Entrelinhas #49

Fotografia da minha autoria


«Marianne e Elinor Dashwood, com 17 e 19 anos respetivamente, são irmãs, mas não podiam ser mais diferentes. Marianne é toda ela coração, sensibilidade e romantismo; Elinor é a encarnação da razão, do bom senso e da reserva.»



Jane Austen escreveu um dos meus sete clássicos da literatura, cujo enredo, para além de inspirador, é intemporal e apaixonante: Orgulho & Preconceito. No entanto, confesso, o meu conhecimento literário acerca da autora limitava-se a essa obra. Com o intuito de reverter a situação, até porque tenho mais títulos seus que pretendo adquirir, encomendei Sensibilidade e Bom Senso, numa edição que assinala o bicentenário da sua morte. E procurei lê-lo de mente limpa, para não cair no erro de o comparar - ainda que tenha sido difícil.

A sinopse cativou-me com bastante facilidade e transportou-me para um conjunto de contrastes, que não passaram despercebidos no decurso da história. Com uma narrativa centrada em duas irmãs - Marianne e Elinor Dashwood -, rapidamente compreendemos que nos apresenta um «retrato psicológico e social da pequena burguesia do século XVIII». Para além de ter um cariz pessoal - por se inspirar na relação de Jane Austen com a irmã -, este livro preserva um registo leve e alegre, mas também de sátira em relação a certos acontecimentos e atitudes. A escrita é encantadora, algo poética, com diálogos de grande formalidade, tão próprios da época em questão. É, portanto, fundamental acompanhar esta obra sem o nosso olhar contemporâneo. Por mais complicado que seja, para melhor nos relacionarmos com o enredo, temos que fazer essa desconstrução - tarefa simplificada pela capacidade que a escritora tem em envolver-nos nas suas palavras e, sobretudo, nas ideias que pretende transmitir.

Há sempre uma noção de oposição: sensibilidade vs bom senso, dinheiro vs amor, caráter vs falta de escrúpulos. E até a própria personalidade das personagens principais se opõe à restante sociedade, constantemente voltada para os mexericos, para as posses, para os bens materiais e para a [ex]posição social. Assim, ficamos a conhecer os vícios e as falhas de um meio em que todos se lisonjeiam mais por conveniência do que por vontade, com exceção de Elinor e Marianne, que não se deixam corromper, nem compactuam com este jogo pautado por segundas intenções, onde a ambição é recorrente e o casamento é encarado como uma mera forma de obter estabilidade financeira. Simultaneamente, é interessante verificar a dicotomia entre as suas duas formas de estar na vida - uma mais sensata e outra mais emotiva. O que nos faz questionar se é mais desejável ser-se sensível ou manter sempre o bom senso; se devemos transparecer as nossas emoções com inegável dramatismo, urgência e violência ou se é preferível calar o coração, guardar aquilo que nos atormenta e dar espaço para que seja a razão a conduzir o nosso comportamento.

Como vamos descobrir na maioria das ocasiões, ainda que nos possamos identificar mais com uma das posturas, nada é linear. Independentemente de sermos mais ponderados ou mais impulsivos, há amores e desamores com os quais teremos de lidar; há sofrimento e decisões que nos colocam à prova. A grande diferença está na resolução dessas vicissitudes. Neste ponto, não posso deixar de evidenciar o enorme contraste moral e alguma dualidade de critérios, como se fosse obrigação, atendendo ao temperamento de cada irmã, expor/ocultar as suas dores, mesmo que estivessem a viver uma situação muito similar. Inclusivamente, são esperadas demonstrações muito distintas, o que pode provocar interpretações erradas e, consequentemente, inferir que determinados sentimentos não são tão fortes como seria de esperar.

Cheia de críticas e sarcasmo, a narrativa é mais lenta e ligeiramente previsível. Sinto que, ainda assim, houve partes com algum suspense, mas que se demorou em passagens que, no meu entender, talvez não necessitassem de tanto detalhe. Há vários aspetos positivos, mas tenho que destacar, naturalmente, a relação de Marianne e Elinor e o amadurecimento das suas personalidades, que lhes permitiu aprender o quanto é valioso o equilíbrio. Gostava, também, que o desfecho não fosse tão célere, mas é uma leitura imperdível!


