Antídoto


Escrever é a cura para todas as dores do coração. 

Há dias em que as saudades fazem marcação cerrada e não deixam a nossa caixa forte descansar, nem nos permitem ter força suficiente para aguentar as lágrimas que teimam em sair. Mas também há dias em que nos fazem explodir o coração do peito, por terem a certeza que serão reconfortadas pelo abraço que tanto anseiam, ou pelo beijo terno que aprenderam a guardar com todo o carinho. Só que o coração não sofre só de saudades. Sobre de angustia, de ausência, de desgosto, de tristeza, de raiva e por amor.

Passei a tratar o papel e a caneta por tu quando aprendi as primeiras letras. E comecei a partilhar os meus segredos assim, no meio de frases inventadas e palavras escolhidas à sorte, como se colocasse uma quantidade imensa de pequenas folhas dobradas em dois com palavras aleatórias no interior de um saco de veludo e as fosse tirando à vez, para depois as juntar a todas numa espécie de puzzle de mil peças. E foi na altura em que ainda não sentia o tempo a escapar por entre os meus dedos que percebi o quanto escrever me fascinava, completava e acalmava. 

Anos mais tarde, passei a juntar a música ao meu processo de escrita. Agora quando me quero abstrair do mundo para me perder no meio das minhas histórias inventadas ou das minhas dores camufladas em realidades que pareço não viver ligo o rádio ou vou ao youtube, e escolho a música que me fará sair a alma do corpo e me leva a viajar enquanto ocupo aquelas folhas em branco com os meus pensamentos e pedaços de uma história que ainda não acabei.

Há músicas que têm essa capacidade de nos transportar ao passado e nos soltarem os dedos, como se o nosso coração saltasse para fora de nós. E esta sensação de liberdade não a troco por nada. Faz-me bem! Faz-me sentir viva, capaz de percorrer o mundo em bicos dos pés ou com a agilidade de um trapezista. Escrever faz-me sonhar. E sonhar contigo. E por breves instantes é como se estivesses novamente aqui do meu lado, de mãos entrelaçadas às minhas e com esse sorriso de menino que me aconchega. Mesmo que não te possa ter de outra forma, serás sempre parte da minha vida naquelas linhas que te dedico, e onde acrescento um cenário encantado e uma narrativa com príncipes, princesas, dragões e sapatos perdidos. E naquelas linhas tu és meu. O meu porto de abrigo onde farei atracar o meu barco, o meu pilar que me ampara, a minha base que me impede de cair e o meu amor maior, inocente e terno, que me protege para sempre.

Gosto de escrever em papel e a lápis - e isso aprendi contigo - por me fazer ficar mais próxima do que quero dizer. Como se as palavras saíssem mais verdadeiras. Não sei se me continuas a ler, ou se alguma vez o chegaste a fazer, mas quero que saibas que as palavras também nos ligaram. E quer seja para te amar mais ou para te esquecer de vez é a elas que irei recorrer, de todas as vezes em que não conseguir aguentar o coração no peito. A imaginação não tem tempo nem lugar. Entra em nós sem pedir licença, por vezes nas piores alturas. Por isso, comprei um caderno preto para andar sempre comigo. Sinto-me a escrever um diário, mas sem tema em concreto ou factos que se passaram durante o dia. Apenas com frases que se criam na minha cabeça e que tenho a necessidade de guardar antes que me esqueça delas. E assim a minha alma descansa e o meu coração sossega. 

Há músicas que me fazem lembrar-te e palavras que me ajudam a esquecer-te. Por isso concilio as duas neste percurso antagónico e confuso que me invade. E sinto-me tal e qual assim: «Tu gostas muito daquela pessoa, mas ela por vezes tem atitudes que fazem com que tu a odeies. É estranho, é como se desse vontade de lhe dares um tiro e logo a seguir correres na frente para a protegeres da bala...».

E agora se me permites, vou pôr o volume no máximo, pegar no lápis e abrir o caderno de capa preta. É que voltaste a aparecer-me nos sonhos e a remexer no meu coração. E eu preciso de sarar as feridas.




