Inconfidências: A culpa é da praxe

Fotografia da minha autoria


«O respeito é a coisa mais importante que existe»



A minha educação sempre foi pautada por determinados ensinamentos. E um deles recebi-o muito cedo, por parte da minha avó: não comentes o que não viste! Por vezes, pode ser aliciante expressar a nossa opinião sobre certos acontecimentos, mas, quando não conhecemos todos os seus pormenores, o mais provável é cometermos alguma injustiça, sobretudo porque nos faltam fundamentos. E, ultimamente, o que mais tenho visto são comentários pejorativos em relação a um tema que me diz bastante: a praxe.

Quando entrei na faculdade, fi-lo com a certeza de que, pelo menos, iria experimentar. Se acreditava que tinha o feitio certo para este ambiente? Talvez não. Porém, não ia deixar passar a oportunidade de o descobrir. E de, principalmente, formular um parecer por mim, sem influências externas, que, geralmente, apenas têm uma noção mínima de tudo o que se passa. E mesmo tendo demorado a encontrar o meu lugar, sei que conquistei uma extensão genuína de família. Por isso, custa-me quando vejo manifestações que procuram, através de generalizações, destruir uma imagem que me é querida e que marcou todo o meu percurso académico. Se vou fechar os olhos e defender que não existem exageros? Claro que não, até porque não sou ingénua a esse ponto. No entanto, não posso, de todo, corroborar com as supostas verdades absolutas que tentam colocar em evidência.

Se calhar, tive a sorte de entrar numa casa onde as pessoas se preocupam; numa casa onde os nossos limites não são testados com brutalidade e o nosso bem-estar físico e emocional não é colocado em risco. Sorte a minha que integrei um grupo que me permitiu criar as melhores memórias possíveis, e que me dá sempre razões para voltar. Naturalmente, não me revejo em todas as posturas que fui observando. E nunca me fez sentido perpetuar a velha máxima do «se me fizeram a mim, vou fazer aos outros», independentemente de ter gostado ou não. Acredito, sim, que tudo são aprendizagens: umas que nos encaminham pelo lado certo e outras que nos mostram aquilo que não devemos fazer/ser. A partir do momento em que a preocupação é preservar a tradição e ensinar o que de melhor ela tem, isso dá-nos bases para a vida toda.

É provável que nem pensem nisso, mas, neste caso concreto, nós recebemos estudantes de vários pontos do país [ilhas incluídas]. Muitos deles, aventuram-se sozinhos. E têm que lidar com o facto de estarem numa cidade nova, sem qualquer ponto de referência e sem o colo dos pais/dos amigos. Consequentemente, ainda que não sejam todos, vários encontram na praxe um refúgio, que lhes permite adormecer a saudade, que faz com que pensem menos tempo no quanto custa estar longe e que, imagine-se, até organiza atividades que quebram a barreira de todo este mundo desconhecido. Os primeiros dias podem ser mais complicados, porque a carga emocional é inevitável, mas chegamos ao fim com o coração cheio. E a nossa bagagem será muito maior. E isso só é possível porque cuidamos uns dos outros. Porque não permitimos que se metam com os nossos. Há uma hierarquia que nos separa, sim, mas, caso ainda não tenham percebido, isso é extensível a muitas áreas da nossa vida. Agora, não é por isso que perdemos o bom senso.

Acredito que existam extremos, que nem todos tenham tido a minha sorte, que nem todos tenham experiências positivas para contar. Infelizmente, ainda há quem vista um traje e ache que pode fazer tudo. E isso entristece-me. Da mesma maneira que me revolta toda esta caça às bruxas que decidiram montar. Lamento a desilusão, mas não somos todos iguais. Nenhum abuso é justificável, mas existem em todo o lado [e espero pelo dia que sejam erradicados]. E nem sempre vejo o mesmo registo de censura. Talvez um pouco menos de hipocrisia fosse sensato. Porque é muito fácil apontar o dedo, argumentar quando se está de fora e opinar sobre factos que nem sempre se confirmam, ou que apenas são meias verdades. Mas já que nos acusam tanto de sermos mal-educados, e quando somos nós a sermos atacados gratuitamente? Isso já é aceitável?

