«Desde a chama acesa em Viena...»


A época de 1986/87 já vai bem distante. Mas há momentos que nunca se esquecem. E esta época que já passou não deixa de ter algo em comum com esta que agora se inicia: Viena. E quem sente como eu este clube da Invicta sabe o significado que isto tem. 

Em 87 ainda estava longe de saber e sentir o que é ser Porto. E estava igualmente distante de viver de perto a alegria que foi conquistar o mundo naquela altura. Em 87 ainda nem sequer estava em projeto para nascer, por isso não vivi as emoções daquela glória nem a ansiedade, muito menos festejei com milhares a história que escrevemos naquele estádio. Só que o legado passa de geração em geração, como se nos viesse nos genes. É por essa razão que assim que nasci e compreendi - ou melhor, senti - o que era ser portista, me pude dar ao luxo de ter um carinho especial por aquele momento, como se lá tivesse estado. Ou apenas o tivesse visto na televisão e me tivesse deixado absorver por toda aquela euforia.  

Nasci em 92, portanto não sou do tempo em que conquistamos a Liga dos Campeões em Viena «por um calcanhar vagabundo», mas esse momento será sempre de extrema importância para mim e para todos os portistas, principalmente para os que o viveram, mas também para nós que aprendemos a ouvir falar dele com tanto amor. E de recordação em recordação, era praticamente como se em 87 já soubéssemos ser Porto. 

Viena será sempre um palco de sonho. Para mim sê-lo-à por relembrar essas memórias. Mas anos mais tarde, já na época de 2003/2004 voltamos a repetir a história. Não em Viena, mas em Gelsenkirchen. Não estive lá, mas já pude viver aquilo que tantas vezes ouvi falar. A 26 de Maio de 2004 senti na pele os nervos, a adrenalina, o sonho, as lágrimas de felicidade, o grito de glória que se forma no peito. Em 2004 foi a minha vez, e a de tantas outras pessoas, de sentir o que é ver o nosso clube a conquistar o mundo, novamente. E digo-vos que é de cortar a respiração. Mas no bom sentido. Porque vê-los levantar aquele troféu é das melhores sensações que um adepto pode ter. 

Não gosto de viver do passado, mas a verdade é que as memórias bonitas que eu tenho desses tempos ainda me saltam do coração. E eu gosto de as sentir diante dos meus olhos, sobretudo quando há a possibilidade de as repetirmos. É claro que nunca será da mesma forma, mas há uma linha que as une. Por isso é que todos os anos, assim que começa a Liga dos Campeões, recordo 2004 e 1987, ainda que esta última data seja mais distante e menos vivida por mim, por força de ainda não ser nascida. Contudo, faz parte da minha história enquanto adepta deste clube a azul e branco. É como vos digo, nasce connosco, vem-nos nos genes e assim que nascemos faz parte da nossa identidade. 

Lembro-me de assistir à primeira parte do jogo contra o Mónaco, em 2004, e não conseguir controlar os nervos e o meu coração acelerado, que mais parecia uma bomba prestes a explodir. E por não ser capaz de gerir essa ansiedade, sobretudo depois de nos encontrarmos a ganhar por uma bola a zero, decidi que tínhamos que ir fazer a nossa caminhada. Quando o tempo está bom, eu e os meus pais costumamos fazer uma caminhada depois do jantar. Só que em dia de jogo, ainda por cima transmitido em canal aberto, era impensável fazer tal coisa. Mas a verdade é que fiz. Fiz porque não sabia mesmo como conseguiria sobreviver àquele jogo de nervos sem, a qualquer momento, me esquecer de respirar e cair da cadeira ou, então, fazer um buraco no chão por não parar quieta. Naquele momento percebi o que tantas pessoas sentiram em 87, e que muitas delas o estariam a viver novamente. E apesar de todos aqueles nervos incontroláveis, aquela carga emocional só podia ser boa, afinal de contas o nosso clube estava novamente a disputar uma final da Liga dos Campeões. 

Fui para a rua, mas o coração ficou em casa em frente à televisão. A diferença é que não sabia o resultado. Por força disso apurei o ouvido, é que qualquer ruído era motivo para ficar alerta. O primeiro sinal de mudança foi quando nos pareceu ouvir festejos numa casa amarela. Nada de conclusivo porque não foram festejos ruidosos, por isso duvidamos da veracidade daquele momento. Por vezes o desejo tolda-nos os sentidos, por isso respirei fundo, fazendo figas para que não me tivessem enganado desta vez, e esperei até ter a certeza. Quando regressávamos a casa, fazendo o trajeto inverso, senti o coração e o corpo a parar assim que passamos em frente a um prédio amarelo, situado ao lado do Life Club. Não vi as pessoas a saltar da cadeira nem do sofá, nem da cama, e também não vi os sorrisos, os braços no ar e os abraços, mas ouvi o prédio inteiro a gritar golo, como se estivessem todos juntos. Naquele exato momento senti a descarga emocional que reprimi em forma de cautela e proteção a percorrer-me o corpo todo. E sem qualquer embaraço, gritei com todas aquelas pessoas, ainda que não lhes visse a cara. E ali estava eu no meio da rua a gritar um golo do meu clube de coração, aos saltos, aos abraços com o meu pai e extremamente orgulhosa. A partir daí foi como se tudo se catapultasse: os carros em constantes buzinadelas, a contagem decrescente para terminar o jogo e começar a festa. Naquele momento já só pensava em correr dali para fora para chegar a casa depressa e ver com os meus próprios olhos que aquilo não era um sonho. Não corri! E pelo caminho ainda paramos para perguntar a um taxista o verdadeiro resultado. 3-0! Afinal a nossa audição não nos tinha enganado.

