Inconfidências: Desapego

by - dezembro 06, 2017

Fotografia retirada do site The Mission

«Pratique o desapego»


As pessoas, de um modo geral, são acumuladoras natas. Caso não seja de objetos, será, certamente, de memórias.

Há uns anos, no canal TLC, transmitiram um programa sobre acumuladores. Lembro-me perfeitamente de, na altura, ficar impressionada com a quantidade de coisas que alguém é capaz de guardar, pelas mais variadas razões. E como isso pode ser tão prejudicial para a nossa saúde. E foi então que dei por mim a pensar se não estaríamos todos a seguir este caminho de acumulação, que nos destrói aos poucos.

Refugiados em desculpas como a saudade [que nem sempre é uma desculpa, sei disso], preservamos momentos, conversas, discussões, tristezas, vitórias, e uma infinidade de outras coisas que nos mantenham perto, ou que não arrefeçam determinado propósito. E vamos expondo tudo isso nas prateleiras da nossa casa, construída na base de sentimentos, como se fossem pequenos troféus. E quanto mais vivenciamos, mais este lar parece multiplicar-se, sempre com o objetivo de não termos que nos desfazer de algo. Fazendo uma espécie de inventário mental, percebemos que há sempre lugar para mais. Porém, se sentirmos o espaço a ficar lotado, rapidamente empacotamos certas recordações, remetendo a caixa para um sótão ou uma gaveta secreta, e arranjamos maneira de acrescentar o resto. E é durante todo este processo, que adquire contornos tão naturais e constantes, que deixamos de compreender que acumular é tóxico. A vários níveis!

O pior é que insistimos em guardar tudo aquilo que nos magoou (ou ainda magoa) de alguma forma. E só quando nos sentimos a sufocar com toda a nossa trabalha é que verificamos que chegamos demasiado longe. Precisamos de ajuda, até porque toda esta situação tornou-se tão impraticável, incómoda e triste, que não sabemos como a vamos reverter. Estamos excessivamente embrenhados para sair. Batemos no fundo da nossa força. E já só lá vamos com almas caridosas que nos resgatem.

Acumular é uma doença muito séria, por todos os riscos que desconhecemos. Só não sei se este perigo se limita aos objetos, porque as memórias também causam feridas. Além disso, enquanto os primeiros afetam a nossa vida exterior, as segundas marcam a nossa alma para sempre. E tenho em crer que juntos são a nossa desgraça. E isto acaba por ser um pouco como os problemas físicos e os mentais. Uns são visíveis. Outros não. Mas ambos estão lá. Atacam. Corroem. Enfraquecem-nos. E, se o diagnóstico não é feito a tempo, podem ser fatais. Acredito seriamente [e cada vez mais] que no nosso percurso - pessoal e/ou académico - deveriamos ter uma disciplina que nos ensinasse a arte do desapego, para aprendermos a deitar fora tudo aquilo que não nos acrescenta. E sem sentirmos culpa por termos feito essa escolha! Temos que nos libertar do argumento «pode ser útil daqui a uns tempos». Especialmente porque o mais provável é que nunca venha a ser. E, quando dermos por isso, o monte de coisas inúteis estará gigantesco. Sem necessidade.

É difícil desapegar, claro. Sobretudo quando há uma história intensa por trás. Mas manter algo que acabou, que já não nos pertence, fragmenta-nos. Aos poucos. Dolorosamente. E ocupa o nosso espaço saudável para aquilo que, efetivamente, nos faz falta!

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22 comentários

  1. É mesmo complicado isso! Tenho na família, quem adore acumular e sempre dizem que hão de precisar.Nunca acontece! Já eu, gosto de renovar, jogar fora ,doar ... beijos, chica

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  2. Infelizmente também sofro desta "doença" de acumular objectos, felizmente que não sou compulsivo.
    Continuação de boa semana.

    Andarilhar
    Dedais de Francisco e Idalisa
    O prazer dos livros

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  3. Eu sou a típiuca acumuladora de objectos não pelo objecto mas pelas memórias que lhe associo. Sejam bilhetes de comboio e de cinema, sejam colheres de gelado, tudo. E tenho imensa dificuldade em desfazer-me tanto dos objectos como das memórias. Pode ser que um dia...

    Beijinho*

    https://tudo-e-coisanenhuma.blogspot.pt/

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  4. Sinto me muito melhor desde que comecei a praticar o desapego, só me tem feito bem :)
    Bjinhosss
    https://matildeferreira.co.uk/

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  5. Bom dia. Não acumulo objectos. Queria acumular notas de 500 euros mas desisti. Nem uma ainda consegui ter, lool
    Mas memórias, isso sim. Acumulo e tantas tantas tantas
    .
    Deixo cumprimentos poéticos
    .

