil.
    bj

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  10. Valem super a pena, meu bem :D

    Ai meu Deus!!! Que intenso :o
    Quero muito a continuação!!!!

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    InstagramFacebook Official PageMiguel Gouveia / Blog Pieces Of Me :D

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  11. Gostei muito do texto e consegui ter quase tanto medo como a Margarida, fiquei curiosa com o resto :)

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