Entrelinhas #29 - Miguel Sousa Tavares

Fotografia da minha autoria

«Depois de se ter licenciado em Direito, exerceu advocacia durante doze anos, mas abdicou definitivamente desta profissão para se dedicar em exclusivo ao jornalismo»


Miguel Sousa Tavares não era uma figura completamente desconhecida. Já tinha tido a oportunidade de ler algumas das suas crónicas e de o ouvir - com a sua voz inconfundível - em programas de televisão. No entanto, não estava a par da sua obra literária, mas tinha imensa curiosidade em relação a determinados títulos da sua autoria. Quando surgiu a oportunidade de reverter esta situação, não a deixei escapar. E rendi-me à sua escrita, que consegue ser tão crua e tão poética, envolvente e misteriosa. Li três livros muito distintos, mas cuja qualidade, para mim, é inegável!

No Teu Deserto: Este «quase romance», de caráter autobiográfico, é uma homenagem e, no fundo, um agradecimento. Narrado a duas vozes, é um livro que abunda em sentimentos e que nos convida a refletir e a valorizar o silêncio. Além disso, não deixa de reforçar a importância de dizermos aos outros aquilo que nos significam, por muito que o possam saber. Assumindo, muito naturalmente, um registo intimista, a escrita é fluída e sublime. O seu início é conturbado, mas emocionante. E torna-se bastante interessante acompanhar a viagem ao deserto, que está na sua base. As descrições transportam-nos para o local e para os acontecimentos. E é percetível que estamos perante uma verdadeira história de amor, na qual sobressai o companheirismo, a amizade e o respeito mútuo. É um relato apaixonante, onde temos que lidar com a perda, a ausência e o peso das nossas decisões.

«Na verdade, o deserto não existe: se tudo à sua volta deixa de existir e de ter sentido, só resta o nada. E o nada é o nada: conforme se olha, é a ausência de tudo, ou, pelo contrário, o absoluto» (p:49)

Equador: É «um retrato brilhante da sociedade portuguesa nos últimos dias da Monarquia», que levanta imensas questões. Neste romance histórico existe um pouco de tudo: aventura, cenários exóticos, paixão, amor, jogo de interesses e poder. É um livro intenso, com uma profunda carga emocional e onde se sente a vida a acontecer bem de perto. Paralelamente, vamos encontrar na personagem de Luís Bernardo um conflito interno, a busca incessante por justiça e um sentido de honra vincado. É impossível ficarmos indiferentes ao seu percurso, até porque é através dos seus passos que conhecemos o desenrolar da ação. Luís Bernardo será colocado à prova de várias maneiras. E dei por mim a sentir alguma revolta por todos os ataques de que foi alvo. É visível o choque de realidades, a hipocrisia da missão para a qual foi destacado e a constante oposição entre idealismo e realidade; entre razão/dever e emoção/vontade. Numa altura em que se procura ocultar uma verdade que parece óbvia, encontramos na personagem principal os valores certos, apesar das suas falhas, porque é essa a sua essência. E não pela conveniência de parecer bem ou procurar obter algo com essa postura falsa. É uma leitura fascinante, que nos prende desde a primeira página. E o final? Absolutamente surpreendente!

«Luís, você não é homem para isto e sabe-o bem. Está fora do seu mundo e não acredita nos valores que é suposto representar e defender» (p:311)

Madrugada Suja: Transporta-nos para Portugal após a revolução, mas há descrições que o aproximam do que acontece atualmente. De uma forma muito direta, a narrativa começa com a exposição de um episódio angustiante, que altera a vida de Eva para sempre. O que lemos depois é um retrato do presente, que nos permite perceber como a vida avança. Mas será que fugimos verdadeiramente do passado? Este livro fica marcado por uma vertente crítica e mordaz, abordando temas como a desertificação do interior, a corrupção política e a ganância excessiva. Com a dose certa de reviravoltas, recebemos vários ensinamentos sobre a vida e, particularmente, sobre as pessoas. Um aspeto interessante é que esta obra apresenta múltiplas ramificações que, aparentemente, não estão interligadas. Contudo, a partir do momento em que são introduzidos novos dados compreendemos que não é tão linear assim. Há, efetivamente, um caráter «sujo», mas também existe um lado muito genuíno e afetuoso. No fundo, o enredo leva-nos à descoberta da verdade. E, talvez, a uma redenção por tudo o que aconteceu no passado. E, para alimentar mais o suspense, há um segredo guardado, durante vários anos, apenas por duas pessoas. 