Episódios não faltam, mas deixo-vos três exemplos muito resumidos de situações que não aconteceriam se a nossa roupa fosse outra: 1) estávamos em frente ao Museu do Porto, à espera para fazermos uma visita, e um senhor de idade chega à nossa beira e começa a insultar-nos de todas as formas possíveis e imaginárias; 2) após o término de um jogo do Porto, íamos embora e um agente da PSP, destacado para impedir qualquer tipo de desacato, achou por bem mandar uma boca foleira sobre a situação do Meco; 3) entrei, certo dia, no metro trajada e senti-me a ser observada de cima a baixo. Olhei para a pessoa e reparei no ar arrogante com que o fazia. E os comentários insultuosos e completamente depreciativos são uma constante. No entanto, se disser que em todos estes momentos estávamos apenas focados em nós, não fará diferença, pois não? Porque, afinal de contas, é o traje que define o nosso caráter, não é?

Detesto ser injusta. E não consigo mesmo suportar que as pessoas tenham dois pesos e duas medidas, consoante o assunto que estiver em causa. Porque isso nunca será correto. Por muito que não concordem com certas atitudes, não rotulem. E muito menos procurem passar a imagem de que a praxe só tem gente sem escrúpulos, quando, claramente, elas existem em todo o lado. E sabem porquê? Porque a culpa não é da praxe. É das pessoas!

25 comentários

  1. Pois infelizmente e a mentalidade mesquinha que temos em Portugal. Também fui educada e orientará para pensar assim como tu mas sempre tive mt receio das praxes muito por causa do bullying. Sei bem que não devemos falar no geral pois há excepções à regra. Só sinto q há tradições q não fazem mt sentido na minha humilde opinião. Portugal e o único país onde existem praxes e as pessoas teem de andar tratadas durante um período de tempo... por exemplo aqui e nos US so de trajam no dia da formatura, acho q faz mais sentido afinal de contas e um dia especial mas respeito bastante quem gosta desses costumes.
    Bjinhosss
    https://matildeferreira.co.uk/

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  2. Tem toda a razão minha amiga a culpa não é da praxe mas sim das pessoas.
    Um abraço e boa Primavera.

    Andarilhar
    Dedais de Francisco e Idalisa
    O prazer dos livros

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  3. Concordo com o que escreveste. As pessoas não podem generalizar, mas obviamente que vão focar-se nos acontecimentos mais negativos e concluir que tudo o que está envolvido num determinado evento (neste caso, a praxe) é mau. O agente da PSP, então, foi mesmo nojento, com essas bocas sobre o Meco. Que falta de respeito para a tragédia em si e para os estudantes que não se identificam com o que se passou.
    Escolhi não ser praxada, mas a maior parte das praxes que vi (e ainda vejo) são engraçadas. Todos se divertem genuinamente e quem não quer fazer alguma coisa não é obrigado. No entanto, também já presenciei o contrário, em que os caloiros eram forçados a fazer algo que não queriam. E isso não devia ser permitido, obviamente. A praxe é um ambiente de descontracção e para brincar, não para oprimir. Felizmente a maioria dos veteranos sabe disso; só é pena que a minoria acabe por se destacar e todos acabem por ser criticados. O que tu passaste no metro foi altamente ridículo: ninguém te conhecia e acharam-se no direito de te julgar. É demasiada hipocrisia -_-

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  4. Olha, nem sei que te dizer, escreves-te tudo aquilo que eu penso!!
    Tive a infelicidade de desmaiar na praxe o ano passado (não teve nada a ver ver com as atividades que estávamos a fazer, a culpa NÃO foi da praxe mas não imaginas as bocas e os comentários pejorativos que ouvi...)

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  5. A culpa nunca foi da praxe, mas sim das pessoas que organizam e moldam a própria praxe..
    Beijinhos,
    http://chicana.blogs.sapo.pt/

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  6. Costumo dizer que a educação vem do berço. E há pessoas que não tiveram esse berço. Adorei o teu texto. Parabéns


    Hoje:- Desejo-te, como desejo as flores na Primavera

    Bjos
    Votos de uma boa Terça Feira.

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  7. Acho que depende das praxes, eu não tive grande experiência, porque só fui um dia e não gostei. Há gente que gosta e não as critico, no entanto ouço coisas ridículas de praxes em algumas faculdades e penso «Como é que se deixam ser tão rebaixados?». Em relação ao traje, nunca recebi qualquer tipo de boca e acho mesmo muito mau teres recebido, porque TODA a gente tem direito a tajar. Acho que as pessoas devem ser menos mesquinhas e mais informadas, mas que também alguns exageros que se vêem e ouvem das praxes também deveriam ser atenuados.