«Tem dias que eu acordo pensando em você, em fração de segundos vejo o mundo desabar. Aí que cai a ficha, que eu não vou te ver. Será que esse vazio um dia vai me abandonar? (...) Eu trocaria tudo para te ter aqui. Eu troco minha paz por umbeijo seu, eu troco meu destino para viver o seu, eu troco minha cama para dormir na sua, eu troco mil estrelas para te dar a lua e tudo que você quiser. E se você quiser te dou meu sobrenome»    

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21 comentários

  1. It's great! Congratulations
    Do you wanna follow each other? Let me know, i wait for you on my blog :)

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  2. Escrever é libertar-se, é dar vida às palavras que connosco vivem... é expressar-se através de letras, de frases criadas... É uma terapia, que gosto muito também :)
    Parabéns pelo seu blog, um belo cantinho. Um beijinho

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  3. Escreves lindamente e se isso de uma forma ou de outra, cura as tuas dores, nunca deixes de o fazer!
    R: Eu tenho feito um esforço e ser paciente, aguardar por essa mudança. Agora quero ver acontecer. Se não desisto é porque tenho pessoas que gostam de mim e que podia magoar ao desistir assim, de tudo. É o único motivo neste momento. Compreendo, uma voz doce como aquela é perfeito para passar o dia inteiro a ouvir. Ainda à pouco, enquanto arrumava as minhas coisas no quarto, estava a ouvi-lo. É uma paz de alma! Oh, tens de vir então, é um lugar lindo para se passar férias!

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  4. Sabes querida... o amor e o ódio são sentimentos que estão muito próximos. Vê-se mesmo que gostas de escrever e ainda bem, porque o fazes de uma forma magnífica!

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  5. Eu fico fascinada com a tua escrita, transcreves tudo o que sentes e os teus leitores sentem isso, palavra de leitura! Dou-te os parabéns <3 *

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  6. R: Tenho mesmo muita pena das pessoas que têm de desistir dos estudos, quando vejo ou conheço histórias parte-me completamente o coração, já para não falar nos sem abrigo. Opa muito triste!

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  7. R: Não tens nada de agradecer, princesa! Apenas fui sincera e disse a verdade. Eu sei o que isso é, normalmente quando escrevo sinto-me mais livre, mais leve. É como um desabafo de mim para com as palavras. Acho que é um bom porto de abrigo a escrita e recorro várias vezes para suportar as adversidades da vida. Eu não vou desistir, não vou mesmo. Não merecem tanto. Verás que será para breve e vens visitar-me daqui a nada!

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  8. R: Sem dúvida, há pessoas que têm demais e não ajudam, os que ajudam são os que têm menos e disso eu não duvido!

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  9. R: Eu quero é que continues com essa escrita, sabe bem ler estes teus desabafos entendes? :')

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  10. Adorei o cantinho e o texto esta qualquer coisa de magnífico.
    Só a primeira frase chegou para me captar a atenção porque concordo a 100 %
    Parabéns e continuação de boas Escritas. :)

    Segui.

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  11. R: Descreveste na perfeição o que realmente a escrita significa para mim! Quanto à música também não faz muito o meu género mas tenho uma letra linda e faz-me voltar atrás no tempo e recordar-me de coisas fantásticas. As músicas, como dizes no texto, também têm essa capacidade de nos transportar para memórias do passado. Esta música é um exemplo disso!

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  12. Adoro ler o que escreves =)

    Um beijinho e boa semana *

    http://agatadesaltosaltos.blogspot.pt/

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  13. Escrever no blogue ajuda a aliviar a tensão dos nossos corações. Enquanto não somos bem sucedidos, pelo menos a escrita não tem o porquê de julgar ou embaraçar.
    Depois diz-me a tua opinião sobre o site dementia.
    Abraço*

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  14. A escrita é a melhor forma de colocarmos cá fora o que nos magoa por dentro!

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  15. R: Só por si, eu já adoro música. E quando elas me transmitem recordações ou bons sentimentos é qualquer coisa como juntar o útil ao agradável! Eu sei, ela quando estava presente fisicamente protegia-me sempre, sei que agora não o vai deixar de o fazer, não vai ser diferente. Boa semana linda ♥

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  16. Juro que fiquei sem palavras. Escreves maravilhosamente bem.

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  17. muito obrigada, é sempre tão bom saber!
    expressas-te muito bem, adorei. beijinho**

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