Raising Awareness


Há algo em nós que nos leva a pensar que só acontece aos outros. Que é muito cedo. Que não é justo ser tão precoce. Mas depois há um dia em que, do nada, olhamos para o espelho e percebemos que, afinal, estamos tão vulneráveis como qualquer outra pessoa. A raridade ainda não é motivo que justifique a ausência total, porque como em tudo na vida há exceções à regra. Um cancro de mama aos vinte e sete anos é uma hipótese remota, mas não deixa de ser possível. Por isso é cada vez mais importante não descurar a vigilância médica. A diferença entre lutar para vencer e ser vencido pode estar mesmo à distância de um exame. 

Pensamos que somos imortais até ao momento em que chocamos com a triste realidade de que não é bem assim. Acho que não é só aos vinte e sete. Acho que esse pensamento começa antes dessa idade. Mas não o somos. Nem nunca o seremos. A Marta, que eu não conheço, mas que se viu obrigada a lutar contra esta estúpida doença, tinha vinte e sete anos quando lhe diagnosticaram cancro da mama. Não desistiu. Não o escondeu. Enfrentou-o de frente. E ainda que o medo possa ter-se feito sentir em algumas situações não se deixou dominar por ele. É mais um exemplo que devemos seguir. Não conheço a Marta, mas admiro-a pela coragem. Por querer alertar os outros. Por querer fazer a diferença. Por partir do seu caso para ajudar tantas outras pessoas. Por criar uma medalha contra o cancro da mama em parceria com a Associação Laço. Por inspirar. E por achar que é através de pessoas como ela que podemos chegar mais longe.  

Um diagnóstico precoce é uma aliado e não um inimigo. E mesmo que não sejamos imortais, podemos ganhar anos de vida. A Inês, que eu também não conheço, mas que é amiga da Marta, percebeu isso. E por essa razão abraçou este projeto de alma e coração. Surgem as medalhas. Surge o «Raising Awareness». E espero que com eles surja também a desmistificação. E a vontade de cuidar. Para que a doença não se apodere de nós sem nos darmos conta, mas para que a possamos vencer quando ela menos está à espera: na fase inicial, quando ainda temos todas as armas a nosso favor.



«Marta Leão criou uma medalha contra o cancro da mama

Aos 27 anos, achamos que somos imortais. A experiência de um cancro de mama fez Marta perceber a importância do diagnóstico precoce. Para alertar consciências, criou um blogue e uma campanha em parceria com a Associação Laço


“Então Marta! Olha, já veio o resultado da biópsia. É mauzinho, é cancro. Mas não te preocupes que na segunda-feira tens consulta e vai ficar tudo bem”. É assim que Marta se recorda de receber a notícia, por telefone, a 30 de Janeiro de 2013, num dia de trabalho igual a tantos outros. Do outro lado da linha estava a mãe, Paula Leão, que já tinha passado por uma situação semelhante, de cancro da mama. Tentava transmitir à filha a naturalidade e a calma de alguém que conhecia aquela realidade na primeira pessoa.

Marta Leão nasceu no Porto mas trabalha como gestora de marketing em Lisboa há quase dois anos. No Verão de 2012, reparou por mero acaso num cabelo pousado sobre o peito e ao retirá-lo sentiu “uma pequena ervilha debaixo da pele”. Preocupada, mas sem nenhuma hesitação ou receio dos resultados, fez exames nos meses seguintes. Recomendaram-lhe vigilância apertada. O nódulo entretanto crescera e a biópsia que fez, meses mais tarde, confirmava as piores suspeitas.

Nas duas horas que se seguiram ao telefonema, vários foram os pensamentos e sentimentos que lhe passaram pela cabeça. Primeiro, a incredulidade: “Não, deve haver algum engano”. Depois, a revolta: “Não pode ser! Eu tenho 27 anos. Eu não fumo, eu porto-me bem. Não é possível”. Por último, uma aceitação condicional: “Há quem já tenha morrido disto aos dez anos, aos 20 anos. Não é mais injusto para mim do que foi para todas essas pessoas e as suas famílias. Se calhar a minha vida está destinada a acabar aos 27 anos… Mas aos 27 anos achamos que somos imortais”. 


“Raising Awareness”: blogue e medalha

Para sensibilizar as pessoas para a importância do diagnóstico precoce, nasceu o “Raising Awareness”, um blogue criado por Marta no dia 30 de Janeiro de 2014. Ou seja, exactamente um ano depois de conhecer o resultado da biópsia.

Sem pretensões de aconselhar ou dar “frases inspiradoras”, Marta usa o blogue para fazer um relato objectivo, de factos e situações pelas quais passou, fornecendo um sítio de consulta para quem esteja a passar pela mesma situação ou às respectivas famílias.

