Rui Pedro: Dezasseis anos de dor!


«Lembra-se dos últimos anos com o seu filho? As noites de Natal. As festas de aniversário. As passagens de ano. As férias de verão. Os inícios de aulas. Os invernos e verões. Foram dias cheios de acontecimentos. Foram anos de novidades, surpresas, gargalhadas e travessuras. Lembra-se dos últimos anos com o seu filho?

- Eu não! O Pedro hoje faz... vinte e sete anos. Não o vejo desde os onze. Nunca o vou desistir de o procurar. 

Se tiver alguma informação que possa ajudar a encontrar o Rui Pedro, por favor diga-nos! Nunca é tarde para ajudar. Foi o filho da Filomena, mas podia ter sido o seu. Há ainda em Portugal mais de sessenta crianças e menores desaparecidos. São traficadas para exploração sexual todos os anos mais de três milhões de crianças. O tráfico verifica-se em todos os países do mundo e está a aumentar»


Dezasseis anos. Não dezasseis dias. Nem dezasseis semanas ou meses. São dezasseis anos de sofrimento. Angustia. Dor. Ausência. Uma força incalculável, que acredito ter escapado algumas vezes debaixo dos pés com a mesma facilidade com que se estalam os dedos. Esperança, porque confio que ser mãe é nunca deixar de acreditar naquela luz ao fundo do túnel. E coragem, precisamente por ter fé nessa luz mesmo quando toda a gente parece ter desistido de a procurar. Mãe é sinónimo de luta constante. E esta senhora é uma verdadeira Guerreira. 

Não tenho filhos. E o que tenho de mais próximo para me sentir um bocadinho mãe é saber que tenho um afilhado de seis anos que me é tudo. Conjeturar a minha vida sem as suas travessuras, o seu sorriso, a sua gargalhada, os seus abraços é cruel. Imaginar-me privada de o ver crescer é igualmente assustador. Mesmo que não passe de uma hipótese. A realidade que se cria automaticamente tem o efeito de um murro no estômago, um choque em cadeia, tamanha é a brutalidade e o peso da solidão que invade cada recanto do nosso corpo. Não tenho filhos. Mas não preciso de os ter para compreender que em mil novecentos e noventa e oito esta mãe sentiu o mundo ruir numa mágoa que ninguém será capaz de compensar.

Seis anos. Era a idade que eu tinha quando todo este drama começou. Não me lembro do seu início, das histórias que saíram nessa altura, dos rostos marcados, ao mesmo tempo, pelo desalento e pela esperança de não passar apenas de um susto. Fui crescendo. Assim como cresceu o Rui Pedro. Assim como cresceu a dor desta família por ver o tempo avançar a trezentos quilómetros por hora sem obter qualquer resposta positiva. Passaram dezasseis anos e muita coisa aconteceu entretanto. Mas o rosto daquela mãe, por mais notícias que se sobreponham, ficará para sempre gravado na minha memória. 

Filomena, quase que me atrevo a tratá-la por tu por tantas vezes a ter visto na minha caixa mágica, em diferentes canais, em vários horários, durante todos estes anos. Lembro-me de a achar uma mulher lindíssima, apesar de toda a tragédia que pairava à sua volta. Ainda lhe consigo reconhecer essa beleza. Mas o seu rosto é marcado pelos traços cruéis de uma luta que parece não ter fim. O seu olhar é determinado e carregado de amor por um filho que não pode ver crescer. E ainda que o tempo lhe tenha envelhecido as expressões, ainda que os anos lhe tenham absorvido as palavras e a força, ainda que lhe tenham retirado a oportunidade de criar novas recordações, continua a ser mãe. E isso é um compromisso que nem dezasseis anos de um vazio insuportável conseguem apagar. 

Admiro-a! Muito. Pela resistência. Por se ter mantido de pé quando todo este drama ganhou proporções ainda maiores. Por nunca ter desistido. E por ser a imagem de tantas mães que, todos os dias, procuram desesperadamente os filhos que desapareceram sem saberem como. Este sofrimento é desumano, nota-se pela voz trémula e pelo olhar amargurado que ainda hoje carrega. Não sou mãe. E não preciso de o ser para perceber que o que aconteceu a estes pais foi um golpe cruel do destino. É impossível ficar indiferente ao sofrimento. Aos dados estatísticos. À revolta do silêncio que não deixa encontrar pistas que permitam fechar este caso numa caixa e deitar a chave ao mar, para que nunca mais se repita. Permitindo que esta família tenha um pouco de paz. Aquela que lhes foi roubada quando lhes roubaram um filho. 

Um dia ensinaram-me que os Guerreiros nunca baixam os braços nem pousam as armas. Lutam mesmo quando as forças desvanecem. Esta Mulher de «eme» grande é uma mãe Guerreira, uma mãe Coragem, que merece um dia voltar a sorrir.  

