Entrelinhas #56

Fotografia da minha autoria


«O luxuoso comboio está cheio. Ninguém pode sair ou entrar. A tempestade prolonga-se pela noite fora… e a manhã traz uma notícia inquietante»



Os diversos géneros literários têm encantos singulares, que podem - ou não - conquistar-nos por essa unicidade. Certamente, aquilo que nos motiva a ler um romance não se assemelha à razão pela qual optamos por poesia, por obras bibliográficas ou por outros exemplares. Porque nos move o nosso gosto, a nossa predisposição e, inclusive, a nossa necessidade. E é este caráter plural que enriquece a nossa personalidade de leitor. Apesar de procurar não me limitar ao mesmo registo por um período prolongado, há qualquer coisa de fascinante e convidativo nos policiais, aos quais quero sempre regressar. E quem melhor do que Agatha Christie para nos fazer viajar por um mundo de constante suspense e mistério?

O meu primeiro contacto com a Rainha do Crime foi através de Morte no Nilo [Entrelinhas #21]. E sinto que a estreia foi bastante positiva, mesmo considerando que alguns detalhes poderiam ter sido ocultados para evitar repetições. A autora tem uma atenção minuciosa. E a sua capacidade para trabalhar uma história é surpreendente. Por essa razão, fiquei com imensa vontade de explorar outras narrativas e perder-me nos enredos tão característicos, apaixonantes e viciantes, que têm conquistado uma grande parte do público - atravessando gerações. E é percetível a causa desta preferência e proximidade. Como não resisto a um bom thriller, facilmente, deixei-me levar pelo seu discurso fluído e cheio de camadas. Sem qualquer dúvida, farei questão de incluir mais obras da sua autoria na minha - ainda pequena - biblioteca.

Um Crime no Expresso do Oriente parece altamente improvável. E tem uma certa dose de surrealismo pelo local em si. Neste meio de transporte, a possibilidade de fuga é quase nula, principalmente, quando se sucedem acontecimentos que a reduzem drasticamente. Por outro lado, este dado aumenta - e alimenta - a nossa expectativa, bem como a nossa ansiedade, porque começamos a questionar tudo e a procurar marcas suspeitas nos mais diversos detalhes. Outro aspeto que nos intriga é a própria sobrelotação do Expresso. Como é que tantas pessoas no mesmo espaço não percebem que ocorreu um assassinato? Preciso, novamente, de destacar o quanto Agatha Christie é brilhante, prendendo-nos com estes preciosismos e plantando a dúvida à medida que avançamos na narrativa. No entanto, neste contexto [como em tantos outros], é impossível não evidenciar uma das suas personagens mais carismáticas: Hercule Poirot, um detetive astuto, com associações fabulosas, que escrutina os indícios ao limite. E é isso que o distingue. É este cuidado com os pormenores que o leva a seguir as pegadas do assassino, mesmo quando o caso aparenta não ter solução.

Há uma altura em que se fica com a sensação de que a narrativa evolui, mas as descobertas ou são inexistentes ou são inconclusivas. Porém, são introduzidas pistas comportamentais, de uma forma natural e consciente, em resultado do forte jogo psicológico de Poirot durante os interrogatórios. E é por isso que os depoimentos dos passageiros se tornam tão centrais. Esta história, no fundo, é um desafio à nossa perspicácia e ao nosso foco. Apesar de as respostas não serem evidentes, há pontos que vamos conseguindo relacionar, o que nos deixa, claramente, em sobreaviso - levando-nos, igualmente, a desconfiar de cada um dos intervenientes e dos vestígios que vão surgindo e que nos orientam para determinada direção.

Sem grande floreado linguístico, mas com uma ação sólida e personagens muitíssimo bem construídas, somos confrontados com questões morais, de justiça, valores e vingança. Quando, logo no início, ficamos a saber que, estranhamente, todas as cabines do Expresso do Oriente estão ocupadas, isso inquieta. E é o ponto de partida para compreendermos que existe sempre algo implícito; existe sempre uma linha muito ténue entre o que é contado e o que fica por dizer. Após finalizar a leitura, consegui colocar-me no lugar do assassino. Ou será que há mais do que um? A reviravolta, para mim, foi uma autêntica surpresa e desarmou-me por completo. Este livro tem uma atmosfera enigmática. E assim que o abrimos, entramos numa viagem alucinante, que nos embala em todo o seu mistério.


Deixo-vos, agora, com algumas citações:

«- Mary...
A rapariga interrompeu-o.
- Agora não. Agora não. Quando tudo tiver passado. Quando tivermos deixado isto para trás... e então...» [p:20];

«- Que sucedeu? - perguntou.
- Bem pode perguntar! Primeiro esta neve... esta paragem. E agora...
Calou-se - e o revisor emitiu um som estrangulado.
- E agora o quê?
- E agora há um passageiro que apareceu morto no beliche...» [p:55];

«Poirot ficou calado por um momento. Estava a examinar uma mancha de gordura num passaporte diplomático holandês» [p:147];

«- Está a imaginar coisas, Mademoiselle.
- Não, não estou a imaginar coisa nenhuma. Mas parece-me que se perde muito tempo por não se dizer a verdade... por se andar com rodeios em vez de se dizer logo as coisas» [p:214];

«- Não, Rudolf. Deixe-me falar. É inútil negar o que este cavalheiro diz. É melhor sentarmo-nos e discutirmos este assunto» [p:255].