Mas não só. Inês Barros, arquitecta de profissão e amiga de Marta, juntou-se ao projecto para o materializar em medalhas lisas e simples, “que deixam correr o essencial, a mensagem”. As medalhas — disponíveis a partir desta terça-feira— e servem para retirar o blogue da exclusividade no espaço online. “Eu também tenho 27 anos, pessoalmente foi um alerta muito grande. Não estava a contar que ela passasse por isto, muito menos com esta idade”, afirma Inês.

A medalha, pousada sobre o peito, é então um pretexto para falar no assunto: “gera um passar de palavra, é uma forma de sensibilização. As pessoas que reparam na medalhinha levam-me a explicar porque é que a tenho”, diz Inês. Foi também o pretexto encontrado para ajudar financeiramente a Associação Laço, que se dedica ao apoio das famílias e doentes afectados pelo cancro da mama.


Objectivo: alertar, e não criar pânico 

É relativamente raro um caso de cancro da mama numa idade tão prematura, até porque os riscos aumentam linearmente, consoante a idade, potenciados pelo envelhecimento dos tecidos. Segundo os dados do Portal de Oncologia Português, a probabilidade de ter cancro da mama aos 20 anos é de uma em 19 mil. Na casa dos 30 a probabilidade passa para uma em 2525, e assim progressivamente, até se chegar à faixa etária dos 60, em que a probabilidade chega aos 12%, ou seja, uma em cada oito mulheres que poderá vir a desenvolver a doença.

As hipóteses remotas numa idade menor não devem no entanto levar a que se descure a vigilância médica constante: “Ainda é muito raro ter cancro da mama aos 27 anos, mas pode acontecer. A maior parte das pessoas desconhece muito o assunto, ou que é possível aparecer nesta idade. Toda a gente está muito atenta e faz exames, mas só a partir dos 40 anos”. Foi precisamente essa atenção e a regularidade dos exames que evitou o agravamento da doença com um prognóstico mais negativo.

Uma detecção precoce pode mesmo ser decisiva e é essa a mensagem do blogue. “As pessoas diziam-me que devia contar a minha história, especialmente por ter sido um caso de sucesso”. Após o diagnóstico, Marta recorreu a uma mastectomia do lado esquerdo com reconstrução. “Correu lindamente. Dois dias depois da cirurgia estava em casa. Uma semana depois estava a trabalhar”. O prognóstico indicava um cancro com uma forte componente hormonal, que por isso poderia ser tratado sem recurso a quimioterapia ou radioterapia. Marta encontrou alguma sorte no meio do azar.

O blogue surge como forma de alerta: “Não queria criar o pânico. Desde que tive cancro que fiz questão de não o esconder, pelo contrário, de contar às pessoas.” A inquietação que causou levou a uma mudança de mentalidades e hábitos de algumas pessoas, acredita Marta: “Havia imensa gente da minha idade, até mais velhas do que eu, que me diziam que nunca tinham feito nenhum exame”.


“Não acontece só aos velhos”

A 300 quilómetros de distância de Lisboa, os pais tinham uma percepção dicotómica da situação pela qual a filha passava. Paula, de 55 anos, nunca pôs em causa o agravamento da doença e apoiou incondicionalmente a decisão de fazer uma mastectomia preventiva, de forma a “viver mais em paz”. O pai, Rui Leão, de 58 anos, acompanhou a evolução com bastante mais negativismo: “Foi um céu que caiu de repente. Com a experiência que já tínhamos da minha mulher, não foi como se nada tivesse acontecido. Ficam sempre algumas marcas, mesmo que pareça que está tudo bem. Mas espantou-me a disposição com que a Marta reagiu, toda a gente falava da atitude positiva dela”.

À semelhança da mãe — submetida a uma mastectomia bilateral (cirurgia que retira as duas mamas) em 2007 —, Marta procurou sobretudo uma forma de mudar mentalidades. “Há muita gente que não faz os rastreios com medo dos resultados, mas mais tarde, isso pode ter um preço”, avisa Paula. O pai completa o alerta deixado às camadas mais jovens: “Espero que esta gente nova veja o exemplo da Marta e que não faça como as pessoas da nossa idade, que não vão ao médico, não se cuidam e deitam os problemas para trás das costas. Como se vê, não acontece só aos mais velhos.”

Actualmente, Marta tem as mesmas probabilidades de um ressurgimento do cancro que uma pessoa dita “normal”. Para uma prevenção e controlo mais apertados, apenas faz um tratamento hormonal que se prolonga pelos próximos cinco anos.

