Mudar, esquecer, recomeçar


«A vida é feita de escolhas. Quando você dá um passo à frente, inevitavelmente alguma coisa fica para trás», Caio Fernando Abreu


Chegaste com esse sorriso encantador e esse olhar brilhante e cheio de vida. Não fizeste mais do que seres Tu próprio e eu, do meu canto, via-te a chegar e a acomodares-te, aos poucos e poucos, em minha casa; na minha pequena e humilde casa, que palpita com mais força sempre que te aproximas ou que corre as cortinas em torno de todas as membranas que a fazem bater, de todas as vezes que tu estás longe, inalcançável, apenas presente em todas as memórias que eu faço questão de guardar bem, pois o sol não brilha lá fora se eu não vir de perto esse mesmo brilho que transportas no olhar. 

Deixei que entrasses, que te acomodasses, como se a minha casa fosse Tua, por fora, por dentro, até ao mais inutilizável pormenor. Era como se fosse tua e a conhecesses desde sempre. Só que não deixei que ficasse por aqui, deixei que mexesses, remexesses, ocupasses o espaço como mais te conviesse porque, mesmo sem te aperceberes do que fizeste, eu entreguei-me de corpo e alma, atirei-me de cabeça sem calcular a distância da queda e as possiveis feridas que esta iria causar; disponibilizei todo o tempo que era meu em função de tudo aquilo em que te tornaste para mim. No final do dia, no final de contas, entreguei-te a chave de casa e deixei-te à vontade para que fizesses dela um lugar mais feliz, mais completo e totalmente preenchido. 

Nunca me pediste nada, muito menos deste a entender que querias dar um passo na mesma direcção que eu estava disposta a seguir, mas gosto de ti, mais do que aquilo que consigo expressar, e talvez por isso nunca te tenha informado sobre isto, para assim puder proteger aquilo que apenas pode existir entre nós. Sempre ouvi dizer que «mais vale um pássaro na mão do que dois a voar», como tal prefiro manter uma boa amizade, e tudo aquilo que ela implica, do que dar um salto maior que a perna e perder tudo o resto. Contudo, nem sempre o nosso coração nos é fiel, pregando-nos partidas, e foi o que aconteceu comigo: esse gostar inexplicável levou-me a ver sinais onde eles não existiam, fez-me imaginar coisas e senti-las, mesmo quando estas não passavam de uma vontade imaginada; iludiu-me para me desiludir! 

Sempre soube que quando se ama não se espera retribuições, reciprocidade, mas contrariando todos os meus sentimentos, sempre esperei que retribuísses os sorrisos, os olhares, os gestos, e, principalmente, esse “gosto de ti”, que silenciosamente te confesso dia após dia. Sempre esperei essa reciprocidade da tua parte, mas, melhor do que ninguém, sempre soube que nunca me quiseste magoar ou iludir, pois nunca me prometeste nada, eu é que me deixei envolver demasiado, ao ponto de pensar que não existem nem barreiras nem obrigações que me impeçam de (te) amar, mesmo quando todos esses obstáculos eram uma realidade e se encontravam chapados diante de mim. Seguiamos sentidos opostos, eu sei, só que durante muito tempo quis convencer-me do contrário. 

Confesso que já tenho algumas saudades de acordar pela manhã e não seres a primeira pessoa em quem penso, de receber uma mensagem e não esperar que seja tua, ou estar pronta para adormecer, envolta de pensamentos, e seres o último rosto que se manifesta com clareza. Mesmo assim, e embora tenha saudades de não pensar em ti, eu sei – e posso assegurar – que viverás sempre em mim, dentro da mesma casa que te acolheu e se dispôs a amar-te incondicionalmente. 

