A biomecânica genial


«Meia equipa ele fintou
E em delírio a curva deixou
Foi de trivela que ele chutou
Que grande golo ele marcou
Allez Allez Quaresma Allez»


Amor maior. E uma constante falta de palavras para tudo aquilo que me és. Tens um talento que nunca saberei definir, jogas com o coração nos pés, tens garra e uma classe inigualável. Fico fascinada a ver-te jogar, em todas as vezes que arrancas com a bola e consegues fintar uns quantos. As tuas trivelas, os teus passes de letra, as tuas «maldades» cravadas pela genialidade que te corre nas veias. És tão tu dentro de campo que não te permites jogar para agradar. Tudo o que tu fazes é por sentires bem dentro de ti, é por isso que os assobios não te demovem, só te dão mais força. Admiro o teu estilo irreverente, que também te faz levar um estádio ao rubro e a aplaudir-te de pé. O teu futebol bonito e imprevisível não deixam ninguém indiferentes. Gosto de quem arrisca, de quem não se esconde, de quem inventa alternativas quando algo não corre bem. É por isso, e não só, que, para mim, serás sempre o melhor. 

«Quando recebe a bola em campo, cada jogador tem uma intenção do que fazer com ela a seguir. Coisas simples, um passe curto e já está, ou coisas diabólicas, fintas, remate impossível e o jogo virado do avesso. Quaresma pertence à segunda casta. Ainda bem. Na equipa, coexistem outros jogadores do primeiro tipo. Ainda bem, também. Uns equilibram os outros. São o garante do ecossistema de uma equipa de futebol. É nos segundos, porém, que mora um dos princípios da genialidade. Fazer algo de grande e de diferente ao mesmo tempo. Aos primeiros, o escudo protector desta ousadia. Gosto muito de falar do lado táctico do jogo, depositada no cofre-forte tacticista da primeira espécie, mas não custa crer que são os segundos que nos fazem levantar extasiados dos nossos lugares. Quaresma já o fez muitas vezes. E em todas essas vezes podia ter resolvido os lances de forma mais simples. Mas não. Ousou fazer algo grande, mágico, e pintou obras de arte, golos ou centros assombrosos. E foi aplaudido e loucura. Noutras, não engatou o primeiro drible, e perdeu a bola quando tinha um companheiro ao lado bem colocado para receber o passe. E foi assobiado logo a seguir. É comum no futebol ouvir-se falar no gesto técnico perfeito. É um mito. Porque cada um tem a sua forma de viver ou jogar. Na vida, escrever com a caneta mais ou menos deitada, comer com garfo à direita e a faca à esquerda. No jogo, correr com os pés para fora, centrar com a parte de fora da direita quando devia ser com a de dentro com a esquerda. Em qualquer destes momentos, há a materialização de uma intenção. Há, no futebol, a técnica ao serviço da táctica. A intenção, primeiro. A acção, depois. O que interessa, depois, é que a segunda corresponda à primeira. A eficácia. É isso que faz a qualidade do passe ou do remate. Não a forma como ele é feito. Quaresma é um bom exemplo desta questão. A biomecânica da técnica expressa na trivela. É comum defini-la como contra-natura ou quase insolente. Centrar com a parte de fora da direita quando devia ser com a de dentro com a esquerda. Complicar o fácil. Na bancada, os adeptos quando vêem os jogadores a tentar a trivela, ficam, primeiro, espantados, e, depois, se sai bem, é genial, se sai mal, assobiam e gritam: “não inventes!”. Já vi também muitos técnicos de formação dizerem o mesmo a miúdos que a tentam fazer. Não faz sentido. Porque cada um constrói a sua biomecânica. Por isso, Quaresma não inventa quando cruza ou remata dessa forma. Ela é, apenas, a forma técnica de tornar mais eficaz a sua intenção táctica. É a sua particular biomecânica. Contrariá-la ou assobia-la é atentar contra a riqueza e a beleza do jogo.