“Infelizmente, o cancro é uma doença que está a matar muita gente. Muita gente já morreu disto, muita gente vai morrer disto.” O Raising Awareness surgiu por isso “como um alerta, para irmos vigiando e tomando as atitudes correctas. Mas não digo vivermos no medo, nem eu vivo no medo”». (notícia aqui)

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32 comentários

  1. Infelizmente conheço bem essa realidade, por já a ter vivido de perto e por ter estagiado no IPO do Porto. É realmente uma doença estúpida, que nos assusta e que nos faz perder pessoas. Adorei a iniciativa da Marta, é uma ideia mesmo bonita que de certeza vai salvar pessoas. Ainda bem que existem casos de sucesso para nos fazer manter a esperança :)
    beijinho grande ♥

    http://naervilhadapolly.blogspot.pt/

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  2. Teve ter sido horrível passar por isso. A minha mãe foi diagnosticado um tumor cerebral quando eu tinha 18 anos e ela morreu um ano e meio depois. Estagiar no IPO depois disto, foi uma dor terrível. Mas puder ver que algumas pessoas conseguiam ultrapassar esta doença, é mesmo gratificante. Assusta não saber se temos ou não..mas assusta mais ter uma sentença de morte por sermos descuidados. Adorei este post Andreia :)
    beijinho grande ♥

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  3. É uma doença terrível e parece que cada vez mais gente a tem, é de facto muito injusto

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  4. Infelizmente é uma doença que afecta muitas pessoas. Neste mundo existem muitos, muitas pessoas que todos os dias lutam por mais um dia, que todos os dias lutam por uma vida... Fui uma dessas pessoas que sofreu de uma leucemia, hoje depois de muita luta estou aqui, para enfrentar mais desafios que a vida me possa por à prova. É triste quando olhamos ao lado e vemos que existem pessoa que não conseguem superar a doença, que a doença se apodera delas, é triste... por outro lado é muito reconfortante ouvir, ler ou apenas saber, sem sequer conhecer as pessoas que passaram por esta dura realidade e que a passaram por cima, que estão cá para contar toda a sua história. Um beijinho

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  5. É uma doença horrível e o facto de cada vez mais morrer mais pessoas desta doença me assusta

    Womens's Stuff

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  6. que excelente iniciativa, acho que acaba por funcionar muito bem (para além de ter um propósito nobre).. :)

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  7. É uma mulher com muita força....sinceramente eu nao conseguia reagir assim :S

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  8. Fazes sempre textos maravilhosos...fico sempre espantada a cada vez que cá venho, nem há palavras para descrever o quanto adoro **
    R: E eu não sei como gostas disso querida, acho que não pode existir pior coisa para nos tirar a paciência :x
    Ele é simplesmente um orgulho de cantor português :'D

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  9. Não é uma situação nada fácil e, infelizmente é cada vez mais comum. É preciso ter uma força enorme para passar por uma situação destas. Especialmente o cancro da mama, tendo em conta de que se trata da imagem da mulher. São grandes, as mulheres que conseguem ultrapassar isto.

    (Gosto muito da tua escrita)

    http://morningdreamsfree.blogspot.pt/

    Sofia Silva

    Beijos*

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  10. Esta doença choca-me, completamente! A minha mãe perdeu a mãe dela por isso.. e foi ai que ela teve que crescer e cuidar dos irmãos que tinha. Por curiosidade, passei a descobrir a história toda da doença da minha avó na semana passada, porque odeio falar destas coisas..
    E adorei o que escreves-te, bem como os excertos que partilhas-te ai :) adoro a ideia da medalha, da Marta.

    r: fico à espera que chegue a sábado, ahah
    Pois, eu estou como tu. Agora vejo o vale tudo, e faço questão de depois ir às gravações automáticas ver o que cantaram no "A tua cara não me é estranha", kids. meto-me a passar a gravação pra frente só para ver eles a cantar :) ahah

    Obrigada querida!
    Ai que giro *.* a sério?! os teus pais fazem em que mês? :p

    beijinho queridaa ♥♥

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  11. Ai que giroo, essa frase é tão lindaa :)
    já se sabe isso como é.. vamos conhecendo as pessoas aos poucos e conhecemos mais quando elas vão definitivamente embora. Isto não foi coisas da escola, nem assim. Foi mesmo um amigo que veio do "além" e que já era tudo mesmo! Era o namorado de uma amiga minha. E a história é muito grande e eu não tenho paciência para falar disso, porque já me cansei completamente de me preocupar com isso. O pior é que agora, essa pessoa continua a fazer parte do meu dia a dia, é amigo dos meus verdadeiros amigos, vive aqui perto, anda no gj e fico louca com isto. Porque odeio estar num sítio com pessoas que me ignoram! Que Deus me continue a dar paciência e vontade para gostar das coisas que ainda gosto de fazer, mesmo com essa pessoa por perto!

