As gavetas abertas por... Jota Esse

Fotografia retirada do site Favim.com


Olá, chamo-me José, sou o inquilino do blog Pra Variar e confesso que não tenho jeitinho nenhum para apresentações. Se um dia virem um fulano que, na hora das apresentações, não sabe se há-de estender a mão, dar um beijo ou um abraço, esse fulano sou eu. Então é assim: ao fim de 13 anos de blogger, é a primeira vez que estou a participar numa iniciativa deste tipo e só porque a Andreia é boa pessoa 😊

A razão que me levou a criar um blog? Bem, em 2005, a minha vida deu uma reviravolta, que me deixou quase congelado, e o blog (os diversos que fui criando e apagando até chegar a este) foi a única forma que encontrei de comunicar com o mundo, através do muro que a vida ergueu à minha frente. Mas isso foi há muito tempo e, hoje, o blog já não representa o mesmo que representava naquele período. Hoje, o Pra Variar não é mais do que uma daquelas doenças crónicas, que nos vão aparecendo com a idade e com as quais temos que aprender a viver, até que a morte nos separe. Pronto, estou apresentado e agora vamos ao que aqui me trouxe.



O Despertar dos Mágicos


O título não tem nada que ver com o que vou dizer. É o título de um livro, de Jacques Bergier e Louis Pauwels, que comecei a ler há mais de 40 anos e o máximo que consegui foram umas boas sonecas. Se quiserem saber mais, vejam aqui, porque só faço referência ao livro como introdução do tema (despertar) e porque citar livros dá sempre um ar culto, mesmo quando, ao fim de 40 anos, não fomos além do segundo parágrafo. Do que quero mesmo falar é de como a idade influencia tudo, até o modo como despertamos.

Eu dormi sempre mal e, por isso, passei a vida toda ensonado e a adormecer nos locais mais estranhos que possam imaginar (a filha diz que eu durmo em todo o lado, menos na cama). Antes de ir para a tropa, ia de elétrico para o emprego. Ia cedo para apanhar lugar sentado e para dormir na viagem de meia hora entre o Arco do Cego e o Poço do Bispo. Deixava sair o elétrico das 6:50, para ser logo dos primeiros a entrar no das 7:00 - e naqueles 10 minutos aproveitava para dormir de pé, agarrado à paragem. No fim da viagem, muitas vezes, o elétrico dava a volta e, se não me acordassem, voltava ao Arco do Cego eheh Ao fim do dia de trabalho, tinha pressa (e fome) para vir jantar e apanhava o primeiro que aparecia. Encostava-me lá à frente, ao lado do guarda-freio, e dormia a viagem toda, de pé.

Na tropa era um castigo, sobretudo quando andava no curso em Paço d'Arcos. À noite, ficava no grupo das anedotas até às 3:00 da manhã e, no dia seguinte, passava as aulas a dormir. O Alferes chegou a antecipar o intervalo, porque eu estava a contagiar o pessoal e, às tantas, já estava metade da turma a dormir. Quando estava de "reforço", havia um caixote de fruta vazio em cada guarita, onde o pessoal se sentava, embora fosse contra as normas. Ao contrário dos outros, que abominavam colocar o capacete na cabeça, eu promovi o capacete a despertador e arranjei uma estratégia para ir passando pelas brasas sem ser apanhado a dormir. Sentava-me no caixote com a arma a passar-me entre os joelhos e a coronha assente no chão e encostava o capacete ao cimo do cano. Quando começava a cabecear, o capacete descia encostado ao cano e fazia barulho quando batia no ponto de mira. E eu acordava, mas adormecia logo a seguir. Passava assim os dois turnos, de duas horas, e acabava a noite ainda com mais sono, porque nos intervalos de 4:00 horas entre turnos, passados na casa da guarda em colchões cheios de pulgas, não conseguia adormecer.

Depois de sair da tropa, voltei ao emprego numa fundição. Estávamos no "Verão Quente de 75" e, enquanto os colegas passavam manhãs e tardes a "conspirar" com a comissão de trabalhadores, a minha luta era contra o sono. Sentava-me num caixote atrás dos fornos e dormia até soar a campainha a anunciar o fim da reunião. Fui uma porcaria de revolucionário que passou o PREC todo a dormir. Mais tarde, comecei a adormecer ao volante. Várias vezes acordei na berma contrária da estrada, com elas aos gritos. Até um dia em que ia só com a cadela, na autoestrada, e acordei quando bati no rail. A partir daí, nunca mais abusei. Quando tenho sono, encosto, ou ponho-a a ela a conduzir.