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  8. Para mim, a praxe proporcionou-me momentos memoráveis! Se calhar também tive sorte, mas o certo é que se não fosse pela praxe, não me integrava tão bem nem tão depressa naquele novo ambiente.

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  9. Infelizmente não prossegui os estudos, mas para mim a praxe sempre foi uma coisa "normal". Assisti a muitas, por causa do curso que tirei e sinceramente nunca vi o mal. É como disseste, não podemos criticar sem saber e não custa nada experimentar :b

    Beijinhos,
    DEZASSETE

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  10. Há uns tempos num dos meus posts falamos sobre isto, já sabes que concordo com tudo, do início ao fim. "Quando entrei na faculdade, fi-lo com a certeza de que, pelo menos, iria experimentar. Se acreditava que tinha o feitio certo para este ambiente? Talvez não. Porém, não ia deixar passar a oportunidade de o descobrir." - o meu pensamento no primeiro dia.
    A culpa é das pessoas, tal como há boas e más pessoas, há maus e bons praxantes, temos de ver os dois lados da moeda. Acredito que hajam experiências negativas e se as pessoas desistiram só fizeram bem. A partir do momento em que interferem com a nossa estabilidade física e emocional está errado. Mas não gosto quando as pessoas apontam o dedo e falam sem conhecimento de causa.

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  11. Concordo com esse ensinamento,
    "não comentes o que não viste"
    muito bem a sua avó lhe disse
    pessoas de bem, bem as entendo!

    De primavera. tenha uma boa tarde Andreia,

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  12. Embora as minhas já tenham sido há uns valentes anos, hoje continuo a dizer que se voltasse repetia tudo igual! O primeiro dia foi medonho, mas assim que pessoal do meu curso me encontrou e "salvou" tudo ficou bem melhor. Conheci imensa gente, quando achámos que algo era exagerado falámos também nos explicaram toda a tradição por trás e não me senti humilhada em momento algum. Quando foi a minha altura de praxar até achei que se calhar era um bocadinho "mázinha" e comentei com as colegas para elas darem feedback mas no fim tive 3 afilhadas e outras quantas que gostariam de ter escolhido para madrinha mas apelei a que escolhessem sensatamente visto que todos nos tínhamos empenhado e ainda havia muita gente sem afilhados(as), então depois da cerimónia apareceram algumas meninas a dizer que me gostariam de ter escolhido para madrinha fiquei tão emocionada... foi sinal que fiz as coisas bem ;)

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  13. É claro que as praxes podem sempre correr mal, mas A VIDA PODE SEMPRE CORRER MAL A QUALQUER MOMENTO. A praxe faz parte da vida académica, se as pessoas que te praxarem forem pessoas boas, pessoas que vivem o sentido real de praxe, então serão talvez os melhores momentos da tua vida. Também ia cheia de medo ao início, queria experimentar mas o medo era enorme. Experimentei e no último dia de praxe chorei já com saudades. A praxe é união se quem nos praxar for símbolo disso.

    Beijinhos!!

    http://little-cherry-wine.blogspot.pt/2018/03/ainda-me-lembro.html

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  14. Uma boa postagem mais não conhecia, obrigado pela visita volte sempre.
    Blog:https://arrasandonobatomvermelho.blogspot.com.br/
    Canal:https://www.youtube.com/watch?v=DmO8csZDARM

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  15. Terminaste com a chave de ouro! A culpa é sem duvida das pessoas e não da praxe. Foram as várias que correram mal, mas há umas quantas que correram bem. Não devemos de facto julgar uma pessoa por aquilo que a mesma veste. É pena essa mentalidade ainda estar tão presente. Talvez um dia mude. Beijo grande ❤️

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  16. Acho que tens toda a razão.
    Nunca fui para a universidade mas sempre pensei assim.
    Se há coisas que correm mal é por culpa de quem as pratica.

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  17. Eu confesso que não consigo entender qual o interesse da praxe...