Deixo-vos, agora, com algumas citações:

«A ideia de que diferenças de fortuna pudessem manter afastadas duas pessoas que se sentissem atraídas por similitudes de disposição era completamente contrária a todas as suas doutrinas» [p:24];

«A figura e o ar daquele cavalheiro eram em tudo correspondentes ao que a sua imaginação sempre idealizara como o herói de uma história favorita» [p:63];

«Sentia-se mais forte sozinha e de tal modo amparada pelo próprio bom senso que a sua firmeza se mantinha tão inabalável e a sua jovialidade tão constante quanto seria possível com desgostos assim pungentes e recentes...» [p:187];

«Tenho de sentir... tenho de ser miserável... e quem quiser gozar o espetáculo poderá fazê-lo» [p:249];

«- O quê?! Enquanto me amparavas no meu infortúnio, trazias isto no teu coração? E eu que te censurei por seres feliz!
- Não era boa altura para saberes que era absolutamente o inverso» [p:340]



Nota: As gavetas tornaram-se afiliadas da Wook. Por isso, ao comprarem através dos links disponibilizados, estão a contribuir para os meus hábitos de leitura. Obrigada!

32 comentários

  1. É exatamente isso, meu bem. No geral, e assim que começamos a entrar mais para o meio dos 20 (entre os 23 e os 25), começamos a absorver mais coisas e, consequentemente, a aprender com elas. E isso é maravilhoso! Acho, inclusive, que fazer uma pequena paragem para fazer uma instrospeção sobre isto, é fundamental!
    Obrigado <3

    Gosto de livres que façam contraposições com a sociedade e com as formas de estar. Querendo ou não, acaba por nos ajudar a fazer uma comparação com o que vivemos atualmente (pelo menos acontece-me muitas vezes). Sou fã de livros que sejam descritivos nas ações dos personagens, mas não me suscita muito as longas descrições que terminam em cortes ou desfechos mais previsíveis.
    Isto tudo para te dizer que, ainda assim, fiquei com curiosidade de ler :D

    NEW TIPS POST | MOISTURIZER SÉRUNS LIKE MAKEUP PRIMERS? SAY WHAT? :O
    InstagramFacebook Official PageMiguel Gouveia / Blog Pieces Of Me :D

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  2. Bom dia! É por uma boa causa!
    =)

    Bjinhos

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  3. I have seen movie "Pride and prejudice " i liked that .These quotes you mention are really good.
    My Blog | Instagram | Bloglovin

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  4. Ainda não li este livro mas "conheço" bem a autora.
    Um abraço e continuação de uma boa semana.

    Andarilhar
    Dedais de Francisco e Idalisa
    O prazer dos livros

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  5. Desculpa minha linda... houve um problema. O post publicado que devia ter ficado em rascunho. É o que dá pedir ao Mais-que-Tudo para pedir para desligar o computador, LoL.

    Beijinhos,
    O meu reino da noite ~ facebook ~ bloglovin'

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  6. Gostei do livro, mas não tanto como o Orgulho e Preconceito e Persuasão. A escrita é muito apaixonante e mostra a genialidade da Jane Austen no campo literário, mas achei a história arrastou-se um pouco e que tinha elementos dispensáveis. A Margaret, por exemplo, podia nem existir que não fazia qualquer falta. Adorei o casal Palmer (são tão diferentes, ri-me tanto com o contraste deles) e odiei o destino de Marianne: pareceu-me resignação, o que não tem nada a ver com ela. É uma das personagens mais fortes e merecia, a meu ver, um final bem ao nível dela.

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  7. Gostei do que li, ainda não tive oportunidade de ler o livro na integra, mas tenho de o fazer =)
    Beijinhos,
    https://chicana.blogs.sapo.pt/

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  8. da Jane Austen só li por duas vezes o Orgulho e Preconceito...
    xoxo

    marisasclossetblog.com

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  9. Gostando da sugestão de mais um livro que, acredito, seja muito doce de ler.
    Votos de um dia feliz.
    .
    * Amor em Desejos Indefinidos *

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  10. Vi os dois filmes e gostei mais de Sensibilidade e Bom senso, exatamente pelo que tu descreves :)
    Tenho de ler os livros e acho que vou chegar s mesma conclusão:)
    Bjinhosss minha querida*
    PS: acabei de abrir a caixa de correio e estou de coração cheio*
    https://matildeferreira.co.uk/

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  11. Eu estou a ler agora o Orgulho e Preconceito e estou a gostar bastante!

