O nosso amor é como o vento #8

Fotografia da minha autoria


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A tua mãe telefona-me todos os dias. Muito provavelmente, duas mãos cheias de vezes. Sabes que nunca gostei que me apaparicassem em demasia - coisa que as nossas mães têm feito nos últimos tempos -, mas, confesso, está a fazer-me bem, porque sei que é, somente, preocupação e porque têm o cuidado de não me sufocar. E acho que é isso que me incomoda em certas demonstrações de carinho: a intenção é a melhor, mas a atenção constante e desmedida chega a afligir. E em vez de nos aconchegar, desencadeia uma ligeira sensação de irritação e de desconforto.

Tu, pelo contrário, sabias a maneira ideal para me embalar. Costumavas, inclusivamente, dizer que comigo funcionava uma espécie de toca e foge, lembras-te? Tenho tantas saudades disso. De estar absorta em pensamentos e de te ouvir, apenas, dizer «se precisares de algo, estou mesmo aqui ao lado. O que quiseres, quando necessitares, sabes onde me encontrar». Eras tão bom nisto. Conseguias levar-me sempre a falar, sem que eu sentisse que isso era uma obrigação. Plantavas a semente de um lugar seguro e eu abandonava o campo de batalha que, por vezes, existia dentro da minha alma. Só agora que paro para pensar é que percebo, realmente, o quanto me desarmavas - com facilidade e por completo. E que, uma vez mais, tudo isso era feito com o teu coração infinito, com espaço suficiente para acolher este mundo, o outro e quantos mais pudessem vir a existir.

No meio de tanta confusão, acabei por convidar a tua mãe para lanchar e para me ajudar a organizar as tuas coisas. Optei, sobretudo, por ficar com a caixa onde guardávamos todas as nossas recordações: bilhetes de festivais, de jogos de futebol, de cinema, de exposições, de viagens; cartas, papéis com mensagens, recortes e objetos que nos remetem para um lugar e um momento específico. Quis, ainda, manter todos os nossos álbuns fotográficos. E ficar com a tua coleção de globos de neve, com a tua máquina fotográfica, com a tua guitarra clássica e com a tua camisola favorita. A tua mãe ficou com algumas fotos tuas e com alguns dos quadros que pintaste - não fazia sentido irem para mais alguém. Afinal, foi ela que fez crescer em ti todo esse amor pela pintura. Já a tua coleção de cd's foi repartida pelos teus irmãos - têm todos gostos muito diferentes e tu eras a ponte entre eles. A tua pequena biblioteca foi, igualmente, dividida: levei um conjunto de livros para a faculdade, o teu pai ficou com dois ou três e os restantes foram para uma instituição. Por fim, cada um de nós ficou com uma peça de roupa e/ou um acessório teu e tudo o que sobrou foi doado.

Senti-me, ligeiramente, mais tranquila depois disto. Aliás, dei por mim a esboçar um sorriso, ainda que frágil, pois percebi que estava a partilhar um pouco de ti com aqueles que sempre te amaram e estiveram do teu lado - do nosso lado. E isso também é uma forma de te homenagear e, sobretudo, de te eternizar. Em consequência, senti que estava, finalmente, a encarar a realidade e a fazer progressos. E voltei a sentir-me com forças para enfrentar o mundo. E aquilo que, ao início, seria um momento solitário com a tua mãe, no qual ela me ajudaria a enfrentar a tua perda sem me acobardar, acabou por se transformar num jantar com toda a família. Foi a primeira vez que nos reunimos depois de teres falecido. Não deixamos de nos falar, até porque isso seria impossível, mas respeitamos o luto de cada um e demos tempo - e espaço - para que a ferida deixasse de ser tão evidente. Hoje, pareceu-me a altura indicada para nos juntarmos. E não estava errada.

Tudo começou com um telefonema: «- Há algo do Gonçalo que queiras? Estou a separar o que é para ficar e o que é para dar [...] Passa cá por casa, então, para veres isso». E acabou com um: «- Porque não ficam para jantar? Já é um pouco tarde». Para ser sincera, sinto que estávamos todos a precisar de dar este passo; de nos libertarmos de toda a tensão e dor que se apoderou de nós. E não há nada melhor do que uma reunião familiar para encerrar um capítulo negro das nossas vidas. O vazio permanecerá, mas estamos a superar todo o sofrimento implícito. E a prova disso foi o facto de te recordarmos com sorrisos e gargalhadas, tal como gostarias que o fizéssemos. Os teus irmãos contaram-me histórias hilariantes da vossa infância, que eu ainda não conhecia, e eu falei-lhes de todos os momentos que, durante muito tempo, guardamos só para nós - como quando declinamos o convite para a festa de divórcio da Sr. Ferraz, alegando que estávamos atulhados em trabalho, e fizemos uma viagem relâmpago à Madeira. Observando esta mesa, novamente, cheia, fui invadida por uma paz calorosa. E fiquei com a certeza de que estes serões passarão a ser recorrentes.

27 comentários

  1. Estou a gostar desta história e também gostei de ver o novo look da minha amiga, adivinha-se férias.
    Um abraço e continuação de boa semana.