Não vivo do passado, mas recordarei aquele momento sempre que a ocasião proporcionar. Ainda que me faltem as palavras certas para o descrever, sei que serei capaz de reviver com exatidão cada pormenor, como se fossem partes de um filme prestes a começar. Ali estava eu de regresso a casa, ainda atordoada com toda aquela emoção. E assim que ligo a televisão lá estavam eles, os campeões do mundo, num abraço que eu senti a muitos quilómetros de distância, como se também eu estivesse lá no meio. E depois veio o momento de erguer a taça e as lágrimas de felicidade rolaram pelo rosto em direção ao chão.

Quando o coração acalmou, tudo pareceu efémero, demasiado rápido para a intensidade daquele dia. Não me lembro se consegui dormir ou se a excitação era de tal ordem que me mantive acordada só para acompanhar cada momento da festa. Ao fim de todos estes anos, compreendi que aquele dia não foi, de todo, efémero, que de uma maneira ou de outra o vivemos muitas vezes, e que continua a ter a mesma importância e significado que tinha naquela altura. Apenas fomos conseguindo novas conquistas e novos feitos para recordar. 

Nove anos depois começamos mais uma fase de grupos da Liga dos Campeões. E adivinhem? Regressamos a Viena. Parece que o tempo recuou a 87, onde o sonho nos levou longe, onde deixámos o mundo de olhos postos no nosso talento. E como diz a música «a alma deixou de ser pequena, pequeno foi o palco do mundo». A grande diferença é que em 87, Viena foi o palco da final e desta vez é o palco do nosso primeiro jogo. Não sei se será algum presságio ou uma mera coincidência, mas seja como for é bom lá voltar. E quem sabe se a mística daquele lugar não nos inspira a repetir a história uma terceira vez. 

Ainda é cedo para falar na final, que será no Estádio da Luz, por isso concentremo-nos na importância que foi ganhar o primeiro jogo. É sempre crucial começar bem, não só porque conquistamos três pontos, mas também porque reforçamos o ânimo e a ambição. E ainda que a primeira parte não tenha sido um espelho da vossa qualidade, as adversidades permitem-nos crescer, assentar ideias e lutar com mais afinco. Talento não vos falta. Assim como não vos falta a capacidade de superação, a vontade, a garra e a raça dos verdadeiros Campeões. Porque vocês são isso mesmo: campeões! 

Nunca fui capaz de separar o emblema das caras que o defendem, mesmo concordando com a ideia de que «os jogadores vão, mas o clube fica», porque desde cedo percebi que há jogadores que sentem este clube como eu sinto, ainda que um dia possam vestir o equipamento de outra equipa. E quando entram em campo, acredito que vão defender as nossas cores com o mesmo orgulho e determinação com que eu as defendo. Sempre fui portista, não por imposição, mas por convicção. Sou portista porque acho que este amor nasceu comigo, porque por alguma razão aquele clube me chamou e me comoveu. E acho que não seria tão feliz se não fosse do FC Porto!         

Não sei o que o futuro nos reserva, mas de vocês só espero o melhor. Por isso desejo que se repitam os passos, os feitos e a história que escreveram em 87, os mesmos que eu vivi intensamente em 2004. Repitam-se também os nervos, a ansiedade e o coração que explode num misto de felicidade e cautela, por juntos termos aprendido a dar um passo de cada vez e a «conquistar a lua com os pés no chão». Repita-se tudo, mas com outros Guerreiros no comando. É a vossa hora! E isto é o que temos de melhor: a nossa identidade. Que não se perde, mesmo que se percam aqueles que um dia nos levaram à glória.   

A «missão é clara: é não virar a cara ao sonho e à ambição». Vamos à conquista. Com o emblema bem cravado no peito e o sonho bem protegido na palma da mão. Que comece em Viena. E que o percurso nos leve a reescrever uma das nossas histórias mais bonitas. «Este é o nosso Destino», meus Heróis de azul e branco coracao azul Emoticons Secretos do Facebook 
   

You Might Also Like

3 comentários

  1. Fico mesmo feliz por me compreenderes e por aceitares bem o texto que escrevi, obrigado! *

    xoxo, querida! *

    ResponderEliminar
  2. É importante para mim que me aceitem, por isso agradeço de coração! :) *

    xoxo, querida! *

    ResponderEliminar
  3. Obrigada por teres gostado da publicação! Queremos muito que o nosso blogue chegue às várias faixas etárias, daí o lado educativo mas também um pouco "rebelde" xD

    Beijinhos!!! :D

    ResponderEliminar