Entrelinhas #4


«A conhecida apresentadora de televisão Camila Vaz vê-se obrigada a fugir de Portugal para atenuar o escândalo provocado pelo lançamento do livro A Persistência da Memória. Quando finalmente decide reaparecer em público, recebe um jornalista num hotel do Rio de Janeiro no último dia do ano e rapidamente o encontro se torna num espaço de confissões e sedução, despertando sentimentos e memórias de ambos há muito perdidos no tempo...»


Fiquei a conhecer o seu trabalho no Alta Definição e não mais o deixei de acompanhar. Foi com surpresa e grande expectativa que tomei conhecimento do seu primeiro romance. E não podia esperar mais até o ter nas mãos. O risco de ficar desiludida era grande. É que quando admiramos o trabalho de alguém temos tendência para esperar que seja bom em todas as áreas. E o facto de ser um grande entrevistador não significa que seja um grande romancista. Mas sabia perfeitamente que se escrevesse tão bem como faz entrevistas o produto final só podia ser algo de cortar a respiração. Pela envolvência. Pela criatividade. Pela positiva. Sempre pela positiva. Estas foram algumas das palavras que utilizei quando falei do Daniel Oliveira n' As gavetas da minha casa encantada (podem ler o texto na integra aqui). E a verdade é que depois de ler «A Persistência da Memória» posso afirmar que é brilhante em tudo aquilo que faz.

O primeiro romance surpreendeu-me. Foi melhor do que aquilo que imaginei. Agarrou-me da primeira à última palavra. E quando acabei de o ler a vontade de voltar à primeira página era enorme. Naturalmente, surgiram algumas questões e o desejo de saber o que aconteceu com a Camila fez-se sentir mal fechei o livro. A parte que mais custa quando se chega ao fim de uma história é mesmo essa: fechar o livro. E aceitar que aquela realidade terminou ali. E que muito provavelmente nunca saberemos o que aconteceu depois. Não é suposto. Quando percebi que estava a escrever um novo romance e que a «conhecida apresentadora» estava de volta não consegui esconder o entusiasmo - as minhas perguntas teriam uma resposta, mesmo que não fosse aquela que estava à espera. 

«O passado nunca se perde, a saudade eterniza o momento». Foi assim que o Daniel - permita(m)-me tratá-lo por tu - terminou a apresentação d' «A Fórmula da Saudade». Não sabia se existia verdadeiramente uma fórmula, mas fiquei ainda mais convencida do que já estava a descobrir. Ele fala da saudade com nunca ouvi alguém a falar, com um amor muito próprio, envolvendo-nos nas suas palavras. No café da Fnac de Santa Catarina, por momentos, esqueci-me que estava diante do brilhante profissional de televisão que entra todos os sábados em minha casa, porque a familiaridade do momento fez-me sentir que estávamos entre amigos. É esta proximidade que ele cria com quem o ouve, com quem o acompanha, mesmo que à distância, que nos faz admirá-lo tanto. As pessoas são grandiosas pelo talento que têm, mas principalmente pela personalidade. Quando no final da apresentação tive a oportunidade e privilégio de estar ao seu lado, vendo-o assinar o meu livro e trocando algumas palavras com ele, percebi o quanto é fantástico. Nunca duvidei disso, mas ter aquela prova encheu-me o coração. Soube a pouco, como sabe sempre, até porque os nervos nunca nos permitem dizer tudo. Ficava horas a conversar com ele se fosse possível. E a ouvi-lo. Se há pessoas que têm muito para nos dizer ele é uma delas. Seguramente!

As expectativas para este novo romance eram elevadas, muito por culpa do anterior, que li em quatro horas no dia de natal. Estava desejosa de começar este e de sentir a mesma ligação com as palavras. A mesma vontade de me prender e mergulhar na história. E foi exatamente isso que aconteceu! Numa tarde de domingo chuvosa, e com trovoada, aquilo que mais me apetecia era sentar-me na cama a ler. Durante cinco horas não senti necessidade de voltar à realidade, aquelas páginas eram tudo o que precisava. E tal como aconteceu há quase um ano atrás não consegui parar de ler. São romances distintos, ainda que se complementem, mas há algo que têm em comum: a linguagem fácil, cativante, emocionante, sedutora, que nos faz querer sempre saber o que acontece depois. Aqui o Daniel é exímio, sabe captar o leitor e desarma-nos, porque nos deixa a pensar. 