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23 comentários

  1. Que horror, essa mulher é incansável.. nem consigo imaginar a dor que transporta todos os dias com ela..

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  2. Mesmo. Nem sei como é que ela ainda tem forças para lutar!!
    Deves ler!! A história tem a sua beleza, mas é dificil de entender.. (pelo menos para mim foi, é um estilo de vida que eu nem sabia que ainda podia existir..). Também estou ansiosa por começar a ler esse ultimo :P beijinho

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  3. Coisas destas não se fazem a ninguém, meu Deus!

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  4. Esse vídeo arrepiou-me, da cabeça aos pés.
    Ela é uma força da natureza! Não desistiu. Após 16 anos, continua a lutar. Continua a traçar o seu caminho com o objetivo de encontrar o filho, ou de pelo menos saber o que se passou. É uma guerreira! E como disseste, uma Mulher, com "éme" grande.

    Escreves tão bem :) adoro ler-te.

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  5. Até fiquei com pele de galinha :|
    Realmente ouvir falar disto é assustador e então da maneira como a mãe fala, até dá medo! Nem imagino o que ela consegue sentir...

    quanto às praxes.. tenho a mesma opinião que tu, partilho da experiência de vários amigos meus que integraram-se graças a isso e aquelas críticas negativas já irritam!!

    Pois, percebo perfeitamente isso! eu gosto é de usar os casacos de malha da zara e da c&a (aqueles simples fininhos que ficam bem com tudo), mas graças a usar sempre os da minha mãe, ela comprou-me alguns de cores básicas e que usava mais xD mas ela na mesma tem de todas as cores e eu gosto de usar os dela :c

    Bahh! odeio que desarrumem o que eu arrumei/limpei, completamenteee!

    O pior da Érica é mesmo esse, dar a intender que quer confusões :x

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  6. r: muito obrigada minha querida *-*

    Beijinhooooooo grandee ♥ **

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  7. É uma verdadeira história de amor, mas tão triste, acho que nos tocou no coração de todos, Portugal inteiro admira esta mulher pela sua história, mas é tão dificil!

    Obrigada Andreia, adoro os teu comentários!
    Santi

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  8. Há amores que nunca se esquecem e que no fundo, nunca deixam de ser amores. Já não há o querer, há apenas um carinho especial guardado num cantinho do coração. E talvez, o amor também se faça dessas recordações, desses amores falhados que não o deixam de ser, apenas não tinham sentiod para continuar. O amor é bom, e o que fica também, mesmo com as suas desilusões. Eu acho que não há amor sem uma pontinha de dor... e é isso que o torna único, de cada vez que o sentimos. Não há 1 amor igual, mas pode haver mais do que um amor

    és uma querida!

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  9. Eu já morro quando alguém próximo morre, então imagina esta mãe.. perder um filho, que nem sabe o que aconteceu :|

    Mas o que anda por ai em relação à "imagem negra" das praxes já é exagero :| têm que ver que que muitas pessoas que ainda estão nas universidades longe de casa é graças às praxes e às pessoas que conheceram ai. Agora generalizar é terrível!!!

    Simm, é.. normalmente toda gente tem :p ahah por acaso só tinha um cinzento com flores rosa, um cor de salmão, um todo cinzento e um rosa bebé. e como tinha casacos de todas as cores não achei necessário apostar em mais casacos desses xD mas depois a mnha mãe comprou-me um preto e um branco que é o que dá com tudo :) e uso os da minha mãe.. ela gosta de todos os que vê (novos da zara), mas ela tem todas as cores e eu digo-lhe várias vezes que não tem necessidade de comprar --' mas há dias compramos na C&A a 9€ e na zara são quase 13€ :c e depois ainda tivemos a sorte de que pagavamos 14€ por 2 na C&A e ela comprou um bege e um vermelho quase como se fosse cor de burro a fugir xD porque nem é bem vermelho, nem sei explicar :o mas os da C&A poem-me estranha, prefiro os da Zara que só ficam grandes de comprimento :3

    Ahhh pois éé :c isso hoje aconteceu aqui em casa.. os meus primos decidiram comer torradas no sofa, deu-me uma coisinha má -.- mas depois passou xD
    Pois é, nisso concordo! até pq o Ivo hoje disse-lhe que ela estava a se dar mal lá por isso :x

    Óhh, tenho simm *.*
    Beijinhooo ♥♥

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  10. Até doí, só de pensar se isso acontece com alguém que eu gosto :\

    Sinceramente acho que depois disto, pro ano há pais que não vão querer que certos filhos participem em praxes e por outro lado acho que as praxes que eram mais "exigentes" e "abusadas" puderam não ser tanto..