Poderão dizer que exagera nesta forma de jogar e quando perde a bola, pode desequilibrar tacticamente a equipa. É aqui que entra a tal noção do ecossistema futebolístico, do equilíbrio ecológico que deve ser uma da equipa. Se Quaresma decide jogos nesses seus rasgos, o treinador tem de o aproveitar. Ao mesmo tempo, tem de adaptar a equipa a isso, para o caso de quando ele falhar, perder a bola, ter médios ou laterais atentos para, nas suas costas, activar a transição defensiva. É a tal táctica, com «T» grande. A colectiva. Quaresma irritou-se com os assobios. Em campo, pelo tom desafiador com que festejou o golo logo a seguir. Fora dele, ao dizer que vai continuar igual. Quanto mais me assobiarem, mais eu vou pegar na bola e resolver jogos. Bela frase. Independentemente de ser um génio ou de um jogador normal, mesmo daqueles que falham os simples passes, não consigo entender o acto de assobiar um jogador durante um jogo de futebol. Dirão que é uma reacção emocional e que há direito a protestar, etc. Sem dúvida. Afinal, também Miguel Ângelo só pintou uma capela sistina. Devia ter pintado uma todos os dias. Não faz sentido. Daqui a quinze/vinte anos, quando o cigano rebelde do Dragão pendurar as botas e recordarmos o jogador que foi, ninguém vai dizer «eu naquele dia assobiei o Quaresma!”. Pelo contrário, vão todos dizer, orgulhosos: “Eu, naquele dia, vi jogar o Quaresma!"» (Luís Freitas Lobo)

Parabéns, Herói, ninguém te supera. Sê feliz!

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15 comentários

  1. O futebol pouco me entusiasma, mas é um prazer chegar aqui e ser recebida por esta música que quase já sei de cor.

    Hoje estou mais fragilizada e soube-me de forma diferente, foi bom.

    Beijinhos

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  2. resp: obrigada minha querida «3
    o dia correu bem, e acabou da melhor maneira com o meu baby *.*

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  3. Adorei o texto! Então e estás satisfeita com o teu clube? que achas da rotatividade de Lopetegui? LOL

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  4. Houve uma altura em que era fanática por futebol e não perdia um jogo de campeonato nenhum. Adorava o Quaresma também, não sei se por ser bom jogador se por ser apenas bom... eheh acho que era por ambos. Agora não ligo tanto ao futebol mas quando vi o Mundial deste ano estava-me sempre a perguntar onde raio anda o Quaresma que tanta falta nos fez na selecção!

    r: é óptimo quando não atendem -.- aquela secretaria da minha faculdade é uma dor de cabeça! Seja por telefone ou presencialmente! Não há nada a fazer, é tanta a incompetência...

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  5. resp: acabei o dia da melhor maneira :)
    bom fim de semana *

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  6. r. Eu também acho que tudo tem uma razão, nada acontece por acaso!

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  7. Aww, obrigada! Espero mesmo que corra tudo bem :)

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  8. e é desta forma que se expressa o «amor» por um jogador. post maravilhoso.

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  9. gostei muito do texto! :) eu não sou fanática pelo futebol. sou benfiquista, como já disse aqui, e obviamente fico feliz com as vitórias do meu clube, mas não sou de grandes manifestações

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  10. Gostei muito do teu texto sobre o Quaresma, ultimamente, as opiniões dividem-se entre gostar e não gostar dele. Eu acho que todos os jogadores têm momentos bons e maus e, o mais importante é que se unam como equipa e que cheguem longe!

    MORNING DREAMS

    Sofia Silva

    Beijos*

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  11. Não partilhamos o amor pelo mesmo clube mas amamos, com igual força, os nossos clubes. Por isso compreendo a paixão que pões nestas palavras, dedicadas não só ao teu clube mas ao jogador que te faz gritar mais alto. Espero que o teu Quaresma ainda te traga muitas alegrias :)

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  12. muito obrigada :)
    mesmo que faltem as palavras, há sempre algo a escrever e fizeste-o lindamente.
    voltarei muitas vezes, sem dúvida.

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  13. Só disse a verdade, doce. Também estou a seguir.

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  14. Que giro o texto, não ligo muito a futebol apenas gosto de ver "boas exibições" confesso que os jogos que costumo ver são apenas quando joga a selecção nacional :)
    http://retromaggie.blogspot.pt/

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