«A Fórmula da Saudade» é uma história de amor. Talvez seja redutor defini-la assim porque lá dentro encontramos de tudo um pouco, mas não será a saudade uma das demonstrações de amor mais bonitas? Este sentimento tão tipicamente português acompanha-nos mesmo quando não queremos, contudo, quando paramos para pensar, percebemos que não faz sentido ser de outra forma. Sou feita de saudades e em muitas daquelas páginas carregadas de uma vivência que não é a minha voltei ao passado. Ao meu passado. E senti que esta história era também um pouco daquilo que sou. A recordação dos jogos de infância e das frases características que tantas vezes ouvimos os nossos avós dizer. A lembrança dos meus avós que já não tenho comigo, mas que ao ler todas aquelas coisas os trouxe mais um pouco até mim. As memórias são sempre proporcionais à falta que as pessoas nos fazem, por isso é que a saudade está sempre ao virar da esquina. Tão perto, como se caminhasse connosco de mãos dadas. 

Há romance, há sedução, há gargalhas, há sorrisos, há lágrimas; há a realidade de um tempo que não vivi por ser bem mais nova do que os factos retratados. É a história dos avós, mas também a dele. E pelo meio encontramos novamente a Camila, por quem, a meu ver, nos apaixonamos mais um pouco. A sua figura enigmática, provocadora, genuína, talvez ingénua em algumas partes, conquista-nos. Quantas Camilas, ainda que tenham outro nome, não existem por aí? Mas voltando aos avós, o amor está mesmo nas coisas mais simples. Talvez hoje, para algumas pessoas, seja impensável preservar uma relação à distância, onde o coração só acalma com a receção de uma carta que chega sempre atrasada. Não sei se é a mais bonita história de amor - agora que penso nisso acho que nunca cheguei a saber como é que os meus avós se conheceram, mas sei que também eles viveram um amor digno desse nome, até a doença ter levado o meu avô para longe da minha avó -, mas faz-me acreditar, até pela beleza dos testemunhos e pela forma sublime como foram representados, que há algo maior do que nós pelo qual vale a pena viver. E que quero vivê-lo!

Os meus pais admiraram-se por ter lido o livro numa tarde, mas a mim pareceu-me uma consequência natural pelo excelente trabalho que tinha em mãos. Quando há amor nas palavras não se dá pelo tempo passar, nem há vontade de parar. No fim voltei a questionar-me: «e agora? O que é que acontece à Camila? Será que nunca se voltarão mesmo a encontrar? E a Zulmira? E a família?». Preciso de um terceiro romance para que as dúvidas não persistam. Preciso apenas de um terceiro romance, que pode não ter qualquer ligação com estes dois, porque se o Daniel é um excelente entrevistador - que o é - a escrever enche-nos igualmente a alma. Estou convencida de que existe mesmo uma fórmula para a saudade. E que esta será sempre proporcional à vontade que tivermos de a descobrir. Pode não ser universal, mas existe e todos temos a nossa. 

Este livro leva-nos mais além. De nós. Da saudade. Do amor. Na vida nunca se caminha sozinho e são as pequenas histórias daqueles que amamos que nos fazem querer amar ainda mais. Terminei a leitura com o livro todo marcado com etiquetas coloridas, porque algures naquelas palavras existe uma viagem ao nosso íntimo. E nelas posso perder-me sempre que quiser. 


Uma (das muitas) passagem do livro que me marcou: 

«- E por isso decidiste ficar, Gusmão?
-Cheguei à conclusão de que a fuga não resolve nada, porque o meu amor por eles depende também do que deles absorvo, dessa troca fomentada, portanto acaba por ser também um ato de amor egoísta ficar. É por eles que fico, mas indiretamente, porque me seria doloroso viver sem o que sinto que me dão.
- E não pela dor que lhes causarias?
- Pela dor que me causaria a dor que lhes causaria.
- E não os amarias à distância? A saudade não é o amor do avesso? 
- O ódio é o amor do avesso. A saudade é o amor visto ao longe. Mas, visto de longe, o nosso amor não é refletido em quem amamos, não sentimos esse efeito boomerang».

