Entrelinhas #47 - Torey Hayden

Fotografia da minha autoria


«Apesar de ter uma formação académica diversificada, dedicou grande parte da sua vida ao ensino especial e à escrita»



Um livro não deve ser escolhido pelo título. Ou pela capa. Não só porque são elementos que nos podem induzir em erro, mas também por não ser a forma mais cortês de o valorizar. Ainda assim, é o primeiro contacto que temos com a obra. É o seu cartão de visita. É o que nos convida, inconscientemente, a procurar descobrir os contornos do enredo através da sua sinopse - caso seja disponibilizada. Apesar de defender que não nos podemos limitar ao aspeto exterior, foi exatamente desta maneira que fiquei a conhecer uma das autoras que entrou diretamente para a minha lista de preferências.

Quando, no secundário, tive que fazer contratos de leitura para Português, aproveitei o facto de estar a passar por uma fase literária mais adormecida para me aventurar em escritores novos. E foi assim que me cruzei com A criança que não queria falar. Desde então, rendi-me por completo ao discurso, às histórias, ao profissionalismo e ao amor que Torey Hayden deixa transparecer nas suas palavras. O facto de trabalhar, maioritariamente, com crianças que apresentam necessidades educativas especiais, muitas delas desencadeadas por passados traumáticos, pode ser um verdadeiro murro no estômago. Porque não há qualquer tentativa de adornar a realidade. Muito pelo contrário, os dados e os danos são partilhados sem filtro.

É preciso ter um pouco de sangue frio para ler determinadas passagens. Porque mexem connosco. Porque nos revoltam. Porque nos sentimos impotentes. Mas, felizmente, também encontramos aconchego, principalmente quando percebemos que há sempre uma mão que se estende para salvar estes casos do abismo. Inicialmente, pensei que todos os seus livros fossem baseados em histórias verídicas. Mais tarde, fiquei a saber que também tem duas obras ficcionais. E cheguei à conclusão que adoro lê-la em ambos os registos. Torey Hayden tem uma luz muito especial. E, citando o jornal Boston Globe, o mundo precisa de mais pessoas como ela, porque é incrível!


Uma Criança em Perigo: É, talvez, das histórias mais desconcertantes que li da autora. Apesar de acompanharmos um grupo de quatro crianças com problemas comportamentais, o enredo centra-se em Jadie, cujas reações provocam inúmeros raciocínios - até a sua postura dobrada soa a alerta. Pessoalmente, nunca perdi a sensação de estarmos a percorrer um caminho dúbio, onde encontramos mais questões que inferências. Além disso, é extremamente complicado compreender o que é real e o que não passa de algo fantasiado pela menina. E a frustração resultante dessa incerteza é bem visível em Torey, que terá que, uma vez mais, aliar o lado emocional e o lado racional de modo a agir sem melindrar qualquer das partes envolvidas. O epílogo permite-nos compreender melhor algumas situações, mesmo assim não é suficiente para colmatar o vazio que fica no final - para o leitor e para a própria autora.

«Jadie arregalou os olhos, surpreendida, e pela primeira vez deixou cair a máscara de impenetrabilidade. O rosto emanava incredulidade» [p:19]


Raposas Inocentes: É o seu segundo romance de ficção. E apresenta um registo completamente diferente, até por não ser passado numa sala de aula. Neste livro vamos encontrar relações profundamente desestruturadas, nas quais é notória a falta de amor - próprio e pelo outro. Consequentemente, é uma viagem pela verdadeira essência do ser humano, permitindo-nos refletir sobre a fragilidade, a rudeza com que se tratam as pessoas, as prioridades estabelecidas e a necessidade de sobrevivência. Há, também, uma espécie de auto-análise inconsciente, que leva as personagens a confrontarem-se com a dolorosa história das suas vidas. E leva-nos a perguntar se, de facto, podemos garantir que, em momentos de desespero, nunca faremos algo que desprezamos.

«Dixie tinha saudades da banalidade de tudo aquilo. Era isso que a fazia chorar, aperceber-se de como a normalidade era tão valiosa. Aperceber-se de como era fácil tomar como garantidas todas as coisas de que se gostava...» [p:155]


A Prisão do Silêncio: Esta obra de não ficção baseia-se num jovem de 15 anos com medos paralisantes, que o levam a assumir um completo mutismo voluntário. Para além de todo o historial traumático - que vamos conhecendo aos poucos -, o que mais assusta neste livro é o papel determinante que a burocracia assume, condicionando a vida de Kevin e impedindo-o de ter a ajuda mais adequada. Como se esta questão já não fosse suficiente, ainda se acrescenta uma mãe e um padrasto totalmente negligentes. Considerado um caso perdido, Torey nunca desistiu. E, apesar de terem vividos momentos de grande tensão, não deixa de ser encantadora a ligação que estabeleceram. Kevin ficou profundamente marcado pelo seu passado - que é mais negro do que aquilo que possamos imaginar -, mas é impossível não sentirmos empatia por ele. Terminei o livro em lágrimas, porque, afinal, talvez os milagres existam. Simultaneamente, preciso de mencionar que também vamos conhecer a história de Charity - ainda que num plano secundário -, cuja maneira de ser trará algum humor à narrativa, mesmo que a sua vida seja também ela complicada.