Da mesma maneira que chegaste preciso que voltes a partir, que mudes de novo a direcção e que ambos prossigamos caminhos opostos. Não quero com isto dizer que tenho por ti qualquer raiva ou rancor, ou que sinto tristeza de todas as vezes que ainda me vens à memória, não, muito pelo contrário, só que preciso de te guardar dentro de uma pequena caixa de cartão e colocá-la do lado de fora da casa, porque tenho de te esquecer e tenho de te tirar do estatuto em que te coloquei – o meu grande amor. As feridas precisam de sarar para que esteja tudo bem, para tal não posso cruzar-me contigo a toda a hora, fisica ou mentalmente, e muito menos quero olhar para ti e saber que ainda não me és indiferente; talvez nunca o venhas a ser, mas fico na esperança de que o sejas só um pouquinho, o suficiente para saber que a ferida não voltará a abrir e as lágrimas não voltarão a correr! Para que isso seja possível necessito que contribuas: tens de voltar a ficar pequenino e permanecer dentro da caixa de cartão e só sair de lá quando eu te pedir que o faças, de outro modo, a paixão transformar-se-ia em amor e, sabendo que não serias capaz de corresponder, pelo menos por agora, voltaria tudo ao principio. 

É da natureza do ser humano não deixar sarar as feridas como deve ser, está no sangue arrancar a crosta e passar pelo mesmo processo de recuperação e, como tal, eu sei que vou voltar a tirar-te da caixa, pelo facto de o vazio, o tempo e o silêncio serem mais fáceis de contornar contigo, pois foste o único que me fez sonhar e acreditar apesar de todas as minhas fragilidades. No entanto, partiste por agora, mas não foste para longe, porque não é o tempo e o lugar que alteram os factos e o bater do coração, é o saber e o querer, ou não, continuar a amar (-Te). 

Corri as cortinas no sentido contrário, já conseguia ver o sol sem precisar de ver o brilho do teu olhar, e encostanto a face à fresca transparência do vidro, percebi que fora destas quatro paredes há alguém que me espera, alguém que está disposto a amar-me por aquilo que sou, apenas não sei onde se encontra e como o hei-de chamar, contudo tenho tempo e posso esperar até ao dia em que os nossos caminhos se cruzarão. E aí, talvez te possa voltar a retirar de pequena caixa de cartão; talvez o possa fazer em definitivo porque talvez sejas tu esse alguém que fará parte da minha vida. Talvez a tua paixão nasça, resista ao tempo e se transforme em amor, mas, por enquanto, são demasiados “talvez” e eu não sei se saberei esperar e aguentar por todos eles. Portanto, o melhor é não equacionar finais e rasurar um ponto final definitivo, mas recomeçar como se este fosse o dia em que te vi pela primeira vez!


Parte do que sou. Junho, 2010

Comentários

  1. Adorei :).

    Lindíssimo!!! Parabéns!!!!

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  2. Saber o que se quer é um grande dom!

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  3. Amiga texto maravilhoso mais a vida continua
    Blog: http://arrasandonobatomvermelho.blogspot.com.br
    Canal de youtube: http://www.youtube.com/NekitaReis

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  4. A vida pode não ser um mar de rosas mas é um mar de esperança e para quem não é, deveria ser. E o amor, é a base de tudo, mesmo para quem diz não amar.

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  5. R. Sem dúvida ..
    Também estou a ler esse livro :)

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  6. Gostei do que disseste, e tens toda a razão faz parte do ser humano nâo deixar sarar as feridas, e arrancar as crostras...

    Bjxxx

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  7. Os teus textos são simples, facéis de se ler e isso torna-os tão lindos!

    r: Eu amava os D.A.M.A, agora que os vi ao vivo estou rendida! Tens mesmo de os ver.
    Os 1D, eu sou fã desde o x-factor (eles conquistaram qualquer um naquela altura), mas tornei-me directioner mesmo há 2 anos e com este concerto bem... Foi como começar tudo outra vez... "Apaixonares-te" por eles do início sem nunca teres deixado de gostar deles. Eles são fantásticos!

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  8. Que texto maravilhoso. Os recomeços são sempre portas abertas para um futuro risonho.

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  9. Não só li o texto como senti cada palavra. Os amores contam toda uma história tão unica...mas quando é bem vivido conseguimos reve-lo nas palavras de outros =)

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  10. Que belas palavras, fiquei bastante tocada com os dois últimos parágrafos, se quando perdemos alguém pensamos que perdemos o nosso chão que já não vamos acreditar nos nossos objectivos, mas como o passar do tempo voltamos nos a erguer e fortalecermos e dar valor ao nosso "eu" mesmo não estando aquela pessoa.
    Beijinhos
    http://retromaggie.blogspot.pt/

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  11. Que haja sempre lugar para recomeços!

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