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  6. O desapego é um tema bastante curioso! Se tiveres interesse procura no youtube o video do desapego da Inês Rochinha :)

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  7. De facto faz super bem fazer certos desapegos, principalmente aqueles que nos trazem más memórias e que nos fazem sentir qualquer tipo de dor, pessoalmente não gosto de ter muita coisa acumulada, ou se usa, ou então dá-se, ou doa-se,ou deita-se fora o que não presta e desde que comecei a fazer isso comecei a sentir-me muito melhor comigo mesma.Fazer desapegos sejam eles de amizades(porque às vezes também precisamos), sejam objectos, roupa, ou qualquer tipo de coisa, faz bem, muito mais do que nós imaginamos.;)

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  8. é difícil e Às vezes é mesmo preciso.
    mas há coisas que nunca deixo fugir (as que me estão na pele).

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  9. Sim, é verdade, principalmente quanto a mágoas e objetos sem uso.

    BjóKawanami

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  10. Atenção que é necessário fazer a distinção entre acumuladores e contentores de lixo =P

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  11. Com o passar dos anos tenho me tornado numa pessoa cada vez mais desapegada!

    Bjxxx
    Ontem é só Memória | Facebook | Instagram

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  12. Por aqui tudo o que seja roupa, calçado malas e outros objetos que já não use, vai tudo embora. Agora no que respeita a algo que tenha pertencido a alguém que me foi querido/a guardo o que me faz lembrar a pessoa, se a pessoa me fez bem, claro. De pessoas ou sitios que só me fizeram mal e como costumo dizer, a 500 klm ainda tá perto, por isso xoooooooo :) em minha opinião tudo o que nos deixou mágoa e que nem lembrar é bom deve ir embora.
    Entre Os Meus Dias ∫ Facebook ∫ Instagram
    ✿ в૯¡j¡ทђѳ

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  13. Este comentário foi removido pelo autor.

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  14. Já fui mais acumulador de velharias,
    do que estou sendo presentemente,
    agora mando-as pelas competentes vias
    para não causarem poluição no ambiente!

    Tenha uma boa noite Andreia.

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  15. Como posso explicar o quanto adorei este post? Adorei mesmo!! De facto, venho de uma família que guardam TUDO! Já eu, não sou de facto assim. Lembro-me que em pequena doar roupa era um tanto doloroso para mim pois de facto, adorava as roupas que tinha (mesmo que fossem essas para o lixo por estarem tão velhas) por me relembrarem momentos prazerosos e de plena felicidade. Hoje sou totalmente diferente. Até sigo à risca o "viver com o essencial e ser feliz". Doo imensa roupa, de 6 em 6 meses, ou até menos. São sacas e sacas, porque tenho pessoas que me doam roupa também (patrões da minha mãe) e como sei que se nunca usei aquela peça em 6 meses não a usarei mais, doo. Há gente que necessita dessa peça de roupa e fico com algum espaço nas comodas e no roupeiro. Acredito mesmo que não necessitamos de muita coisa para viver e para sermos felizes. E de facto, a acumulação é uma doença incrivelmente perigosa pois é dificilmente curada totalmente. Beijinhos

    www.carolinafranco.pt

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  16. também cheguei haver alguns desses episódios e fiquei soberba com a quantidade de coisas que tinham amontoadas
    http://retromaggie.blogspot.pt

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  17. Obrigado, meu bem :)

    Esta era uma das minhas limitações. Sempre me custou horrores dar coisas que eram minhas por me terem sido oferecidas por A, B ou C... Mas, com a vida, entendi que podia fazer outras pessoas tão ou mais felizes que eu com essas mesmas coisas, entendes? A partir daí foi muito mais fácil deixar de acumular coisas!

    NEW REVIEW POST | LIERAC: RADIANCE TONIC // THAT CHANGED MY ROUTINE.
    InstagramFacebook Official PageMiguel Gouveia / Blog Pieces Of Me :D

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  18. Eu não costumo guardar muitas coisa...mas há, sempre, aqueles objetos com um significado especial que ficam por cá...


    Isabel Sá
    Brilhos da Moda

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  19. Este post está tão mas tão bem escrito que eu nem o que dizer, já disseste tudo querida Andreia. Partilho da mesma opinião que tu, sem tirar nem por, é necessário desapegar-nos de coisas que não vamos usar, de coisas que já acabaram e, principalmente, de coisas que nos fazem mal, com coisas digo tudo o que está a mais na nossa vida. Pratiquemos o desapego.
    Parabéns.

    E este design? Gosto tanto.

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  20. é importante mantermos memórias vivas mas temos de saber o momento em que devemos parar de pensar "quem me dera voltar àquele tempo". em vez disso, temos é de fazer com que o momento atual seja tão bom ou melhor do que aquele que já foi - e desapegarmo-nos do que já foi!

    r: obrigada! :D

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  21. Verdade. Fará, em Janeiro, exactamente um ano, que fiz uma limpeza grande à minha alma, auxiliada por uma limpeza profunda ao meu quarto (se é que me entendes). E revi estes meus actos nas tuas palavras tão sábias que tão bem souberam descrever algo tão importante!

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