    (Bem, parece-me que fizemos as duas um testamento, ahah)

    ai que mau :( uma das minhas tias também faleceu recentemente por causa de cancro :\ mas pronto.. era "melhor" assim :x
    Eu meti logo like na página do facebook, através do teu poste e gostei das coisas que vii :D

    pois não :)
    ahah, eu faço nos tempos livres.. vi ontem por acaso a tua cara não me é estranha, só a parte deles cantarem, claro :p

    está quase, jáá :) o tempo passa a correr, ahah

    beijinho grandee ♥

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  12. Este comentário foi removido pelo autor.

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  13. Uma amiga minha perdeu a mãe por este cancro. Cada vez mais é uma doença comum "cancro" lutam por cada dia como se fossem viver o um único, conheço a história de um menino com cerca de 10 ou 11 não me recordo bem que lutou cerca de três anos por um cancro e ao fim de alguns meses depois morreu, o meu avó também morreu de um cancro na cabeça e não lhe foi possível operar também devido a sua idade e já ao estado em que estava. A vista por vezes é um pouco injusta.
    É uma excelente iniciativa a da marta vou lá passar.
    beijinhos e desculpa o texto comprido

    http://retromaggie.blogspot.pt/

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  14. Um relato muito muito interessante e preventivo, eu gostava imenso que a tecnologia e a ciencia avançassem o suficiente para reduzir a zero o numero de mortes por esta e outras doenças, mas acho que até lá é continuar com pensamento positivo e muita atençao. Parabens pelo post!*


    Le Trendy Charm BLOG
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  15. e verdade, pensamos sempre que so acontece aos outros ate acontecer a nos por isso e que nao penso nada disso, penso sempre no pior posso ser pessimista mas antes quero estar preparada para o pior e falar abertamente :)
    beijinhos

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  16. Infelizmente conheço essa doença, axo que quase todos nos conhecemos com tristeza esta realidade, são guerreiros os que a teem, mas tambem sao guerreiros as pessoas que estao proximas e veem a doença a crescer e tudo o que ela tras de mau. <3 quanto mais pensamos que é aos outros que acontece e desprotegidos estamos, maior é o choque quando ela bate a porta, porque nunca estamos preparados.

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  17. As vezes nem eu sei como tive força, para ultrapassar e viver tudo isto.
    Acho que fizeste uma melhor escolha :p
    beijinho grande ♥

    http://naervilhadapolly.blogspot.pt/

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  18. fico arrepiada quando ouço falar em cancro e nessas doenças :o lembro-me de uns casos que tenho mesmo à minha volta . aiê , é tão triste :c
    r : eu adorei a mudança do blog :)

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  19. É mesmo verdade.. Achamos que são realidades muito distantes.. Até termos um caso próximo..

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  20. Que post incrível Andreia :)
    É verdade, temos a tendência de nos desviarmos da realidade, e a pensar que só acontece aos outros. Eu, como estudante de enfermagem, vejo diariamente pessoas a descuidarem-se no que toca a exames da mama e do colo do útero... e depois, um dia mais tarde, arrependem-se.

    Adoro os teus comentários! São sempre bons de ler :)) Obrigada **

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  21. Es muy importante prevenir, yo todos los años me hago un estudio.
    Besos, desde España, Marcela♥

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  22. Deve ser um sentimento de impotência enorme quando se recebe uma notícia dessas.
    Eu por acaso às vezes também adio idas ao médico mas sei que não devia ser assim.
    E sim, é tranquilizante pensar que somos invulneráveis, é pena não ser verdade.

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  23. para ser sincera não faço exames regularmente mesmo c exemplos de cancro na minha família ((não, da mama)

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  24. São iniciativas destas que nos fazem acordar para a vida. Não acontece só aos outros... Excelente partilha :)

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  25. Fico paralisada diante desse assunto, mas iniciativas como essa são incríveis!!!

    Bjos

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  26. Andreia, obrigada pelo post e obrigada às restantes pelos comentários. Estou óptima, mesmo mesmo muito bem :)

    Não descurem os exames, não ignorem os sinais. Acima de tudo, não tenham medo!

    Marta Leão

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  27. Não conhecia esta iniciativa da medalha, mas é algo de especial. Ainda bem que existem pessoas capazes de pensar e realizar estas iniciativas!
    Beijinho*

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