«Quando alguém nos odeia, faz-nos coisas. E nunca sabemos quando tal vai acontecer. Nunca sabemos exactamente o que será. Mas quando alguém nos odeia, sabemos que não deixará de nos fazer mal» [p:134]


Vozes Silenciosas: É o primeiro romance da autora. E explora a dinâmica de uma família peculiar e algo disfuncional, que procura ajuda para o filho diagnosticado com autismo severo. Porém, a narrativa é muito mais complexa do que isso, o que é facilmente percetível quando o foco de análise deixa de ser somente a criança, para passar a abranger a sua mãe, que esconde um «segredo terrível». Este livro leva-nos a questionar a veracidade das coisas e a refletir sobre os perigos que surgem quando realidade e imaginação se confundem. Além disso, faz-nos pensar sobre o isolamento, a incompreensão e as consequências da criatividade; e sobre os preconceitos que elaboramos perante aquilo que não compreendemos. Dentro desta história de ficção, vamos encontrar uma história de fantasia, que assume proporções irreversíveis. Com uma escrita descomplicada, que nos permite conhecer traumas e contrastes, os últimos capítulos são de leitura compulsiva. E o final tem tanto de intenso, como de fantasioso e belo.

«Eu conseguia senti-lo. Rodeava-me e absorvia a minha angústia. Mesmo no abismo do meu desespero percebi que ninguém jamais me amara com a força com que Fergus amava» [p:245]



Nota: As gavetas tornaram-se afiliadas da Wook. Por isso, ao comprarem através dos links disponibilizados, estão a contribuir para os meus hábitos de leitura. Obrigada! 

16 comentários

  1. Descobri está escritora ctg e mandei vir o The silent boy que estou a ler aos bocadinhos por causa do Lu mas estou a adorar:)
    Também não costumo comprar livros pela capa ou pelo título, gosto de ir sempre atrás ler o resumo hehe manias ;)
    Bjinhosss e obrigada por esta Recomendação:)
    https://matildeferreira.co.uk

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  2. Acreditas que nunca li nenhuma obra dessa autora? Já vi que ando a perder muito! :p
    Deixaste-me curiosa com as histórias!

    amarcadamarta.blogspot.pt

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  3. Já comprei muitos livros por impulso, ou foi pela capa ou pelo titulo e já tive muitas e boas surpresas, mas também alguns "flops".
    Um abraço e continuação de boa semana.

    Andarilhar
    Dedais de Francisco e Idalisa
    O prazer dos livros

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  4. Nunca li. Mas parece-me bem interessante :)) Bom dia.

    Hoje:- "O meu ilusório, fluindo"

    Bjos
    Votos de óptima Quinta-Feira

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  5. Já li um livro dela e foi, de facto, avassalador. Penso que foi a Criança em ruínas. Dos poucos livros que li emprestado. É que gosto demasiado de ter por perto os livros que já li, e também não gosto de emprestar livros, por isso não tenho esse hábito de ler livros de outras pessoas.
    _Telma.

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  6. Nunca li nada da autora, mas tenho de remediar a situação rapidamente =)
    Beijinhos,
    https://chicana.blogs.sapo.pt/

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  7. Nunca li nenhum desses livros! Sou viciada em Haruki Murakami, conheces?

    Parabéns pela parceria! :D

    Um beijinho*

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  8. Nunca li nada mas apontei, como sempre os teus posts literários deixa-me com " água na boca :-) "

    Beijinhos
    https://titicadeia.blogspot.pt/

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  9. Eu vou ser sincera, acho que tenho algum livro da autora em casa da minha mãe, mas nunca li. Fiquei curiosa com a prisão do silencio :)

    Beijinhos,
    DEZASSETE

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  10. As sugestões de leitura são muito boas.
    Continuação de boa semana, amiga Andreia.
    Beijo.

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  11. Nunca li nada desta autora, mas fiquei curiosa, principalmente, com os dois últimos. O último mais um bocadinho, por abordar também um tema ligado à minha futura profissão, o autismo. Adoro as sugestões que trazes para cá e tenho a minha lista a aumentar :)

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  12. Alguns dos livros que falas eu já tinha curiosidade em ler...

    Bjxxx
    Ontem é só Memória | Facebook | Instagram

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  13. Desses 4 livros se comprar um,
    compro o das raposas inocentes
    para ver se já lhe falta algum
    ou se ainda tem todos os dentes?

    Tenha uma boa noite Andreia.

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  14. Nunca li nenhum mas a curiosidade espicaçou.

    Beijinhos!

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  15. Inspirador esse romance, estou mortinha para me dedicar à leitura, mas até junho estou apertada. Depois vou usar e abusar*****
    Beijinhos*

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