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  12. ANDREIA MORAIS,

    posso afirmar que seu blog é um mais criativos e único em temática tão extraordinariamente simples e bem desenvolvida!!!

    sou seu mais novo seguidor.

    Chego até você através do excepcional blog do JAIME PORTELA, RIO SEM MARGENS

    Gostaria que pudesse visitar meu blog FALANDO SÉRIO, no qual esta semana publico: RECADO PARA ADRIANA.

    Ficaria honrado com seu comentário , caso fosse possível e estarei sempre por aqui.
    Um abração deste outro lado do oceano, um abração carioca!

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  13. Se é imperdível, tenho mesmo que ler! Bela sugestão! :D

    amarcadamarta.blogspot.pt

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  14. Não sou muito de ler, mas gosto sempre de conhecer as novidades e os livros de quem os lê
    mas gostei de conhecer um pouco mais
    Beijinhos
    Novo post (Nova Decoração?) // CantinhoDaSofia /Facebook /Intagram
    Tem post novos todos os dias

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  15. Conheço a autora, mas ainda não li este livro.
    Obrigado pela sugestão.
    Continuação de boa semana, amiga Andreia.
    Beijo.

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  16. "Orgulho e preconceito e Sensibilidade e bom senso", creio que deram origem a duas séries que passaram na RTP e que eu não vi, pois além de não ter pachorra para séries, as séries britânicas são a coisa mais chatinha que há. Ou sou eu que não aprecio os "beefs". xD

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  17. Jane Austen é uma escritora fantástica e gostei muito do livto "Orgulho e Preconceito" e despertate o meu interesse para este livro.
    Apesar de existirem acontecimentos/mentalidades de outras alturas da história que não subscrevo, gosto muito de ler obras que as retratam.
    Beijinhos :)

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  18. Adorei ler a obra de Jane Austen quando era menina e moça. O meu romance preferido é EMMA.
    As fantasias de Emma Woodhouse, formosa, inteligente e rica, são de leveza que ainda hoje me agradam.

    Continuação de boas leituras...

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    Respostas
    1. É um alegre e amoroso romance, mas não é o melhor de Jane Austen. EMMA é uma heroína difícil de gostar, segundo a própria autora. Com a mania de que sabe o que é melhor para todos. mete-se na vida dos outros e causa danos no coraçãozinho de Harriet Smith.

      A minha preferência por este romance, é que Ema era o nome da minha mãe, que adorava a obra de Jane Austen, principalmente As Fantasias de Ema.

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  19. R: És muito nova, eheheh

    https://pt.wikipedia.org/wiki/Sense_and_Sensibility

    https://pt.wikipedia.org/wiki/Pride_and_Prejudice_(1995)

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  20. r: sem dúvida que a vida académica são dos melhores tempos que passamos na nossa vida, e que vai deixar saudades sem dúvida

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  21. Já ouvi falar imenso desta autora, mas nunca li nada dela. Tenho que alterar isso.

    R: adorei esta série de palestras, foi mesmo incrível e tenho muitas saudades.

    Beijinhos! :)

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  22. Por acaso só li um livro da Jane Austen e não gostei muito!

    Bjxxx
    Ontem é só Memória | Facebook | Instagram

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  23. Nunca li nada desta autora mas confesso que tenho bastante curiosidade!

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  24. Temos 5 dedos em cada mão,
    mas, nenhum dele é igual
    todos sentem no coração
    seja o bem ou seja o mal!

    Tenha uma boa noite Andreia.

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  25. Amei o livro, o filme e a sua resenha.

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  26. Oi Andreia! Eu li o livro quando era bem novinha, devia ter uns 14 anos. Preciso reler, com certeza irei notas sutilezas (e temas) que não notei nessa idade. Um beijo! :*

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  27. A autora costuma ser fantástica, mas não conhecemos esta obra.

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  28. Nunca li nada da autora, mas fiquei curiosa.
    Agora que me lembrei, já vi os dois filmes que me tinhas aconselhado há já algum tempo: "Orgulho e Preconceito" e "A Extraordinária Vida de Timothy Green".
    Gostei muito de ambos, mas confesso que rendi-me ao segundo, acho-o absolutamente maravilhoso :)

    R: É, espero que sim, que tudo vá ao sítio. Obrigada minha querida <3

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