«Perdeu-lhe o rasto? (...) só se perde o rasto do que se procura. E você nunca procurou saber dela, pois não?» (p:256)

Miguel Sousa Tavares é, sem dúvida, um nome a ter em conta. Mal posso esperar por ler mais obras da sua autoria. Aconselham-me alguma em particular?

24 comentários

  1. Por acaso já li estes três livros do Miguel Sousa Tavares e entre os três não sei qual escolheria talvez o Equador.
    Continuação de uma boa semana.

    Andarilhar
    Dedais de Francisco e Idalisa
    O prazer dos livros

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  2. Li o "Madrugada Suja" e gostei imenso. O "Equador" nunca li, não é o meu género preferido. "No teu Deserto" tenho que ler, espevitaste-me a curiosidade =)

    Beijinhos, minha querida! :*

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  3. Olá,

    Nunca li nenhum, nem sei ainda se tenho coragem, vamos a ver :-)

    Beijinhos
    https://atitica.wordpress.com/

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  4. O único livro que li dele foi: Equador. E como te disse, gostei mais da novela. Como jornalista e comentador gosto de o ouvir. É frontal,uma qualidade que hoje pouco se vê.
    Beijinho

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  5. Fiquei interesssada no Madrugada Suja, adoro esse tema :)
    Em relação ao MST, costumo dizer que quem sai aos seus...;)
    Bjinhosss
    https://matildeferreira.co.uk

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  6. Sei quem é o autor,mas nunca li um livro dele
    Kiss

    www.inspirationswithm.com

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  7. Por acaso nunca li nada dele, mas o que mais me chamou à atenção foi "Madrugada Suja" :)

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  8. Boa tarde.Não sou muito de ler, "livros", mas devia. Gostei da postegem

    Hoje o título:-[ Janela aberta, esperança que chega...]

    Bjos
    Feliz Quinta-Feira

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  9. Não conhecia o Miguel Souza mas foi um prazer conhecer esse talentoso escritor, Andreia bjs.
    http://www.lucimarmoreira.com/

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  10. Só li "Equador" e gostei, ao contrário do José Rodrigues dos Santos (o orelhas eheheh), que não escreve nada de jeito. eheheheh

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  11. Não conheço nenhum livro dele sinceramente, mas também não sou deste género de livro :3

    Beijoos
    www.pirilamposemarte.com

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  12. Lembro-me do Equador. Os outros não tenho a certeza se li.
    Achei a sua narrativa interessante, embora não tenha ficado deslumbrado.
    Bom resto de semana, amiga Andreia.
    Beijo.

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  13. Sim, valorizar o silêncio, peço ao meu anjo da guarda que me impeça de falar desnecessariamente.
    Aqui no Brasil também tem-se abordado o monarquia. Teve uma novela interessante, e agora um série humorística muito boa: Filhos da Pátria.

    bj

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  14. Este comentário foi removido pelo autor.

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  15. Não li nenhum livro,
    de Miguel Sousa Tavares
    sou sincero por isso digo
    sempre todas as verdades!

    Vejo nele algo de muito polémico,
    tanto dá no cravo como na ferradura
    não sei se goza ou não de privilégio
    ou se de alguma herdada melhadura?

    Obrigado pelo conselho,
    e também pela partilha
    a trabalhar ou em passeio
    Andreia, tenha um bom dia!

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  16. Ele não escreve géneros de livros que costume ler, no entanto li o Equador e adorei! Já leste algum do Chagas Freitas? Estou tentada a ler

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  17. Nunca li nennhum livro dele, mas sim excertos. É um autor e pessoa que gosto muito!


    Beijinho || Daniela Silva | Blog

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  18. Nunca li nada de Miguel Sousa Tavares, mas sempre me aconselharam vivamente as obras do autor. Ando muito tentada com o madrugada suja, talvez seja a minha prenda de Natal de mim pra mim :p

    THE PINK ELEPHANT SHOE

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  19. Por acaso nunca li nada dele. Tenho que tratar disso,

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  20. fiquei bastante curiosa com a madrugada suja
    http://retromaggie.blogspot.pt

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  21. nunca li nenhum livro dele, mas gostava de ler o "madrugada suja" :p
    a foto está mesmo gira!
    beijinhos :) https://ratsonthemoon.blogspot.pt/

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