    Isabel Sá
    Brilhos da Moda

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  18. As praxes não têm culpa da brutalidade e maldade que muitas vezes existe nas pessoas. Algumas praxes até super engraçadas. Outras de uma crueldade que até me recuso a comentar. E falo por experiência própria, que conheço bem como se fazem
    .
    * Poema em letras virgens e palavras nunca Escritas. *
    .
    Deixando um abraço

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  19. Fui praxada e adorei! Não há outra frase que descreva o que foi a minha praxe. No dia de hoje os meus melhores amigos fi-los na praxe. Por muito que tenham ido embora ou já não estejam lá há sempre uma boa memória, uma boa recordação das pessoas. Cresci tanto mas tanto que nem imaginas. Foi a praxe que muitas vezes me safou de desistir de tudo. Acho muito injusto que recebas esse tipo de comentário e acredita que não és a única, cá os meus "doutores" falavam imenso sobre o facto de as pessoas na rua os chegarem a insultar. Numa sociedade como é a nossa é comolicado perceber que o traje nada tem a ver com a praxe. Já o nosso azar é o reitor da nossa universidade ser contra a praxe e infernizar-lhes a vida. Enfim, temos muito que aprender ainda. Um beijo enorme

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  20. Concordo completamente com a tua visão acerca deste assunto.
    Há pessoas que comentam sem nunca terem vivido/visto e há aquelas pessoas que até podem ter tido uma experiência menos feliz e por isso generalizam. Nenhuma dessas posições está correta e acabam por dar lugar a polémicas.
    O que eu posso referir é a minha experiência que foi simplesmente fantástica. Fez-me divertir e conhecer novas pessoas que agora são das minhas maiores amigas, e fez-me crescer de um modo muito positivo. Por isso concordo completamente contigo :)

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  21. Não podia estar mais de acordo! Na minha opinião há quem saiba praxar e há quem não saiba, todos os episódios negativos pelos quais a praxe se tornou tão "famosa" é de pessoas que simplesmente não sabem praxar, ou seja, deixou de ser praxe.
    Para mim, a palavra 'praxe' traz todo um verdadeiro significado de família, foi lá que criei laços com as melhores pessoas que podia ter conhecido na minha faculdade, laços tão fortes que ainda hoje, passados dois/três anos, não me deixam perder o contacto regular. Quem vive realmente a praxe é incapaz de dizer mal dela :)

    r. Também já fiz aulas de zumba e adoro! Agora meti-me em aulas mais "agressivas" ahaha, mas cada vez gosto mais :P

    Beijinho querida,
    santiago | facebook | instagram

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  22. Quando entrei na universidade, fui com a mentalidade de experimentar. Aliás, entrei também com a ideia de aguentar na praxe até ao fim... na segunda semana, desisti. Não me identificava com aquilo, houve muitas situações (leia-se "comportamentos de certas pessoas com a mania que são superiores") que não me agradaram e precisava desse tempo para mim. Eu passava duas horas dentro de uma camioneta entre as viagens universidade-casa, todos os dias, queria empenhar-me no meu curso ao máximo para dar o melhor de mim, também trabalhava a dar explicações em minha casa e estava a iniciar uma relação e queria ter tempo para ela... tudo junto e ponderado, desisti da praxe. Tive medo de me arrepender... ainda hoje, passados 5 anos, tal não aconteceu. Mas admito que, se a minha praxe tivesse sido igual à de outros cursos da minha universidade, que se baseava em jogos e coisas engraçadas, talvez eu tivesse feito o esforço.
    Infelizmente, na praxe há de tudo. Eu vejo a praxe como um espaço para brincar e partilhar conhecimento. Há quem veja como sendo um treino militar. Há de tudo...

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  23. Sabes que podia ter escrito este texto, tenho a mesma opinião que tu de "se não experimentaste então não fales.." e quando comecei só ia para experimentar e sempre com a ideia de "é à vontade não à vontadinha"(engraçado que depois este sempre foi um dos lemas da nossa praxe) e só acabei surpreendida positivamente!
    Não podia ter pedido melhor casa <3

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  24. Tiraste-me as palavras da boca! Conseguiste colocar num texto tudo o que penso sobre este assuntl de uma forma claramente estruturada e verdadeira. Tenho, felizmente, a mesma 'sorte' que tu - poder sentir-me feliz, muito feliz, por ter sido praxada e por fazer parte disso. E trajar para mim tem um significado muito importante. Não é redutível a um só fato que diz que somos estudantes de Ensino Superior. É muito mais do que isso! E só quem o sente de forma correcta, com juízo e respeito, o sabe!

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