Naquele tempo, só conseguia adormecer de madrugada e às 6:30 só um despertador da "Reguladora" me conseguia acordar. Ainda anda por aí, numa gaveta, como recordação de um tempo que, apesar de tudo, deixou saudades. Agora, já não tenho obrigações laborais, mas nunca perdi o hábito de me levantar cedo. Porém, já não suporto aquele despertador agressivo, que me deixava a bater mal o resto do dia. E como o sono vai ficando mais leve à medida que os anos ficam mais pesados, hoje, o meu despertador (no telemóvel) acorda-me com esta melodia suave dos Dire Straits. Por acaso, há dias em que ainda fico a bater mal, mas isso é do mau feitio que continua jovem, como quando tinha 20 anos. Também faz parte da minha playlist do carro.


21 comentários

  1. Já o consigo trocar, sabes?! ahahah é o que dá apegar-me até aos produtos!

    Que texto magnífico. Desculpem-me todas as outras participações, mas este texto está de se lhe tirar o chapéu. Talvez por haver pessoalidade, um contar de histórias de época que me atraem muito. Agora, ao ler isto, imagino o meu pai que também ele foi militar. Vem totalmente ao encontro de algumas passagens que ele contava :)

    NEW WISHES POST | BEAUTY NEWS to TRY TILL APRIL END.
    InstagramFacebook Official PageMiguel Gouveia / Blog Pieces Of Me :D

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  2. Gostei bastante do texto e nada melhor para acordar que esta bela melodia dos Dire Straits.
    Um abraço e boa semana.

    Andarilhar
    Dedais de Francisco e Idalisa
    O prazer dos livros

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  3. Gostei mesmo muito de conhecer um blogger da velha guarda :) e adorei as suas histórias inspiradoras, bela forma de começar o dia :)
    Eish essa musica é a minha preferida dos Dire Straits :)
    Bjinhos aos dois*
    https://matildeferreira.co.uk

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  4. Não conhecia e gostei bastante =)
    Beijinhos,
    https://chicana.blogs.sapo.pt/

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  5. Não conhecia o blogger, mas gostei imenso do texto. Beijinhos <3

    https://www.bycarolina.pt

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  6. Não conhecia o blogger, mas o texto está fantástico! Gostei imenso! :D

    amarcadamarta.blogspot.pt

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  7. Andreia, até tenho vergonha de vir aqui... é que tenho andado tão cansado que mal chego aqui e adormeço. Mas adormeço sentado, porque se fosse na cama, não tinha sono. lol

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    1. Ó Zé, será que foste picado pela mosca Tsé-tsé?? ehehehehe

      Como sói dizer-se cá pelos blogs: Adorei, adorei, adorei...a tua participação aqui nas Gavetas da Andreia!!

      Parabéns a ambos. A ti pelo texto e à Andreia pela iniciativa.

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    2. Muito obrigada em relação à parte que me toca :D

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  8. Belo texto. Gostei de "conhecer" o senhor Jota um pouco melhor.
    Música fantástica! Belo despertar 😊

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  9. Gostei muito do texto. Adorei a melodia dos Dire Straits.
    Bjs

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  10. Já te conheço há algum tempo José :)
    Sobre o texto, adooreiiiiiiii lol eu não sou assim para adormecer, mas gostava.
    Quero-te dizer que és um homem de coragem e admiro-te por isso.
    Abraço e que tenhas sempre essa boa disposição :)

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  11. Tive que me rir com a parte da tropa, dou-lhe os meus sinceros parabéns pela forma como se desenrascou naquela altura! ahaha
    Sou uma pessoa que também adormece em todo o lado e quando andava de comboio já sabia quando acordar (o subconsciente é amigo ahaha). Gostei bastante do texto

    Beijinhos,
    DEZASSETE

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  12. Este não conhecia, gostei imenso do artigo. Acho este teu projeto maravilhoso. Beijinhos*

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  13. Ao ler isto parecia que estava a ouvir o meu pai a contar as histórias do tempo dele na tropa. Que participação tão boa :)

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  14. Adorei ler este texto, gosto sempre de ler sobre as vivências e curiosidades de um tempo que não era o meu. Parabéns ao Jota Esse :)

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