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25 comentários

  1. Há uns anos atrás li praticamente toda a obra desta magnifica autora de contos policiais e a figura do Hercule Poirot é fabulosa.
    Um abraço e continuação de boa semana.

    Andarilhar
    Dedais de Francisco e Idalisa
    O prazer dos livros

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  2. Já vi o filme, AMEI mas ainda não tive oportunidade de ler o livro.

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  3. Já tinha ouvido falar mas nunca li. A estação de São Bento, não é? LINDA! Um beijinho 😊
    R.: Nada que agradecer, minha querida!

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  4. Excelente escolha :)
    E a foto está linda :) Adoro a nossa estação única :)
    Bjinhosss
    https://matildeferreira.co.uk

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  5. Li quase tudo da autora, incluindo este livro.
    Que é um dos melhores policiais dela.
    Andreia, um bom resto de semana.
    Beijo.

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  6. Não sou fã de policiais e agora, que a memória começa a falhar, ao ponto de sair da cozinha para ir buscar qualquer coisa e a meio caminho já não me lembrar o quê, se lesse um policial desses compridos e chatos, no segundo capítulo já tinha esquecido o primeiro.
    Vi o filme "Morte no Nilo", há muitos anos, mas já não me lembro de 99% do enredo. xD

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  7. Olha que não conhecia mesmo, mas acho que nunca ouvi falar, mas tenho de ver se assisto ou leio
    Beijinhos
    Novo post // CantinhoDaSofia /Facebook /Intagram
    Tem post novos todos os dias

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  8. Olá, a autora é bastante conhecida, julgo que todas as pessoas a conhecem e já leram algo escrito pela mesma, gosto da seguinte citação, "Está a imaginar coisas, Mademoiselle".
    Continuação de feliz semana,
    AG

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  9. Este comentário foi removido pelo autor.

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  10. Crime no Expresso do Oriente não conheço,
    o que eu conheço sim é a Gare do Oriente
    procurando um lugar onde haja ar fresco
    aqui neste planeta cada vez mais quente!

    Tenha uma boa tarde Andreia.

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  11. Não conhecia este livro, mas fiquei bastante curiosa. Acho que é o meu tipo de livro!!
    Adorei a fotografia que tiraste, enquadra-se tão bem eheh
    r: Muito obrigada querida, que tenhas um bom mês ♥

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  12. Eu me lembro de ler esse livro quando era bem novinha e de ter ficado muito surpreendida com o final. É impactante mesmo, né? Um beijo Andreia! :*

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  13. Já comecei a ver o filme mas não acabei. Confesso que a sinopse me deixou curiosa, tenho mesmo que resolver isso.

    Beijinho, minha querida =)

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  14. Exatamente o que penso! ;)

    Esse livro é um queridinho de todos. Mas mesmo sendo tão bem falado eu nunca parei pra ler! Preciso mudar isso urgente, mas confesso que tenho medo de começar e morrer de ansiedade por querer saber logo quem é o assassino(a)! hahaha!

    Ótima quinta!

    Beijo! ^^

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  15. Ainda não tive a oportunidade de ler mais pela resenha a história é ótima, é sempre bom bom conhecer um bom livro, bjs.

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  16. Li poucos romances da Agatha Christie, mas vi quase todos os filmes.

    Um crime no Expresso do Oriente é um dos romances policiais mais lidos em todo o mundo.
    Vi os dois filmes, cujas paisagens cobertas de neve são absolutamente fantásticas, especialmente no filme mais recente.

    Continuação de boas leituras com ou sem cadáveres.

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  17. adoro a foto. São típicas nesse lugar não é ? :)


    r: adoro mesmo o Porto, quero viver aqui.

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  18. tai um livro que sempre tive muita curiosidade em ler! ja li alguns livros da agatha na adolescência e acho que ela escreve super bem, de um jeito super envolvente que nos faz devorar suas historias

    www.tofucolorido.com.br
    www.facebook.com/blogtofucolorido

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  19. Foi dos primeiros livros que li. Gosto muito! Mas deu luta na leitura na altura... _Telma.

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  20. É um clássico! Nunca o li mas está na minha lista :)

    https://mundodablue.blogspot.com/

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  21. Vi o filme e adorei, acho o final fabuloso, é de nos deixar mesmo de queixo caído :p

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  22. Não existe melhor que ela!! E não existe melhor que tu a escrever sobre livros na blogosfera!!

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