    Olha que giro, eu não "tenho" lojas dessas.. digamos que sou fiel à Zara, de resto uso de tudo um pouco :)
    Pois éé.. e eu quando compro uma coisa uso sempre a toda hora xD se for da minha mãe limito-me a usar só de vez em quando.. até porque aqui na minha zona tenho que andar SEMPRE de casacos quentes no inverno e no verão casacos fininhos (mas mal ando por cá), quando saio daqui é pra andar com o casaco dbaixo do braço, portanto é só pra "agasalhar" quando saio de casa e quando chego aqui perto de casa :p
    mas realmente é menos numa coisa que gasto dinheiro, sim :3

    ahah, eu pra despachar passo a vassoura, mas no sofa é terrível, porque ao sacudir vai pra todo lado --'
    mesmoo! a sorte dela é que já está na final :p que ganheeeeeee! e que o Tierry perca, não gosto nada dele -.- é o pior deles todos, e metem-lhe alii pleaseeeeeee ._.

    aii sim simm :p
    ♥♥♥♥♥♥♥♥♥♥♥

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  11. Olha que uso mesmo bastante a roupa nova xD ahah
    mas agora com o frio uso tudo e mais alguma quentinho! e aproveito para usar a roupa que sei que noutras alturas não uso.. por exemplo, tu acreditas que eu uso um casaco quente por ano no máximo 10x?! é verdade.. mas este ano o tempo tem estado muito pior e uso muito mais roupa quente! nao sei mesmo o que é o frio daí xp e tava habituada a ir pra cidade quente (onde estudava).. mas agora não, ando mais por cá e ando sempre encapotada xp
    tenho abusado das camisolas de malha desta vez até!
    Simm, um casaco desses com uma t-shirt por exemplo é o suficiente :)

    Ai não sei porquê mas acho que ela não merece ganhar ._. mas até gosto dela :)

    aii, aii :cc! Simmm :p ♥♥

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  12. Tenho imensa pena dessa mãe porque vê-se o enorme sofrimento dela. É muito difícil ultrapassar uma situação destas, como ainda não se descubriu quase nada e já passaram tantos anos?

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  13. Que linda :) adoro as tuas respostas aos meus comentários! Adoro!!

    *

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  14. Já tinha visto o video. A determinação desta mãe é incrivel

    Sónia
    Taras e Manias

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  15. muito emocionante.. uma mãe nunca esquece nem desiste!

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  16. Não há sequer palavras que possam descrever esta dor :S

    Sem Jeito Nenhum Blog

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  17. e horrivel isto como e que passa tanto tempo e a sra nao tem qualquer dado sobre o filho :(
    beijinhos

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  18. Olá :)
    Obrigada pela visita no meu blog :)

    Em resposta, sim é verdade. Falar com pessoas desconhecidas às vezes é mais fácil, pois acabam sendo mais objetivas em relação a que conselhos nos dar.

    Em relação a este post, até me arrepiou muito sinceramente.
    Já vi o anúncio, no próprio dia do aniversário do Rui Pedro (quando foi lançado), no telejornal. E sempre que vejo aquela mãe, o quão desgastada de tal o sofrimento, aperta o meu coração.
    Nenhuma mãe deveria passar pelo que ela passa todos os dias.

    Seria tão mais fácil, que houvesse um corpo, uma prova de que ele já não existe cá fisicamente. Era uma capitulo fechado. Ela teria Paz. Mas não se sabe de nada! Nada! É terrível!

    Não sou mãe, por isso apenas posso imaginar (o imaginável), de perder um filho, seja em que circunstâncias for.

    Beijinhos ****

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  19. É incrível a luta dela, apesar de já ter passado tanto tempo, não perde a esperança de um dia o encontrar.
    Deve ser tão complicado para uma mãe passar isso, sem saber se quer saber do seu paradeiro, se está grande/ alto entre os outros adjectivos.

    Beijinhos

    http://retromaggie.blogspot.pt/

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  20. Esta história é verdadeiramente arrepiante. Ninguém pode saber a dor que uma pessoa sente ao não saber do seu filho durante um segundo, quanto mais 16 anos. Quem diz que ela se devia conformar, e tenho ouvido muita gente a dizer isso!, não tem noção do que é uma dor assim. Não pode ter. Não há conformação possível!
    Esta mulher tem uma força incrível. E ainda bem. Nunca baixará os braços enquanto não souber do seu filho. Ela é uma guerreira. Não desiste!

    (Quero muito responder ao teu texto sobre a praxe, mas acho que vou fazer um post no meu blogue, como género de resposta a tudo aquilo que tenho lido e ouvido, quando votlar de Barcelona!)

    Um beijinho para ti * Já agora, há uns tempo que quero dizer isto: escreves muito bem! Parabéns!

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  21. Ah! Mudei o design do blogue, por isso, não estranhes quando lá entrares :p Mudei o URL e o nome também. :)

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  22. Uma grande mãe, uma mãe que nunca baixou os braços, lutando sempre para encontrar o seu filho, nunca perdeu a esperança de abraçar o seu filho. Só uma amor forte como este, faria o que faz hoje esta mãe. Amor move montanhas. Beijinho Andreia

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