    Andarilhar
    Dedais de Francisco e Idalisa
    O prazer dos livros

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  2. Estou a gostar tanto de acompanhar esta história, fico sempre com um gostinho de quero mais :)
    Por aqui estamos em mudanças e dei por a pensar na quantidade de coisas que já demos a caridade e o sentimento de paz também se faz sentir por aqui.
    É incrível como as vezes é nos maus momentos que encontramos estas coisas boas e o conforto que precisamos para seguir em frente.
    Bjinhosss minha querida*
    https://matildeferreira.co.uk/

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  3. Que bonito e maduro, minha querida!
    Este relato tem algo que me inspira, embora não saiba bem justificar isso. Talvez o facto de, após esse período mais complicado, a família unir-se com a companheira, de modo familiar e acolhedor!
    Beijinho, princesa*

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  4. A cada novo capítulo desta brilhante história, fico cada vez mais curiosa. Parabéns por um enredo tão emocionante e bem construído.

    De facto, durante o processo de perda, por vezes necessitamos do nosso espaço, de estar sós para fazer o luto. A atenção que as pessoas que nos rodeiam nos oferecem é um óptimo aconchego, mas por vezes necessitamos que esse aconchego se distancia um pouco.

    Beijinhos :*

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  5. Estou a gostar tanto desta história, que quero sempre mais :)

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  6. Um encontro familiar. Com café e bolo para adoçar a boca. Mudou o seu penteado mas, continua a ser a mesma pessoa. Está muito bem assim!

    Tenha um bom dia Andreia.

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  7. É um belo texto que inspira os mais variados sentimentos! Beijinhos

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  8. Ena, visual novo. xD

    Está história ainda acaba num livro... bem merece.

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  9. Esta história esta a puxar aqui por todos nós!
    Que bela fotografia super alegre
    Beijinhos

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  10. Acabei mesmo agora de ler todos os capítulos desta tua história, e estou sem palavras.
    Arrepiei-me do início até então, e identifiquei-me com tudo. Perdi a minha mãe faz este mês três meses e todos os dias são um turbilhão de emoções, confusões, dúvidas.. e entendo a aflição que pode surgir pela preocupação constante, muitas vezes tudo o que quero é ser deixada, comigo mesma.
    Estas palavras chegaram ao meu coração de uma forma que não estava á espera.
    Muitos parabéns, vou estar deste lado ansiosa por devorar mais um capítulo.
    Beijinhos

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  11. Oh quando acabar essa historia nem sei, mas dá que pensar nesse final, cada vez mais estou bastante adorar
    Beijinhos
    Novo post // CantinhoDaSofia /Facebook /Intagram
    Tem post novos todos os dias

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  12. Eu sei por experiência própria que a vida não é um mar de rosas nem é toda florzinhas e pintada de cor de rosa. Mas a sério custa-me ler esta história. Lembram-me outras que já vivi.
    xoxo

    marisasclosetblog.com

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  13. Estou mesmo a adorar esta história! :D

    amarcadamarta.blogspot.pt

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  14. Estou mesmo a adorar! Aliás tens me me inspirado para voltar a escrever também!

    Bjxxx
    Ontem é só Memória | Facebook | Instagram

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  15. Exatamente! ;)

    Adorei essa parte da história. Me fez pensar que às vezes a morte de uma pessoa querida pode fortificar a união das pessoas que amavam ela!

    Ótima quarta!

    Beijo! ^^

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  16. Escreves tão tão bem, estou a adorar acompanhar.
    Beijinhos
    http://virginiaferreira91.blogspot.com

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  17. Fantástico. estou a gostar de acompanhar:))

    Do Gil António. Amor: Oásis de frescura em secos areais

    Bjos
    Votos de uma boa noite.

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  18. A cada capitulo fico mais curiosa!
    https://retromaggie.blogspot.com

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  19. Thank you for sharing...
    https://sepatuholig.blogspot.com/
    IG @grace_njio

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  20. Sem dúvida alguma. No fundo, é onde descobrimos a maior parte das respostas :D
    Obrigado, meu anjo :D

    A cada capítulo fica mais estupefacto com a tua forma de escrita... a maturidade percebe-se a cada linha e a cada parágrafo. Continua a ser arrepiante e estou surtado por continuar a ler. :D

    NEW BRANDING POST | KORICA: I NEED HELP WITH SO MUCH MASK! :D
    InstagramFacebook Official PageMiguel Gouveia / Blog Pieces Of Me :D

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  21. Este excerto é inspirador, a união e o apoio da família são indispensáveis e necessários nestes momentos de dor, ainda que, não se perceba ou veja logo isso e embora seja preciso um certo tempo para esta reunião.
    Mais uma vez, parabéns, fico ansiosa por mais :)

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  22. R: Conhecendo um bocadinho de ti e dos teus passeios, acho que ias gostar deste Parque de Lazer :p
    Obrigada minha querida <3

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  23. Ou sou eu que leio depressa ou esses capítulos são pequenos para alimentar a minha curiosidade de saber mais. Foi um passo importante. Acho que foi bom cada um ter feito o luto à sua maneira e dar tempo e espaço para que cada um recupera-se no seu tempo. Estou cada vez mais encantada com a história! Apetece me guardá-la num potinho. Beijinhos 💛

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  24. Este capítulo aqueceu-me o coração. As tuas palavras mostram que perante uma tragédia somos mais fortes se nos unirmos. E é tão bonito!

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