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23 comentários

  1. Eu quero TANTO ler este livro. E a Persistência da Memória que ainda não tive oportunidade de comprar :( mas quero muito. Acho um ultraje os livros serem tão caros -.-

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  2. oi andreia, amooooo romances e nao sei como parar esse vicio amiga 'haha <3
    andreia me visite tbm:
    gilvaniaevans.com

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  3. Nunca li nada dele. Sei que parece um erro grave, mas nunca me senti atraida. Contudo confesso que fiquei curiosa por ler, até porque detesto desconhecer a literatura dos nossos autores!

    Bjxxx

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  4. R. Espero bem que sim :)
    Na tua opinião preferes mensal ou semanal? Quero tanto ler esse livro :)

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  5. quero muito ler esse livro :D
    uma optima semana :D
    beijinhos

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  6. Entrelinhas, lindo romance,
    caminha ela com os sapatos na mão
    que o fim feliz ela encontre
    sem colocar seus pezinhos em vão!

    Uma boa tarde desejo para você Andreia,
    se possível sempre na linha, nunca fora dela
    colhe de certeza quem na terra semeia
    seja muito feliz, tenha sempre uma vida bela!

    Um beijo.
    Eduardo.

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  7. Não conheço a escrita do Daniel... mas vejo que anda a fazer sucesso =)
    por aqui anda-se a terminar um do Nicholas Sparks - o meu escritor favorito.

    Beijinhoos

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  8. E pronto, andava indecisa, e agora decidi: vou comprar! :)
    beijinhos
    (a seguir)

    http://apenultimabolachadopacote.blogspot.pt/

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  9. Até ler a tua publicação não conhecia o livro mas, devo dizer-te que fiquei com muita vontade de o ler!

    MORNING DREAMS

    Sofia Silva

    Beijos*

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  10. Gostaria de ler.
    Mas não se me será possível.

    * Olá, boa noite!
    Obrigado pela sua visita à minha poesia.

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  11. Fiquei encantada, sua resenha está muito boa e faz a gente querer comprar o livro já! Vou buscar por aqui e ver se encontro, parece ser uma bela história.

    http://www.novaperspectiva.com/

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  12. Nunca li o livro mas bastou as tuas palavras para gostar da impressão que ficaste ao lê-lo.

    R.: Ainda estás a tempo. Até podes tê-lo em miniatura. :P

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  13. r: é mesmo minha querida, há médicos cuja vocação é nula... Nem sei como podem continuar a ser médicos assim. Senti-me tão mal e frustrada porque aquela pessoa que me devia ajudar duvidava de mim e me chamou de mentirosa à frente de outras pessoas naquela clínica... E despachou-me, sem mais nem menos, disse à minha frente que não queria ter mais nada a ver comigo... Deu-me vontade de lhe bater e de ir à ordem dos médicos fazer queixa!!! Infelizmente fui ontem à óptica ver se me arranjavam a haste mas vou ter mesmo de comprar uma nova armação e, por consequente, terei de fazer umas novas lentes que sirvam na nova armação. O dobro do dinheiro porque já não fazem armações do estilo da minha e por isso as minhas lentes não servem às que terei de comprar

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  14. Se eu já estava desejosa de ler o livro, agora então estou mesmo mesmo cheia de vontade. Este homem soma e segue em tudo o que faz e tudo o que diz, é bem dito. Tão bem dito. E, aqui foi tudo tão bem dito por ti!

    Beijinhos :)
    http://princesasemtiara.blogs.sapo.pt/

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  15. Tenho de ler esse livro :)
    http://retromaggie.blogspot.pt/

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  16. Nunca o li, para ser sincera mas agora fiquei curiosa.

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  17. Dica maravilhosa que ótima postagem arrasou.
    Siga e curta o meu Canal:https://www.youtube.com/user/NekitaReis
    TSU: https://www.tsu.co – Nequeren

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  18. Tenho que ler este livro. Mais um texto maravilhoso, que para além de ser a descrição de um livro, é muito mais, fala de amor, de saudade, amores à distãncia... tal como o texto dos abraços, uma realidade muito semelhante à que vivo neste momento. Gostei muito Andreia :)

    Beijinho grande*

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